domingo, janeiro 10, 2016

O clã (El clan), de Pablo Trapero

Pablo Trapero foi alçado ao estrelato mundial após seu belíssimo trabalho de direção em Abutre - um filmaço! O clã, sua mais nova produção, chegou ao Brasil com aquelas ovações todas, o poster cheio de estrelinhas, de "magnífico" escrito em caixa alta etc. Ou seja, estão fazendo com o filme o mesmo que fizeram com o bem mediano Relatos selvagens, do então inexperiente Damián Szifrón, ambos produzidos por Pedro Almodóvar. Finalmente, estaríamos diante de algo digno da qualidade audiovisual argentina?

Não. Nem foi dessa vez. Não que seja um filme ruim, mas é regular novamente. O argumento parte de uma história verídica acontecida na Argentina pós-ditadura, uma das mais violentas da América Latina. Conta a história de um zeloso pai de família que, acostumado a sequestrar e torturar opositores do governo, agora ganha a vida e mantém seu status social com outra clientela: os mais abastados dos bairros nobres de Buenos Aires. Para isso, envolve um de seus filhos nos negócios. O resto da família faz vista grossa para os sequestrados que eles levam para casa e prendem num quartinho, ignorando com naturalidade choros, gritos e pedidos de socorro.

Trapero, diferentemente de seu conterrâneo Szifrón, é um diretor que entende do ofício. Logo, seu filme merecia uma montagem mais dinâmica, menos careta. Aqui, ele tenta contar a história em dois momentos passados distintos e acaba meio que se embananando com o ritmo da narrativa. Fato que comprova isso é a sequência final, quando não há mais essa divisão temporal. São pouco mais de 15 minutos de tirar o fôlego que valem o ingresso. A direção de atores acaba sendo relapsa, com personagens que a todo instante estão em quadro, mas que são mal desenvolvidos. Pelo menos os dois protagonistas, pai e filho, têm atuações irretocáveis. O grande público não vai sentir tanta falta assim do Ricardo Darín.

"Essa família é muito unida e também muito ouriçada."
O outro problema está, vejam só, surpreendentemente, no roteiro. Há um buraco enorme, escancarado, que deve ter sido aberto para romancear a história verídica. Buraco esse que talvez passe despercebido pela maioria dos espectadores, mas que inviabiliza o tratamento romanesco que Trapero quis dar ao seu roteiro. Sem spoilers, ele acontece logo no início do filme, quando uma das vítimas sequestradas é o amigo do filho envolvido - e este participa da emboscada como isca, encenando ser sequestrado também.

Mais um filme superestimado. O cinema argentino tem coisa bem melhor para oferecer e Trapero, também.

Um comentário:

Kamila Azevedo disse...

Gosto do trabalho de Pablo Trapero e quero muito assistir a "O Clã", assim que tiver a oportunidade pra isso.