domingo, janeiro 29, 2017

La la land, de Damien Chazelle

Durante a projeção, eu só me lembrava de Lars Von Trier e seu Dançando no escuro. Selma, interpretada brilhantemente por Björk, dizia que gostava dos musicais porque neles nada de mal realmente acontece. O que o diretor dinamarquês queria dizer com isso é que faz parte da estrutura do gênero as constantes quebras na narrativa, que acabam por atenuar qualquer dureza de um realismo mais intenso. Em La la land, de fato, nem tudo são flores e há interrupções musicais. O problema é que nada acontece. Nem algo bom, nem algo ruim. Simplesmente nada. E para piorar - ou não - o filme não se assume como um musical, mas sim como um protomusical.

Acompanhamos a história de um homem e uma mulher que respiram o star system da Los Angeles cinematográfica. Ele, um pianista, amante de jazz, frustrado por ter que tocar um tipo de música que não quer. Ela, uma balconista de cafeteria que, enquanto atende estrelas de Hollywood, participa de testes de elenco em busca do estrelato. Os dois se cruzem na "Cidade dos Sonhos" lynchiana e passam a compartilhar seus sonhos, por mais que de início isso pareça impossível - senão não tinha história de amor, né?

A primeira questão que faz de La la land um filme fraco é o enjeitamento e a apatia dos personagens. Ambos são rasos, chatos e cheios de questões desinteressantes. Nem a excelente Ema Stone, por mais que se esforce, consegue injetar um pouco de empatia ao seu papel. Depois, o rumo que suas vidas seguem são enfadonhos, previsíveis e ordinários, a ponto de não justificarem nenhum número musical. Ou seja, as canções e letras versam sobre corriqueirices que parecem ter sido escolhidas para as tais quebras narrativas de forma totalmente aleatória. Para piorar, o que deve ter irritado os fãs do gênero, há um hiato bastante longo no qual não há uma cena musical sequer - por isso chamei o filme, lá em cima, de protomusical.

Obviamente, na qualidade de grande produção, La la land tem alguns acertos. O plano sequência inicial é muito bem feito e ensaiado. Mas as ousadias estética e coreográfica param ali. Há também algumas referências bacanas ao longo da projeção, como as cenas no observatório de Los Angeles, relembrando clássicos que usaram o local como cenário. Curiosamente, há uma tentativa de terminar o filme como Casablanca, uma referência cinematográfica (apesar de não tratar-se de um musical) assumida logo no início da projeção. No entanto, fica na tentativa. Se eu falar mais, caracteriza-se um spoiler, e não quero irritar meus meia-dúzia de leitores que ainda não assistiram ao filme.

Outra curiosidade é a implicância do personagem de Ryan Gosling com o samba. Ele critica um antigo clube de jazz por deixar de abrigar o gênero para dar espaço a músicos de samba. E fala samba com aquela ojeriza de quem não conhece Cartola, Nelson Cavaquinho, João Gilberto ou a Bossa Nova - esta, por exemplo, que se assemelha em termos harmônicos com o jazz.

"Então você não gosta de samba? Conte-me mais..."
Enfim, um filme chato.

Um comentário:

Larissa disse...

Boa, Edu! Até deu vontade de ver o filme pra poder criticar também, rs.
Boa lembrança a do Dançando no Escuro... talvez o único musical a quebrar com tanta felicidade?