quarta-feira, dezembro 21, 2016

A chegada (Arrival), de Denis Villeneuve

Eu sou apaixonado por ficção-científica. Em grande parte porque, ao transcender os limites humanos de tecnologia, tempo e espaço, impostos por nosso diminuto conhecimento  sobre o universo, somos capazes de realizar um exercício de criatividade que gera uma reflexão livre de amarras ou conceitos. É um gênero que sempre funcionou muito bem na literatura por não necessitar de suporte visual. Não à toa, A chegada, do diretor Denis Villeneuve, é adaptado de um conto escrito por Ted Chiang em 1998, chamado A história da sua vida.  Em entrevista recente, o autor se disse impressionado com a força da adaptação. Ainda não li o livro (já está no meu Kindle), mas o que vi no cinema me deixou completamente boquiaberto. Que filme!

O grande barato é que os recursos visuais, quem diria, nem são tão elaborados assim em A chegada. Na verdade, eles não fazem a menor diferença. O argumento, maravilhosamente humanista e científico, os dois ao mesmo tempo, trabalha em seu núcleo uma questão aparentemente muito simples: a linguagem, ou a capacidade de nos comunicarmos, é o que nos mantém unidos em uma sociedade organizada. Quando seres alienígenas chegam ao nosso planeta munidos de um sistema linguístico completamente diferente do que conhecemos, como proceder para entender suas intenções?

É aí que entra a personagem principal, uma doutora em linguística - muito bem interpretada pela sempre irretocável Amy Adams - que tem como árdua tarefa, além de decifrar os diagramas circulares aparentemente incompreensíveis dos alienígenas, lutar contra a pequenez dos líderes mundiais em acreditar que, diante daqueles que lhes são desconhecidos, sempre existe uma ameaça. É assim entre seres humanos, não seria diferente diante de uma civilização alienígena. E se aquilo que a protagonista diz é verdade, sobre a língua ser a a cola que mantém as sociedades unidas, será que não está faltando, justamente, diálogo por aqui?

Canta aí com o Human League: "I'm only human..."
No decorrer do filme, a trama vai se construindo de forma que, no desfecho - que é de uma genialidade tocante -, temos exatamente o que de melhor a ficção-científica pode proporcionar enquanto produto da criatividade humana: um pequeno, porém potente, vislumbre do que é vida e como ela está intrinsecamente conectada ao espaço, ao tempo e aos nossos semelhantes, sem precisar para isso teorias científicas, fórmulas matemáticas, estudos linguísticos ou o que quer que seja.

Tanto o início quanto o fim de A chegada têm um capricho audiovisual que é raro em filmes do gênero, atualmente tão contaminados pela necessidade mercadológica de sequências de ação. Mas Villeneuve é um diretor diferente, tem referências. A fotografia e o texto, em montagem harmoniosa, lembram Terrence Malick. O clima de suspense, sem sobressaltos, realizado em camadas, evoca Tarkovski. O casamento entre imagem e trilha sonora, executado com classe, recorda Kubrick (sem contar a estética do objeto, meio 2001 - Uma odisseia no espaço). As últimas cenas são de deixar o espectador com os olhos marejados.

E pensar que esse cara vai dirigir o novo Blade Runner...

terça-feira, dezembro 20, 2016

Rogue One - Uma história Star Wars, de Gareth Edwards

Parece que a gente vai continuar quebrando a cara, hein? Naquela remota data em que a Disney anunciou a compra da franquia Star Wars, fãs do mundo inteiro temeram pela qualidade da série, com receio de que uma onda provinciana estragasse um dos maiores sucessos de bilheteria da história do cinema. Fato é que, desde então, o pessoal por lá acertou em cheio. Comparado com os três primeiros episódios, produzidos antes da turma do rato falante assumir o controle, O despertar da Força e Rogue One são verdadeiras pérolas para quem curte a saga.

Aqui, acompanhamos os acontecimentos que antecedem o episódio 4, Uma nova esperança, o primeiro a ser lançado lá em 1977. Ou seja, vamos saber como os planos para destruir a Estrela da Morte foram parar nas mãos dos rebeldes - mais precisamente, nas mãos da Princesa Léa, que coloca o arquivo no R2-D2, que é vendido para o Luke, que é atacado pelo Povo da Areia e que é salvo pelo Obi-Wan Kenobi. Ou seja, tudo se encaixa perfeitamente e faz sentido, incluindo aí a emblemática frase que é repetida algumas vezes durante a projeção de Rogue One e que dá a deixa para o título do filme seguinte: rebeliões têm em comum a esperança.

Tecnicamente, a produção é perfeita. Explosões, efeitos especiais, rasantes aéreos, armas tecnológicas, exoplanetas, alienígenas esquisitos: tudo o que esperamos de um filme Star Wars está lá, impecavelmente criado e modelado para o entretenimento. O roteiro, obviamente, tem lá seus deslizes: algumas mensagens aqui, uma penca de lições de vida acolá. No entanto, é corajoso o suficiente para mostrar que durante uma rebelião, rebeldes cometem atos de... rebeldia, que vão muito além de quebrar vidraça de banco.

O núcleo de protagonistas de Rogue One é movido por uma causa humanista, com uma sólida base social e política, e que coloca até mesmo a Força, que é tão importante em todos os outros episódios de Star Wars, em segundo plano, tornando-se até substrato para uma gag bem divertida. Os objetivos são atingidos através do coletivismo. A força, aqui, é a união por um ideal. O movimento, podemos concluir, é laico.

Percebem? Rebeldes, resistência, Império, controle político... Bom, de volta ao filme.

Os personagens são um pouco mais complexos do que nas produções anteriores, buscando se afastar do maniqueísmo típico dos filmes de ação, ainda que de vez em quando (e isso é parte dos deslizes que comentei no parágrafo anterior), seja impossível se distanciar dos maneirismos que marcam heróis e vilões. Bom, estamos falando de Star Wars, não é mesmo? Logo, é demais exigir alguma complexidade no pathos de seus protagonistas. O grande destaque é o robô K-2SO - que tem o mesmo efeito de contraponto humano de seus antecessores androides.

No entanto, é divertido ver o pessoal torcendo para os "mercenários" e "black blocks" rebeldes. Fico imaginando a GloboNews fazendo a cobertura de um ataque ao Império... Ops, de volta ao filme!

Somos todos contra a corrupção.
O desfecho é ótimo e só confirma como George Lucas entendia de futurismo. A cena final, e isso não deve soar como spoiler, já que é meio óbvio, se passa no mesmo cenário, com personagens usando os mesmos figurinos e artefatos, do início do episódio 4. No entanto, ainda assim conseguimos ter a noção de que a história é ambientada numa galáxia muito distante, há milhões de anos-luz de distância. O design de 1977 parece perfeitamente criado para ser utilizado em pleno 2016 num filme de ficção-científica. Inclusive, vemos uma série de ícones do primeiro filme sendo reutilizados como pequenas homenagens (por exemplo, aquela bebida azul-calcinha que eles tomam num copo retangular, lembram?) que agradam o público mais experiente - ou seja, falando francamente, mais nerd. Taí um feito para poucos. Máximo respeito a George Lucas e sua equipe.

Então é isso: vamos esquecer os três primeiros episódios da série e esperar, ansiosos, o episódio 8.

quarta-feira, março 30, 2016

Cineminha com a Duda - Zootopia

Atendendo a pedidos, ela está de volta. A coluna mais lida deste blog retorna em grande estilo resenhando o novo sucesso da Disney. Ela gostou do filme e vai contar a vocês por quê. Já o pai... Bom, a palavra é dela.

Oi, gente! Voltei a escrever sobre filmes. Vou contar um pouco como é o Zootopia. E que comece o cineminha com a Duda!

Uma coelha chamada Judy, quando ela era filhote, faz um teatrinho na escola com seus amigos dizendo que queria um mundo em que todos os animais fossem amigos. Aí, quando ela cresce, decide viajar para Zootopia e ser policial lá. Ela treina, mas lá escolhem a função que cada um vai fazer. Ela acaba sendo guarda de trânsito, e aplica 200 multas. Um dia ela encontra uma raposa que aplica golpes. Mas depois ajuda ela a desvendar um mistério: procurar uma lontra que tinha desaparecido.

Não teve nenhuma parte que eu mais gostei, porque eu gostei do filme todo. Meu personagem favorito foi a coelha Judy Hopps. Esse foi um dos filmes que eu mais gostei. Eu daria 10 estrelinhas para ele. Eu fui ao cinema com meu pai, minha mãe, minha amiga Maria Eduarda Sá e a mãe dela.

Só esqueci de perguntar pra Duda Sá se ela gostou...

Obs.: Eu só escrevi sobre metade do filme, porque eu não quero estragar a surpresa.

domingo, janeiro 31, 2016

Anomalisa, de Duke Johnson e Charlie Kaufman

O bacana de ser roteirista, acredito, é poder viajar na maionese - e que o diretor se desdobre para dar conta de colocar na tela o que está escrito no papel. O mesmo que acontece entre arquitetos e engenheiros: o primeiro desenha e o segundo, se vira. No entanto, quando os dois entram em sintonia, o que se tem é um belo resultado final. Sempre foi assim com Charlie Kaufman, um dos roteiristas mais criativos do nosso tempo. Em Anomalisa, sua parceria com Duke Johnson foi um pouco além do texto, apropriando-se de bonecos para falar sobre uma questão essencialmente humana, a solidão.

Acompanhamos a história de Michael Stone, um homem de meia idade que está em crise: a ele, todas as conversas são as mesmas, todas as pessoas têm o mesmo rosto e até o mesmo tom de voz. Todos os dias são o mesmo. Em viagem de negócios, na qual vai falar sobre novas técnicas para otimizar centrais de atendimento ao cliente, ele conhece uma mulher - ou boneca - que parece ser diferente dos demais, hospedada no mesmo andar que ele. Disposto a abandonar tudo, "carreira, dinheiro, canudo", começa a acreditar que pode novamente ser feliz.

Dado a termos psicanalíticos e desordens mentais, aqui Kaufman explora a Síndrome de Fergoli, uma rara condição na qual o paciente acredita que todas as pessoas que o cercam são a mesma, disfarçada para persegui-lo e espioná-lo. Em Anomalisa, o protagonista não sofre desse mal, mas o hotel em que se hospeda chama-se, justamente, Fergoli, o que acrescenta à trama traços mais profundos da psique humana.

Uma cena de amor entre dois bonecos... Tem que se garantir!

Trata-se de um acerto do início ao fim. Forte, denso, emocionante e, por incrível que pareça, um dos filmes mais humanos da temporada, confirmando o acerto em fazer do argumento uma animação de bonecos. Os desafios que essa linguagem impõem são transpostos com perfeição. Por exemplo, consegue imaginar uma cena de sexo séria, intensa e emocionante entre dois bonecos? Pois é, é disso que estamos falando aqui.

Genial sem ser pedante. Complexo, mas cheio de simplicidade.

sábado, janeiro 23, 2016

Ponte dos espiões (Bridge of spies), de Steven Spielberg

Resumindo de forma rasteira o que penso de Spielberg: ele é especializado em fazer filmes para a família média estadunidense. Tem mensagem, tem lição de vida, tem exemplos bem claros do que é bom e o que é ruim, do que é bem e do que é mal, do que se deve ter orgulho e do que se deve ter aversão. O problema é que ele faz isso em todos os filmes, inclusive quando o público é adulto. Mesmo que o argumento comporte, não tem peitinho, não tem violência, não tem palavrão, não tem nem cigarro. Trata os espectadores mais maduros com um zelo desmedido. Ou seja, como debiloides.

Seu novo trabalho, Ponte dos espiões, trata de um tema que é bastante denso, adequado para o público mais velho - principalmente o que está na minha faixa etária. O roteiro conta a história verídica (como Hollywood adora histórias verídicas...) de um advogado trabalhista que é designado pelo governo de seu país, em plena Guerra Fria, para defender um homem acusado de ser espião russo. Exercendo a advocacia com hombridade e probidade, acaba esbarrando no revanchismo típico da época. O Estado quer demonstrar imparcialidade e respeito às convenções internacionais na frente das câmeras, mas deseja, por debaixo dos panos, que o acusado seja condenado à morte.

Um filme sobre espiões, prisões e impasses diplomáticos podia ter violência. Podia ter palavrão também. Podia até ter um par de tetas. Podia ter tortura, já que esse era um método muito usado para se obter informações de prisioneiros políticos. Técnica, inclusive, que os estadunidenses dominavam, emprestando a expertise para outros governos ao redor do mundo, como o Brasil dos Anos de Chumbo. Mas como é do Tio Spielberg, não tem.

A lição está muito clara. O personagem de Tom Hanks, o tal advogado, manda ao inferno agentes da CIA, policiais do FBI e até o juiz da vara onde o processo corre. Desobedece ordens de seus superiores para que faça corpo mole e afrouxe a defesa de seu cliente. As crianças do Tio Spielberg, aqui, aprendem que deve-se ter um senso de justiça sempre reto, mesmo que carreira, vida e família corram perigo. E mesmo que, como aconteceu de verdade, o cidadão consciente de seus deveres e no cumprimento de suas funções seja alvo da furiosa opinião pública, massa de manobra acéfala, que prefere ver o Estado de Direito ignorado para fazer justiça como na lei de talião. Isso dura uma hora de projeção. Apesar do maniqueísmo barato, o segmento tem ritmo, faz lá sua crítica, é bem montado, a fotografia é bem cuidada e a direção de arte é caprichada. Tecnicamente, perfeito.

Que "fria", hein Tom Hanks?!

Então, vem a segunda hora. É quando o mesmo advogado é acionado novamente pelo Estado, agora para interceder em uma troca diplomática: o tal espião russo por um piloto estadunidense capturado em território soviético. A troca acontece em Berlim, exatamente no momento em que o muro era erguido. Entra na história, de gaiato, um estudante de Yale, detido por estar no lugar errado e na hora errada. E aí, Tio Spielberg dá mais uma aula de civilidade e compaixão. Tom Hanks só vai sair da Alemanha, novamente contrariando ordens de seus superiores, com os dois prisioneiros, o piloto e o estudante. Isso também dura uma hora, e apesar do maniqueísmo de romance de banca de jornal, tem lá seu ritmo. A técnica, de novo, está lá.

O filme tem duas horas e vinte minutos. Então, o que acontece nos vinte minutos finais? Tio Spielberg arruína todo o resto com aquele talento que lhe é peculiar. Uma série de cenas desnecessárias, um amontoado de clichês e aquele didatismo horroroso que está presente em todos os filmes que ele dirige, tanto para crianças quanto para adultos.

Fico imaginando Ponte dos espiões dirigido por um Costa-Gavras, por um Ken Loach ou por um Gillo Pontecorvo. Contigo não dá, Tio Spielberg. Foi mal, mas não dá mesmo!

domingo, janeiro 17, 2016

O regresso (The revenant), de Alejandro González Iñárritu

Iñárritu parece ter conquistado de vez a indústria cinematográfica. Talento, ele tem de sobra! É um diretor com técnica e estofo, justamente premiado ano passado com Birdman. Agora, com O regresso, é bem capaz de sagrar-se bicampeão. Trata-se de uma obra cinematográfica feita por quem entende do assunto. A prova disso é conseguir transformar um roteiro ordinário em um filme com cadência e estética apuradas.

Muita gente diz que a história Hugh Glass, o protagonista vivido por Leonardo DiCaprio, é real. Mas não é bem assim. Acontece que o roteiro do filme é baseado num livro que é baseado numa lenda das regiões montanhosas da região norte dos Estados Unidos. O tal Glass foi um experiente explorador que viveu lá nos idos de 1800. Acostumado às intempéries e aos perigos desse inóspito lugar, sobreviveu ao ataque de um urso. Dado como morto, foi abandonado e deixado para morrer sem os seus pertences. No entanto, ele sobrevive milagrosamente. Todo estropiado, rastejou milhas na neve para encontrar os dois homens  responsáveis por tê-lo abandonado, buscando vingança. Encontra os dois, em locais diferentes, após anos de procura. Não mata nenhum dos dois porque, vendo-os arrependidos, percebe que a vida vale muito para ser tratada com mesquinharia. Logo, temos aí uma lição cunhada para os homens da montanha: nunca desista de viver.

O filme de Iñárritu dá uma romanceada na narrativa. Coloca Hugh Glass como um ex-membro de uma tribo local que perdeu a esposa e a casa por conta dos conflitos entre o homem branco e os peles-vermelhas. Ele acaba se tornando uma espécie de homem da montanha que serve de guia para os soldados estadunidenses. Carrega com ele seu filho, tudo que lhe resta de lembrança da sua pacata vida como chefe de família. O rapazola, na narrativa de Iñárritu, é um artifício para que o roteiro tenha uma linha dramática que justifique o que virá a seguir. Trata-se, enfaticamente, de mais uma história de vingança, sem aquela mensagem humanista. É sangue nos olhos e faca nos dentes, com a mesma inverossimilhança da lenda original.

Desde a experiência bem sucedida em Birdman, o diretor mexicano parece ter encontrado uma linguagem para chamar de sua. Iñárritu, mais uma vez, usa de forma bastante consciente os planos-sequência que tanto chamaram atenção no premiado filme do homem-pássaro. Aqui, faz com que as cenas nos campos de batalha ganhem um tratamento bem realista. Outro acerto é na fotografia, densa e escurecida, ajudada pela imponência das locações. O diretor opto por usar somente luz natural, o que, apesar da trabalheira que deve ter dado, confere ainda mais beleza à composição estética.

O estranho fica por conta do uso também excessivo da computação gráfica. Há algumas cenas que desmerecem todo esse naturalismo caprichado que é aplicado à fotografia e à direção de arte. Quando Glass é espancado pelo urso, por exemplo, não há como não perceber que se trata de uma animação computadorizada. O mesmo numa rápida sequência na qual há búfalos correndo na neve. Acho que eram búfalos, não lembro aqui, mas não faz diferença - é meio tosco.

Ai ai ai, ui Blau Blau!
Outro ponto fraco é a direção de atores, por mais que DiCaprio mereça o Oscar. Seu personagem é difícil, de composição complexa e com desafios cênicos que não é qualquer ator que topa. Pelo visto, chegou sua hora de ser agraciado com aquela estátua dourada. Apesar disso, os outros personagens não são tão interessantes, construídos sob um maniqueísmo novelesco do qual, confesso, tenho aversão. Atuações muito rasas para um filme do porte de Iñárritu.

No fim das contas, O regresso consegue ser um filme interessante. Nada de muito brilhante, mas bem interessante.

sábado, janeiro 16, 2016

Mad Max - Estrada da Fúria (Mad Max - Fury Road), de George Miller

Ano passado, não tive o menor interesse em assistir ao novo filme da franquia Mad Max. Trinta anos depois daquele com a Tina Turner cantando que eles não precisavam de um outro herói, o mesmo diretor, George Miller, retoma a história do policial que corre as violentas estradas australianas num mundo pós-apocalíptico desértico no qual água e combustível são as commodities mais valiosas. No caminho, encontra pessoas loucas e alucinadas em decorrência dessa luta pela sobrevivência. Atordoado com a morte da família, cuja culpa cai sobre seus ombros, ele também tem um parafuso solto.

A quantidade de indicações ao Oscar, mesmo sabendo que isso não quer dizer lá grandes coisas, me aguçou a curiosidade: o que será que aqueles acadêmicos viram num filme que, é sabido, mais parece um videoclipe feito por jovens no ácido? Parece, porque não é. E aí vem outra curiosidade: como será que ficou essa ressurreição de franquia já que ela é dirigida por um cara que, depois daqueles três primeiros filmes lá na década de 1980 (ok, possíveis pentelhos, eu sei que o primeiro é de 1979), foi o responsável por Babe, o porquinho e Happy Fet, o pinguim? Porra, tem que ver!

É mesmo o que se esperava. Parece um videoclipe, só que com duas horas de duração - o que, para um filme cujo argumento tem enfoque em perseguições e explosões, nem é lá um defeito, mesmo estando careca de saber que isso também é um belo de um artifício para encobrir roteiros medíocres.

 E o roteiro - adivinhem? - é mesmo medíocre. Uma historinha patética que envolve um vilão tirânico, oriundo dos primeiros filmes da franquia, que controla água, suprimentos e, por conseguinte, os moradores de uma tal Cidadela. Ele tem um pequeno harém com lindas modelos vestidas de branco (a cena em que elas aparecem em destaque pela primeira vez parece concurso Gata da Camiseta Molhada) que lhe dão filhos. Os ventres, escolhidos a dedo, precisam gerar bebês perfeitos, porque a maioria dos moradores do lugar nasce com alguma deformidade devido ao contato com a radiação. Até que um dia uma de suas filhas, cansada daquilo tudo, foge com as meninas para uma terra que, acredita ela, tem verde e água em abundância. No meio do caminho encontram Max, que havia sido prisioneiro na Cidadela. Aí, os dois passam a fugir e lutar juntos contra o vilão.

Mas o que tem de bom? Ah, o visual é até bacaninha, apesar de, em determinadas sequências, como na que mostra uma comitiva que vai atrás do Max e sua turma, eu ter me sentido assistindo a um desfile de escola de samba. Os carros e seus tripulantes mais pareciam saídos de um barracão da Unidos da Tijuca, no melhor estilo Paulo Barros. Diz aí se não é coisa de carnavalesco aquele veículo em que um guitarrista toca um instrumento que cospe fogo e tem, atrás, uns meninos carecas pintados de branco batendo tambores?

Ops, foto errada!

A edição foi feita pela esposa do diretor, que nunca havia trabalhado em nada parecido. Motivo da escolha: Miller disse que, se o filme fosse dirigido por um homem, seria mais um filme de ação qualquer. Até que ela trabalho direitinho. Durante a projeção, há em abundância momentos nos quais os mais fotossensíveis podem ter uma crise epiléptica deflagrada. Mas o diretor se deu mal, porque deve ter ficado um seis meses sem sexo em casa (só para decupar as cenas, foram três meses de trabalho ininterrupto) e o resultado final é mais um filme de ação qualquer. Quer dizer, indicado ao Oscar, mas um filme de ação qualquer ainda assim.

Os atores? Nada a declarar. Charlize Theron até segura a onda, sexy sem sem vulgar. Vê-la com um braço mecânico, retirado com computação gráfica, é muito interessante. Aliás, isso é outro ponto bacana do filme: quase não há efeitos especiais, é tudo feito à base de dublês. Já o substituto de Mel Gibson, Tom Hardy, pouco faz, logo pouco rende. O destaque fica mesmo para o vilão, de olhar bastante expressivo, o experiente Hugh Keays-Byrne.

We don't need another sequel, mas fiquem avisados que vêm mais dois filmes por aí.

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Os oito odiados (The hateful eight), de Quentin Tarantino

Tarantino é um diretor que dispensa apresentações e quem frequenta esse blog sabe que seu modo de fazer cinema me agrada muito. Ele se apropria de uma estética cinematográfica que já existe e faz uma espécie de homenagem, dando ao filme sua rubrica. Em Django livre, o cara se aventurou pelo mundo dos westerns - algo ousado e complicado de ser realizado com sucesso, dado o totemismo com o qual esse gênero sempre foi tratado. Tarantino mandou às favas os tabus e fez um filmaço. Agora, ele repete o esquema em Os oito odiados - seu oitavo filme, seria medo de ser odiado? - e repete o êxito. Aprendeu direitinho o riscado do Velho Oeste.

Aqui, o argumento é bem simples. As oito personagens do filme se encontram em uma espécie de estalagem, a caminho da cidade de Red Rock, onde se abrigam de uma forte tempestade no severo inverno de Wyoming. Como nos westerns clássicos, de Sergio Leone, Sam Peckinpah e John Ford, todos os "odiados" são apresentados com calma, em seus minuciosos detalhes, com escrúpulos à prova, para pouco depois haver um impasse - este, resolvido de forma inesperada e imprevisível, dada a permissividade daquela época, quando a pistola era a lei. Essa essência dos roteiros westerns, que os torna tão bacanas, em Os oito odiados é resolvida com aquela criatividade peculiar de Tarantino.

Os acertos são muitos, a começar pela direção de atores. Todos que entram em quadro - todos mesmo - são imprescindíveis para o filme. As atuações são irretocáveis, ajudadas, justiça seja feita, pela imaginação fértil de Tarantino que criou figuras tão peculiares: o major negro pós-Guerra Civil caçador de recompensas de Samuel L. Jackson; a bandida desbocada e desinibida de Jennifer Jason Leigh, irreconhecível; o vaqueiro estoico de Michael Madsen; e o divertido carrasco inglês de Tim Roth (apesar da inevitável comparação do trabalho do ator com Christopher Waltz, que lamentavelmente ficou de fora dessa vez).

Western que se preze tem que ter impasse.

A trilha sonora de Ennio Morricone, justamente premiada no Globo de Ouro, é a cereja no bolo. Originalmente composta para o filme, mesmo com uma pequena implicância do compositor para com o diretor, é absolutamente incrível. Já nos minutos iniciais, o tema principal gruda na cabeça. Dá o clima ideal para ambientar a história. Coisa de gênio mesmo. Ninguém tinha dúvida de que seria assim, né?

E que fotografia! Ajudada pela mixagem de som, sim. O barulho do vento frio fora da estalagem sibila pelas caixas de som, fazendo com que o guisado servido às personagens lá pelo meio do filme, quentinho, com direito à fumaça saindo, parecesse delicioso (para quem não sabe, trata-se de um ensopado feito com miúdos, zero gourmet). O mesmo acontece com o café, que acaba se tornando, de forma bastante criativa, um objeto de cena. Sem contar a ousadia de Tarantino não só em filmar, mas também em insistir que o filme tivesse algumas exibições em 70mm, um tipo de celuloide que quase não encontra mais projetores no mundo. Apenas algumas dezenas foram disponibilizadas ao redor do globo, para que um seleto grupo de sortudos tivesse essa experiência estética típica dos westerns de antigamente.

São três horas de filme editadas perfeitamente em capítulos que, dada a montagem competente, passam voando. Uma experiência cinematográfica para quem gosta de apreciar os detalhes e as referências - coisa que Tarantino sabe fazer como ninguém.

Filmaço!

domingo, janeiro 10, 2016

O clã (El clan), de Pablo Trapero

Pablo Trapero foi alçado ao estrelato mundial após seu belíssimo trabalho de direção em Abutre - um filmaço! O clã, sua mais nova produção, chegou ao Brasil com aquelas ovações todas, o poster cheio de estrelinhas, de "magnífico" escrito em caixa alta etc. Ou seja, estão fazendo com o filme o mesmo que fizeram com o bem mediano Relatos selvagens, do então inexperiente Damián Szifrón, ambos produzidos por Pedro Almodóvar. Finalmente, estaríamos diante de algo digno da qualidade audiovisual argentina?

Não. Nem foi dessa vez. Não que seja um filme ruim, mas é regular novamente. O argumento parte de uma história verídica acontecida na Argentina pós-ditadura, uma das mais violentas da América Latina. Conta a história de um zeloso pai de família que, acostumado a sequestrar e torturar opositores do governo, agora ganha a vida e mantém seu status social com outra clientela: os mais abastados dos bairros nobres de Buenos Aires. Para isso, envolve um de seus filhos nos negócios. O resto da família faz vista grossa para os sequestrados que eles levam para casa e prendem num quartinho, ignorando com naturalidade choros, gritos e pedidos de socorro.

Trapero, diferentemente de seu conterrâneo Szifrón, é um diretor que entende do ofício. Logo, seu filme merecia uma montagem mais dinâmica, menos careta. Aqui, ele tenta contar a história em dois momentos passados distintos e acaba meio que se embananando com o ritmo da narrativa. Fato que comprova isso é a sequência final, quando não há mais essa divisão temporal. São pouco mais de 15 minutos de tirar o fôlego que valem o ingresso. A direção de atores acaba sendo relapsa, com personagens que a todo instante estão em quadro, mas que são mal desenvolvidos. Pelo menos os dois protagonistas, pai e filho, têm atuações irretocáveis. O grande público não vai sentir tanta falta assim do Ricardo Darín.

"Essa família é muito unida e também muito ouriçada."
O outro problema está, vejam só, surpreendentemente, no roteiro. Há um buraco enorme, escancarado, que deve ter sido aberto para romancear a história verídica. Buraco esse que talvez passe despercebido pela maioria dos espectadores, mas que inviabiliza o tratamento romanesco que Trapero quis dar ao seu roteiro. Sem spoilers, ele acontece logo no início do filme, quando uma das vítimas sequestradas é o amigo do filho envolvido - e este participa da emboscada como isca, encenando ser sequestrado também.

Mais um filme superestimado. O cinema argentino tem coisa bem melhor para oferecer e Trapero, também.