domingo, janeiro 31, 2016

Anomalisa, de Duke Johnson e Charlie Kaufman

O bacana de ser roteirista, acredito, é poder viajar na maionese - e que o diretor se desdobre para dar conta de colocar na tela o que está escrito no papel. O mesmo que acontece entre arquitetos e engenheiros: o primeiro desenha e o segundo, se vira. No entanto, quando os dois entram em sintonia, o que se tem é um belo resultado final. Sempre foi assim com Charlie Kaufman, um dos roteiristas mais criativos do nosso tempo. Em Anomalisa, sua parceria com Duke Johnson foi um pouco além do texto, apropriando-se de bonecos para falar sobre uma questão essencialmente humana, a solidão.

Acompanhamos a história de Michael Stone, um homem de meia idade que está em crise: a ele, todas as conversas são as mesmas, todas as pessoas têm o mesmo rosto e até o mesmo tom de voz. Todos os dias são o mesmo. Em viagem de negócios, na qual vai falar sobre novas técnicas para otimizar centrais de atendimento ao cliente, ele conhece uma mulher - ou boneca - que parece ser diferente dos demais, hospedada no mesmo andar que ele. Disposto a abandonar tudo, "carreira, dinheiro, canudo", começa a acreditar que pode novamente ser feliz.

Dado a termos psicanalíticos e desordens mentais, aqui Kaufman explora a Síndrome de Fergoli, uma rara condição na qual o paciente acredita que todas as pessoas que o cercam são a mesma, disfarçada para persegui-lo e espioná-lo. Em Anomalisa, o protagonista não sofre desse mal, mas o hotel em que se hospeda chama-se, justamente, Fergoli, o que acrescenta à trama traços mais profundos da psique humana.

Uma cena de amor entre dois bonecos... Tem que se garantir!

Trata-se de um acerto do início ao fim. Forte, denso, emocionante e, por incrível que pareça, um dos filmes mais humanos da temporada, confirmando o acerto em fazer do argumento uma animação de bonecos. Os desafios que essa linguagem impõem são transpostos com perfeição. Por exemplo, consegue imaginar uma cena de sexo séria, intensa e emocionante entre dois bonecos? Pois é, é disso que estamos falando aqui.

Genial sem ser pedante. Complexo, mas cheio de simplicidade.

Um comentário:

Kamila Azevedo disse...

Ainda não assisti "Anomalisa", mas estou bem curiosa em relação ao filme, especialmente por se tratar de algo vindo de Charlie Kaufman!