domingo, dezembro 27, 2015

Perdido em Marte (The Martian), de Ridley Scott

A ideia é muito boa: a história parte de um ponto no futuro próximo em que o homem já domina a técnica de exploração em Marte, o que pelo jeito não vai demorar tanto assim. Pelos planos da NASA, se tudo der certo, a primeira missão tripulada deve acontecer daqui a 14 anos (já é quase ano novo), em 2030. O livro homônimo de Andy Weir, no qual se baseia o filme, cria uma espécie de drama centrado na sobrevivência em um ambiente inóspito, colocando em destaque conceitos morais. Ridley Scott pega esse argumento e faz um filme que funciona como um Náufrago - ou Esqueceram de mim, para aproveitar essa onda de festas de fim de ano - futurista, dirigindo sua história exatamente como manda o figurino hollywoodiano, o que nem sempre é uma ideia muito boa.

Acontece assim, em sinopse informal: tem lá uma tempestade monstruosa em solo marciano e os astronautas são obrigados a abortar a missão. O personagem de Matt Damom, o botânico da equipe, leva uma estocada nos cornos e desaparece. Dado como morto, é deixado para trás pelo resto da tripulação, que se pirulita rapidinho do planeta vermelho. Acontece que, por milagre (sim, deus está presente em Marte), ele sobrevive. A partir daí, a NASA fica mal na fita e precisa decidir se vai deixá-lo lá, já que é difícil pra caramba se manter vivo num lugar daqueles, ou se vai se descabelar - e se descapitalizar - para traçar um plano de resgate. Bom, se você viu o trailer, já sabe que opção eles escolhem.

Não li o livro, mas se o filme for fidedigno a ele, trata-se de um grande desperdício de tinta, assim como foi esse grande desperdício de película de um diretor que vem acumulando equívocos ao longo do tempo, talvez por seguir austeramente a cartilha do mercado cinematográfico. O protagonista mais parece uma mistura de MacGyver com Kevin McCallister. Ao mesmo tempo em que usa seus conhecimentos avançados de botânica, faz piadas o tempo inteiro. O tempo inteiro mesmo, ainda que não se trate de uma comédia - o que faria sentido num livro, uma vez que o narrador solitário tem suas sacadas em um fluxo de memória consciente, sem precisar concretizar sua comicidade diante do perigo em ações tresloucadas. Apesar do tema empolgante, o filme é chato. Não decola, para fazer um trocadilho. Não há uma cena sequer na qual a imprevisibilidade seja tratada com carinho. É tudo completamente previsível...

Outbacks australianos? Nem.. É tudo computadorizado.

Talvez isso não faça parte nem do livro, mas seria bastante interessante fazer um filme no qual a figura de um deus partisse de um humano. Em Marte, um botânico faz surgir a vida e dá aos marcianos sapiens, milhões de nos após uma evolução, um motivo para que seja criada a eterna pergunta que tanto move os viventes: de onde viemos? Nisso, entraria no balaio ciência, religião, ética, moral, cultura etc. Mas nem rola aqui. Perdido em Marte vai pelo caminho mais fácil e traz um desfecho que mais parece o de um filme de super-herói. Chega a ser patético.

O que me fez ficar até o fim foi essa possibilidade de vislumbrar, agora que já sabemos, graças ao Curiosity, como é Marte, a interação entre o planeta e os seres humanos. De resto, é pura perda de tempo.

Nota, em 11/01/2016 > O filme foi premiado no Globo de Ouro na categoria Comédia! Metalinguagem? Ai, que comédia...

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