sábado, janeiro 23, 2016

Ponte dos espiões (Bridge of spies), de Steven Spielberg

Resumindo de forma rasteira o que penso de Spielberg: ele é especializado em fazer filmes para a família média estadunidense. Tem mensagem, tem lição de vida, tem exemplos bem claros do que é bom e o que é ruim, do que é bem e do que é mal, do que se deve ter orgulho e do que se deve ter aversão. O problema é que ele faz isso em todos os filmes, inclusive quando o público é adulto. Mesmo que o argumento comporte, não tem peitinho, não tem violência, não tem palavrão, não tem nem cigarro. Trata os espectadores mais maduros com um zelo desmedido. Ou seja, como debiloides.

Seu novo trabalho, Ponte dos espiões, trata de um tema que é bastante denso, adequado para o público mais velho - principalmente o que está na minha faixa etária. O roteiro conta a história verídica (como Hollywood adora histórias verídicas...) de um advogado trabalhista que é designado pelo governo de seu país, em plena Guerra Fria, para defender um homem acusado de ser espião russo. Exercendo a advocacia com hombridade e probidade, acaba esbarrando no revanchismo típico da época. O Estado quer demonstrar imparcialidade e respeito às convenções internacionais na frente das câmeras, mas deseja, por debaixo dos panos, que o acusado seja condenado à morte.

Um filme sobre espiões, prisões e impasses diplomáticos podia ter violência. Podia ter palavrão também. Podia até ter um par de tetas. Podia ter tortura, já que esse era um método muito usado para se obter informações de prisioneiros políticos. Técnica, inclusive, que os estadunidenses dominavam, emprestando a expertise para outros governos ao redor do mundo, como o Brasil dos Anos de Chumbo. Mas como é do Tio Spielberg, não tem.

A lição está muito clara. O personagem de Tom Hanks, o tal advogado, manda ao inferno agentes da CIA, policiais do FBI e até o juiz da vara onde o processo corre. Desobedece ordens de seus superiores para que faça corpo mole e afrouxe a defesa de seu cliente. As crianças do Tio Spielberg, aqui, aprendem que deve-se ter um senso de justiça sempre reto, mesmo que carreira, vida e família corram perigo. E mesmo que, como aconteceu de verdade, o cidadão consciente de seus deveres e no cumprimento de suas funções seja alvo da furiosa opinião pública, massa de manobra acéfala, que prefere ver o Estado de Direito ignorado para fazer justiça como na lei de talião. Isso dura uma hora de projeção. Apesar do maniqueísmo barato, o segmento tem ritmo, faz lá sua crítica, é bem montado, a fotografia é bem cuidada e a direção de arte é caprichada. Tecnicamente, perfeito.

Que "fria", hein Tom Hanks?!

Então, vem a segunda hora. É quando o mesmo advogado é acionado novamente pelo Estado, agora para interceder em uma troca diplomática: o tal espião russo por um piloto estadunidense capturado em território soviético. A troca acontece em Berlim, exatamente no momento em que o muro era erguido. Entra na história, de gaiato, um estudante de Yale, detido por estar no lugar errado e na hora errada. E aí, Tio Spielberg dá mais uma aula de civilidade e compaixão. Tom Hanks só vai sair da Alemanha, novamente contrariando ordens de seus superiores, com os dois prisioneiros, o piloto e o estudante. Isso também dura uma hora, e apesar do maniqueísmo de romance de banca de jornal, tem lá seu ritmo. A técnica, de novo, está lá.

O filme tem duas horas e vinte minutos. Então, o que acontece nos vinte minutos finais? Tio Spielberg arruína todo o resto com aquele talento que lhe é peculiar. Uma série de cenas desnecessárias, um amontoado de clichês e aquele didatismo horroroso que está presente em todos os filmes que ele dirige, tanto para crianças quanto para adultos.

Fico imaginando Ponte dos espiões dirigido por um Costa-Gavras, por um Ken Loach ou por um Gillo Pontecorvo. Contigo não dá, Tio Spielberg. Foi mal, mas não dá mesmo!

2 comentários:

Kamila Azevedo disse...

Gostei muito de "Ponte dos Espiões", principalmente da dinâmica estabelecida entre as personagens interpretadas por Tom Hanks e Mark Rylance. Achei um filme elegante do ponto de vista cinematográfico e com um grande roteiro!

Renata Laffite disse...

Sem dúvida, é um ótimo filme. Ponte dos Espiões marca o retorno de Steven Spielberg à boa forma e ao modo mais gostoso de se fazer cinema: com criatividade e amor pela arte. Como sempre, Hanks traz sutilezas em sua atuação. O personagem nos cativa, provoca empatia imediata graças a naturalidade do talento do ator para trazer Donovan à vida. Mark Rylance (do óptimo Filme Dunkirk Completo ) faz um Rudolf Abel que não se permite em momento algum sair da personagem ambígua que lhe é proposta, ocasionando uma performance magistral, à prova de qualquer aforismo sentimental que pudesse atrapalhá- lo em seu trabalho, sem deixar de lado um comportamento espirituoso e muito carismático. O trabalho de cores, em que predominam o cinza e o grafite, salienta a dubiedade do caráter geral do mundo. Ponte dos Espiões levanta uma questão muito importante: a necessidade de se fazer a coisa certa, mesmo sabendo que isso vai contra interesses políticos ou de algum grupo dominante. A história aqui contada é baseada em fatos reais, mas remete também ao caso recente do ex-administrador de sistemas da CIA que denunciou o esquema de espionagem do governo americano em 2013 e foi tratado como um traidor, mesmo que tenha tido a atitude correta. É uma crítica clara à hipocrisia norte-americana, que trabalha sempre com dois pesos e duas medidas em se tratando de assuntos como esse.