quarta-feira, dezembro 21, 2016

A chegada (Arrival), de Denis Villeneuve

Eu sou apaixonado por ficção-científica. Em grande parte porque, ao transcender os limites humanos de tecnologia, tempo e espaço, impostos por nosso diminuto conhecimento  sobre o universo, somos capazes de realizar um exercício de criatividade que gera uma reflexão livre de amarras ou conceitos. É um gênero que sempre funcionou muito bem na literatura por não necessitar de suporte visual. Não à toa, A chegada, do diretor Denis Villeneuve, é adaptado de um conto escrito por Ted Chiang em 1998, chamado A história da sua vida.  Em entrevista recente, o autor se disse impressionado com a força da adaptação. Ainda não li o livro (já está no meu Kindle), mas o que vi no cinema me deixou completamente boquiaberto. Que filme!

O grande barato é que os recursos visuais, quem diria, nem são tão elaborados assim em A chegada. Na verdade, eles não fazem a menor diferença. O argumento, maravilhosamente humanista e científico, os dois ao mesmo tempo, trabalha em seu núcleo uma questão aparentemente muito simples: a linguagem, ou a capacidade de nos comunicarmos, é o que nos mantém unidos em uma sociedade organizada. Quando seres alienígenas chegam ao nosso planeta munidos de um sistema linguístico completamente diferente do que conhecemos, como proceder para entender suas intenções?

É aí que entra a personagem principal, uma doutora em linguística - muito bem interpretada pela sempre irretocável Amy Adams - que tem como árdua tarefa, além de decifrar os diagramas circulares aparentemente incompreensíveis dos alienígenas, lutar contra a pequenez dos líderes mundiais em acreditar que, diante daqueles que lhes são desconhecidos, sempre existe uma ameaça. É assim entre seres humanos, não seria diferente diante de uma civilização alienígena. E se aquilo que a protagonista diz é verdade, sobre a língua ser a a cola que mantém as sociedades unidas, será que não está faltando, justamente, diálogo por aqui?

Canta aí com o Human League: "I'm only human..."
No decorrer do filme, a trama vai se construindo de forma que, no desfecho - que é de uma genialidade tocante -, temos exatamente o que de melhor a ficção-científica pode proporcionar enquanto produto da criatividade humana: um pequeno, porém potente, vislumbre do que é vida e como ela está intrinsecamente conectada ao espaço, ao tempo e aos nossos semelhantes, sem precisar para isso teorias científicas, fórmulas matemáticas, estudos linguísticos ou o que quer que seja.

Tanto o início quanto o fim de A chegada têm um capricho audiovisual que é raro em filmes do gênero, atualmente tão contaminados pela necessidade mercadológica de sequências de ação. Mas Villeneuve é um diretor diferente, tem referências. A fotografia e o texto, em montagem harmoniosa, lembram Terrence Malick. O clima de suspense, sem sobressaltos, realizado em camadas, evoca Tarkovski. O casamento entre imagem e trilha sonora, executado com classe, recorda Kubrick (sem contar a estética do objeto, meio 2001 - Uma odisseia no espaço). As últimas cenas são de deixar o espectador com os olhos marejados.

E pensar que esse cara vai dirigir o novo Blade Runner...

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