sábado, janeiro 28, 2017

Até o último homem (Hacksaw Ridge), de Mel Gibson


Mel Gibson é um sujeito estranho. Em 2004, fez aquele filme louco sobre a crucificação de Cristo, falado em aramaico, que deixou muita gente chocada. Deu declarações equivocadas sobre os judeus e, sendo assim, enfureceu os membros da academia estadunidense. Virou persona non grata por lá e andou se envolvendo em alguns pequenos delitos, como dirigir alcoolizado, que renderam muitas manchetes para tabloides. Depois, rodou aquele filme sobre os maias, falado num dialeto indígena, que ninguém entendeu nada. Nem os maias, que ficaram fulos da vida com o cara.

Aí, uma década depois, ele lança Até o último homem e recebe seis indicações para o Oscar. Tá bom, então.

Parece que Mel Gibson resolveu fazer um pedido de desculpas em forma de filme, adulando os membros da academia que outrora o apedrejaram. A receita é muito simples e funciona: basta misturar, na mesma produção, a Segunda Guerra Mundial com uma história verídica de um herói militar. O diretor escolheu a lenda de Desmond Doss, um soldado que serviu como médico no Pacífico, salvando a vida de milhares de homens feridos no campo de batalha. A curiosidade é que ele era o que se chamava de "opositor consciente" - ou seja, por conta de sua crença religiosa, recusava-se a segurar uma arma e matar o inimigo. Interessante, né?

Conta a História que ele participou ativamente da batalha pela conquista de Okinawa, província ao sul do Japão cuja tomada poderia dar fim ao confronto. Para isso, era preciso passar por uma cordilheira que já havia ceifado dezenas de companhias estadunidenses, a tal Hacksaw Ridge que dá nome ao filme. Eis o roteiro que todos os membros da academia vão amar de paixão. Malandro esse Gibson.

Ué, mas ele não era um "opositor consciente", gente? Então...
O filme é fraco, bem fraco. As cenas de batalha até são bem filmadas, fato. Realistas, agressivas e violentas. Se bem que disso o diretor entende, dada a carnificina de seus dois filmes anteriores. No entanto, a maneira de contar a história é insossa e monótona. O personagem - ficcional, e não o Desmond Doss verdadeiro - é chato, fastidioso e sem graça. O roteiro é mal ajambrado, feito nas coxas, num ritmo lento e enfadonho que só é quebrado quando há combate, o que acontece muito pouco. Como a maioria dos filmes sobre Segunda Guerra Mundial, há aquele tom fajuto de resiliência, que acaba num festival de clichês melodramáticos, incluindo ao final da projeção algumas mini-entrevistas com os militares que participaram da guerra.

Mas parece que tem quem goste disso. Né, Mel Gibson?

Um comentário:

Kamila disse...

Poxa, Dudu, não seja tão duro com o Mel Gibson.... Após o infame acontecimento em que ele se envolveu, ele trabalhou o vício em álcool, seus relacionamentos pessoais problemáticos e tem tentado recuperar as arestas de sua vida... Todos merecemos uma segunda chance. As indicações conquistadas por "Até o Último Homem" mostram que Hollywood o perdoou.