segunda-feira, janeiro 11, 2016

Os oito odiados (The hateful eight), de Quentin Tarantino

Tarantino é um diretor que dispensa apresentações e quem frequenta esse blog sabe que seu modo de fazer cinema me agrada muito. Ele se apropria de uma estética cinematográfica que já existe e faz uma espécie de homenagem, dando ao filme sua rubrica. Em Django livre, o cara se aventurou pelo mundo dos westerns - algo ousado e complicado de ser realizado com sucesso, dado o totemismo com o qual esse gênero sempre foi tratado. Tarantino mandou às favas os tabus e fez um filmaço. Agora, ele repete o esquema em Os oito odiados - seu oitavo filme, seria medo de ser odiado? - e repete o êxito. Aprendeu direitinho o riscado do Velho Oeste.

Aqui, o argumento é bem simples. As oito personagens do filme se encontram em uma espécie de estalagem, a caminho da cidade de Red Rock, onde se abrigam de uma forte tempestade no severo inverno de Wyoming. Como nos westerns clássicos, de Sergio Leone, Sam Peckinpah e John Ford, todos os "odiados" são apresentados com calma, em seus minuciosos detalhes, com escrúpulos à prova, para pouco depois haver um impasse - este, resolvido de forma inesperada e imprevisível, dada a permissividade daquela época, quando a pistola era a lei. Essa essência dos roteiros westerns, que os torna tão bacanas, em Os oito odiados é resolvida com aquela criatividade peculiar de Tarantino.

Os acertos são muitos, a começar pela direção de atores. Todos que entram em quadro - todos mesmo - são imprescindíveis para o filme. As atuações são irretocáveis, ajudadas, justiça seja feita, pela imaginação fértil de Tarantino que criou figuras tão peculiares: o major negro pós-Guerra Civil caçador de recompensas de Samuel L. Jackson; a bandida desbocada e desinibida de Jennifer Jason Leigh, irreconhecível; o vaqueiro estoico de Michael Madsen; e o divertido carrasco inglês de Tim Roth (apesar da inevitável comparação do trabalho do ator com Christopher Waltz, que lamentavelmente ficou de fora dessa vez).

Western que se preze tem que ter impasse.

A trilha sonora de Ennio Morricone, justamente premiada no Globo de Ouro, é a cereja no bolo. Originalmente composta para o filme, mesmo com uma pequena implicância do compositor para com o diretor, é absolutamente incrível. Já nos minutos iniciais, o tema principal gruda na cabeça. Dá o clima ideal para ambientar a história. Coisa de gênio mesmo. Ninguém tinha dúvida de que seria assim, né?

E que fotografia! Ajudada pela mixagem de som, sim. O barulho do vento frio fora da estalagem sibila pelas caixas de som, fazendo com que o guisado servido às personagens lá pelo meio do filme, quentinho, com direito à fumaça saindo, parecesse delicioso (para quem não sabe, trata-se de um ensopado feito com miúdos, zero gourmet). O mesmo acontece com o café, que acaba se tornando, de forma bastante criativa, um objeto de cena. Sem contar a ousadia de Tarantino não só em filmar, mas também em insistir que o filme tivesse algumas exibições em 70mm, um tipo de celuloide que quase não encontra mais projetores no mundo. Apenas algumas dezenas foram disponibilizadas ao redor do globo, para que um seleto grupo de sortudos tivesse essa experiência estética típica dos westerns de antigamente.

São três horas de filme editadas perfeitamente em capítulos que, dada a montagem competente, passam voando. Uma experiência cinematográfica para quem gosta de apreciar os detalhes e as referências - coisa que Tarantino sabe fazer como ninguém.

Filmaço!

Um comentário:

Kamila Azevedo disse...

Tarantino é Tarantino! Sempre fico ansiosa para conferir seus novos filmes.