sexta-feira, fevereiro 17, 2017

Animais noturnos (Nocturnal animals), de Tom Ford

Pode-se dizer que Animais noturnos é uma meta-adaptação. Explico: o que se vê durante a projeção é a recriação cênica do que a protagonista imagina ao ler um livro escrito por seu ex-marido, em cuja folha de rosto há uma dedicatória a sua pessoa. O interessante é que o conteúdo do texto - e, logo, de parte do filme - é bastante forte e impactante. Pano para manga, já que adaptações da literatura para o cinema costumam errar justamente na adequação ao suporte. Aqui, são três os suportes: o filme em si, o livro dentro do filme e o filme adaptado desse livro que, em si, não existe. Eu hein! Baita desafio.

Amy Adams interpreta a proprietária de uma galeria de arte que teve sua vida completamente alterada no passado, quando se envolveu com um outro homem fora de seu casamento. Infeliz no trabalho e na vida conjugal, um dia ela recebe o manuscrito do tal livro de seu ex-marido (Jake Gyllenhaal), que em breve será publicado. A história fala sobre um homem que se desentende com um grupo de arruaceiros em uma estrada deserta do Texas (olha o mapa ali no poster, uma boa sacada!), colocando sua família em risco. Os personagens e seus comportamentos guardam semelhanças com a vida que os dois levavam no passado.

A primeira hora de filme é espetacular. Um suspense daqueles capaz de prender o espectador na poltrona com um roteiro inteligente e repleto de reviravoltas. No entanto, o argumento se resolve ali mesmo, fazendo com que a hora seguinte seja um pouco enfadonha, mais lenta e até, em certo ponto, previsível. Inclusive, o desfecho do livro, como mostrado em forma de filme, é um pouco preguiçoso. Impossível não imaginar que um leitor que passasse pela adrenalina das páginas iniciais não fosse se decepcionar com o último capítulo caso comprasse um exemplar.

Crianças, o leopardo é um animal noturno.
Apesar dessa pequena decepção com a estrutura narrativa do metalivro, o desfecho do "filme em si" (bateu síndrome de Heidegger com a "coisa em si"...) é acertado. Rápido, direto, montado de forma simples, sem muitas explicações ou especulações. Filmar o impacto de uma leitura numa personagem fílmica é uma tarefa bastante complexa, mas no fim das contas o diretor Tom Ford cumpre de forma respeitável a demanda.

Um filme diferente. Em si.

2 comentários:

Timotheo Corrêa disse...

não vejo a hora de assistir esse filme...

Kamila Azevedo disse...

Num primeiro olhar, achei o final do filme muito ruim, mas, depois, percebi a genialidade do final, aberto às interpretações. O livro de Edward Sheffield que é "encenado" durante o longa é sensacional. Um suspense que nos tira da cadeira, como você bem disse.