segunda-feira, maio 01, 2017

Paterson, de Jim Jarmusch

Jim Jarmusch, um dos meus diretores prediletos (acho que vale alertá-los sobre isso), uma vez disse em uma de suas antológicas entrevistas (sério, são muito boas) que seus filmes não têm um enredo definido porque assim também é a maneira como ele enxerga a vida. Talvez tenha dito isso porque muitos espectadores procuram sentido para os filmes que veem. Não é raro encontrar quem reclame que em sua obra nada realmente acontece.

- É tudo muito simples, ordinário, um saco - já ouvi muito isso.

No entanto, seus filmes pulsam vida, essa vida da qual ele fala na entrevista, com todas as suas possibilidades. O argumento, tão importante, está lá o tempo inteiro: em cada fala que possa parecer deslocada, em cada sequência que possa parecer desencaixada e em cada ação que possa parecer isolada.

Por isso, encarei Paterson como um exercício do diretor que demonstra que sim, mesmo sem enredo o cinema pode existir em sua totalidade como suporte. Afinal, assim é a arte, capaz de nos mover sem um rumo pré-estabelecido.

O protagonista, um motorista de ônibus que dá nome ao filme, é um sujeito comum, mas capaz de se expressar com uma delicadeza desproporcional. Sua poesia desabrocha somente a quem está aberto à experiência. Aí entra a pequena crítica que o diretor faz à tecnologia e sua capacidade de tolher a criação. Olhos apontados para as telas dos celulares limitam a capacidade que temos de ver, absorver e enxergar possibilidades, histórias e experiências. Não é questão de recusar seu uso, o que seria uma estupidez, mas faz-se urgente arrancar os antolhos.

Sem qualquer pretensão em seguir carreira como poeta, Paterson escreve seus versos observando a rotina dos transeuntes e dos passageiros do ônibus que dirige. Usa como insumo para sua poesia sua própria capacidade de exteriorizar o que lhe é interno, mantendo sua obra fechada em um caderno. Convive com uma esposa que, ao contrário dele, busca a cada instante se reinventar em contato com o que é exterior, aplacando assim uma necessidade aguda em entender o que lhe é interno.

Essa necessidade em fazer filmes para que as pessoas repensem (ou, simplesmente, para que sejam capazes de entendê-los) suas vidas ordinárias sempre foi uma recusa de Jim Jarmusch. É justamente a diferença mais marcante entre a sua obra e o que é comumente consumido e entendido como cinema de entretenimento. Por isso, vez em quando, repele os espectadores mais desavisados - o que é uma questão cara à arte como um todo.

Adam "Driver" faz um "motorista" de ônibus! Sacou?

O cinema pode ser uma experiência arrebatadora, ainda que tão simples quanto a vida de Paterson. Não há um enredo, mas existe uma potência para que a sensibilidade seja capaz de aflorar com uma facilidade espantosa naqueles que conseguem ler os versos que estão ali, na cara, impressos na fotografia, escancarados na tela.

Acho que nem preciso falar da parte técnica de Paterson. Dos atores, tampouco. Por exemplo, que diferença faz saber que um deles fez Guerra nas Estrelas? Não parece uma informação completamente desnecessária? Ou talvez seja necessária apenas para quem tem aquela velha convicção sobre como o cinema deve ser.