domingo, janeiro 17, 2016

O regresso (The revenant), de Alejandro González Iñárritu

Iñárritu parece ter conquistado de vez a indústria cinematográfica. Talento, ele tem de sobra! É um diretor com técnica e estofo, justamente premiado ano passado com Birdman. Agora, com O regresso, é bem capaz de sagrar-se bicampeão. Trata-se de uma obra cinematográfica feita por quem entende do assunto. A prova disso é conseguir transformar um roteiro ordinário em um filme com cadência e estética apuradas.

Muita gente diz que a história Hugh Glass, o protagonista vivido por Leonardo DiCaprio, é real. Mas não é bem assim. Acontece que o roteiro do filme é baseado num livro que é baseado numa lenda das regiões montanhosas da região norte dos Estados Unidos. O tal Glass foi um experiente explorador que viveu lá nos idos de 1800. Acostumado às intempéries e aos perigos desse inóspito lugar, sobreviveu ao ataque de um urso. Dado como morto, foi abandonado e deixado para morrer sem os seus pertences. No entanto, ele sobrevive milagrosamente. Todo estropiado, rastejou milhas na neve para encontrar os dois homens  responsáveis por tê-lo abandonado, buscando vingança. Encontra os dois, em locais diferentes, após anos de procura. Não mata nenhum dos dois porque, vendo-os arrependidos, percebe que a vida vale muito para ser tratada com mesquinharia. Logo, temos aí uma lição cunhada para os homens da montanha: nunca desista de viver.

O filme de Iñárritu dá uma romanceada na narrativa. Coloca Hugh Glass como um ex-membro de uma tribo local que perdeu a esposa e a casa por conta dos conflitos entre o homem branco e os peles-vermelhas. Ele acaba se tornando uma espécie de homem da montanha que serve de guia para os soldados estadunidenses. Carrega com ele seu filho, tudo que lhe resta de lembrança da sua pacata vida como chefe de família. O rapazola, na narrativa de Iñárritu, é um artifício para que o roteiro tenha uma linha dramática que justifique o que virá a seguir. Trata-se, enfaticamente, de mais uma história de vingança, sem aquela mensagem humanista. É sangue nos olhos e faca nos dentes, com a mesma inverossimilhança da lenda original.

Desde a experiência bem sucedida em Birdman, o diretor mexicano parece ter encontrado uma linguagem para chamar de sua. Iñárritu, mais uma vez, usa de forma bastante consciente os planos-sequência que tanto chamaram atenção no premiado filme do homem-pássaro. Aqui, faz com que as cenas nos campos de batalha ganhem um tratamento bem realista. Outro acerto é na fotografia, densa e escurecida, ajudada pela imponência das locações. O diretor opto por usar somente luz natural, o que, apesar da trabalheira que deve ter dado, confere ainda mais beleza à composição estética.

O estranho fica por conta do uso também excessivo da computação gráfica. Há algumas cenas que desmerecem todo esse naturalismo caprichado que é aplicado à fotografia e à direção de arte. Quando Glass é espancado pelo urso, por exemplo, não há como não perceber que se trata de uma animação computadorizada. O mesmo numa rápida sequência na qual há búfalos correndo na neve. Acho que eram búfalos, não lembro aqui, mas não faz diferença - é meio tosco.

Ai ai ai, ui Blau Blau!
Outro ponto fraco é a direção de atores, por mais que DiCaprio mereça o Oscar. Seu personagem é difícil, de composição complexa e com desafios cênicos que não é qualquer ator que topa. Pelo visto, chegou sua hora de ser agraciado com aquela estátua dourada. Apesar disso, os outros personagens não são tão interessantes, construídos sob um maniqueísmo novelesco do qual, confesso, tenho aversão. Atuações muito rasas para um filme do porte de Iñárritu.

No fim das contas, O regresso consegue ser um filme interessante. Nada de muito brilhante, mas bem interessante.

Um comentário:

Kamila Azevedo disse...

"O Regresso" vem com tudo nessa atual temporada de premiações. Particularmente, estou bastante ansiosa para conferir o filme.