quarta-feira, dezembro 30, 2015

Nocaute (Southpaw), de Antoine Fuqua

Você vai ler por aí uma penca de resenhas comparando Nocaute a Rocky. A comparação parece inevitável. Afinal, trata-se daquela velha história de superação utilizando a lona como metáfora e os assaltos como obstáculos e os adversários como alter-egos a serem superados e a família como pilar cristão e a humildade como redenção etc. Só que aqui, nesse blog, não vai ter comparação. Para colocar os dois filmes numa só sentença, basta escrever o seguinte: Nocaute podia ser muito melhor que qualquer episódio da franquia de Rocky.

O roteiro, que tem lá um buraco amadorístico em minha singela opinião, mostra a ascensão e queda de um pugilista que, além de deter o título de campeão, se mantém invicto com um invejoso cartel em que não há derrotas. Até o dia em que um drama familiar, que começa com a provocação de um possível adversário, faz com que tudo se torne poeira. Ele perde o dinheiro, a casa, os treinadores e até a guarda da filha. Tudo de forma muito maniqueísta, previsível e até infantil - e com o tal buraco no roteiro escancarado ali na sua frente, sobre o qual não vou comentar para não desagradar leitores que não suportam spoilers (estes devem ser dois ou três dos meus 11 leitores, e prezo muito pela presença deles aqui, por mais que não suportem spoilers, o que eu acho uma besteira, mas vá lá, depois explico porque acho besteira).   

A verdade é que o diretor Antoine Fuqua tinha em mãos um argumento que poderia ter sido muito melhor aproveitado se o roteiro optasse, logo após a reviravolta que dá início ao drama do protagonista, por um tratamento mais denso e pesado. Portanto, o que promete ser uma história contundente, acaba sendo uma mera lição de vida, daquelas risíveis, usando as regras e curiosidades do boxe como mensagens de efeito para um aprendizado sobre a luta pela sobrevivência. Por exemplo, notem o nome do  lutador: Billy Hope. Esperança, sacou? E o filme faz questão de deixar isso bem claro (o poster gingo, pior, traz escrito believe in hope). Faltou explorar mais o lado sombrio das lutas de boxe, cavar um poço um pouco mais fundo e sem uma escada de emergência para a saída. 

Adriaaaaaan! Pera, não. Esse é diferente...
Quanto às atuações, de fato, Jake Gyllenhaal segura a onda e faz um excelente trabalho. Outro que não deixa a peteca cair é o experiente Forest Whitaker, que tem seu trabalho de composição dramática atrapalhado pela superficialidade do personagem, uma espécie de Senhor Miyagi do boxe, com uma profusão de chavões chatões.

Curiosidade para o público brasileiro: tem uma hora, lá na segunda metade de projeção, em que o protagonista vai alugar um apartamento. Há uma moça que mostra a ele os cômodos e fala sobre o pagamento. Percebe-se, pelo jeito como se expressa, que é latina. E aí ela abre a boca pra falar com alguém em sua língua nativa e... é do Brasil il il! E com direito a sotaque do Nordeste. O nome dela é Juliana Guedes, e está devidamente cadastrada no IMDB, aqui. Ao que parece, é assistente de Jake Gyllenhaal.

domingo, dezembro 27, 2015

Perdido em Marte (The Martian), de Ridley Scott

A ideia é muito boa: a história parte de um ponto no futuro próximo em que o homem já domina a técnica de exploração em Marte, o que pelo jeito não vai demorar tanto assim. Pelos planos da NASA, se tudo der certo, a primeira missão tripulada deve acontecer daqui a 14 anos (já é quase ano novo), em 2030. O livro homônimo de Andy Weir, no qual se baseia o filme, cria uma espécie de drama centrado na sobrevivência em um ambiente inóspito, colocando em destaque conceitos morais. Ridley Scott pega esse argumento e faz um filme que funciona como um Náufrago - ou Esqueceram de mim, para aproveitar essa onda de festas de fim de ano - futurista, dirigindo sua história exatamente como manda o figurino hollywoodiano, o que nem sempre é uma ideia muito boa.

Acontece assim, em sinopse informal: tem lá uma tempestade monstruosa em solo marciano e os astronautas são obrigados a abortar a missão. O personagem de Matt Damom, o botânico da equipe, leva uma estocada nos cornos e desaparece. Dado como morto, é deixado para trás pelo resto da tripulação, que se pirulita rapidinho do planeta vermelho. Acontece que, por milagre (sim, deus está presente em Marte), ele sobrevive. A partir daí, a NASA fica mal na fita e precisa decidir se vai deixá-lo lá, já que é difícil pra caramba se manter vivo num lugar daqueles, ou se vai se descabelar - e se descapitalizar - para traçar um plano de resgate. Bom, se você viu o trailer, já sabe que opção eles escolhem.

Não li o livro, mas se o filme for fidedigno a ele, trata-se de um grande desperdício de tinta, assim como foi esse grande desperdício de película de um diretor que vem acumulando equívocos ao longo do tempo, talvez por seguir austeramente a cartilha do mercado cinematográfico. O protagonista mais parece uma mistura de MacGyver com Kevin McCallister. Ao mesmo tempo em que usa seus conhecimentos avançados de botânica, faz piadas o tempo inteiro. O tempo inteiro mesmo, ainda que não se trate de uma comédia - o que faria sentido num livro, uma vez que o narrador solitário tem suas sacadas em um fluxo de memória consciente, sem precisar concretizar sua comicidade diante do perigo em ações tresloucadas. Apesar do tema empolgante, o filme é chato. Não decola, para fazer um trocadilho. Não há uma cena sequer na qual a imprevisibilidade seja tratada com carinho. É tudo completamente previsível...

Outbacks australianos? Nem.. É tudo computadorizado.

Talvez isso não faça parte nem do livro, mas seria bastante interessante fazer um filme no qual a figura de um deus partisse de um humano. Em Marte, um botânico faz surgir a vida e dá aos marcianos sapiens, milhões de nos após uma evolução, um motivo para que seja criada a eterna pergunta que tanto move os viventes: de onde viemos? Nisso, entraria no balaio ciência, religião, ética, moral, cultura etc. Mas nem rola aqui. Perdido em Marte vai pelo caminho mais fácil e traz um desfecho que mais parece o de um filme de super-herói. Chega a ser patético.

O que me fez ficar até o fim foi essa possibilidade de vislumbrar, agora que já sabemos, graças ao Curiosity, como é Marte, a interação entre o planeta e os seres humanos. De resto, é pura perda de tempo.

Nota, em 11/01/2016 > O filme foi premiado no Globo de Ouro na categoria Comédia! Metalinguagem? Ai, que comédia...

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Para ler a música de uma Legião

Hoje o assunto por aqui é música. A resenha abaixo é da autobiografia do Dado Villa-Lobos, guitarrista da Legião Urbana.

A mim, música sempre foi textura. Comecei a tocar guitarra na época em que os heróis do instrumento, de cabelos compridos revoltos e calças de couro apertadas, executavam arpejos em velocidade extrema. Muita técnica, pouca textura. Eu estava mais interessado em barulhos estranhos. Meus heróis sempre foram aqueles que conseguiam fazer com que a guitarra não soasse simplesmente como um instrumento de corda amplificado, e sim como uma agulha que vai entrelaçando timbres, tons, notas, semínimas.

Contrariando a massa, que ovacionava Malmsteen, Satriani e Vai, a santíssima trindade àquela época, eu queria ser diferente. Gostava de Pixies, Sonic Youth e Dinosaur Jr. - além dos representantes da MPB, Música Popular Britânica, como Clash, Joy Division, Specials e tantos outros. De gente de verdade que tocava guitarra para fazer barulho bom. Eu preferia, por exemplo, o Dado Villa-Lobos.

Parte da minha adolescência foi vivida na saudosa loja que o guitarrista da Legião e o baixista da Plebe Rude - outra banda que sempre admirei -, André X, mantinham numa galeria do Leblon off-Manoel Carlos. Foi lá, aos 13 anos, que adquiri o meu primeiro disco do Pavement, Slanted and Enchanted, de 1991 – o que me custou toda a mesada, algo em torno de NCz$ 1.500,00. A Rock it! era um dos únicos lugares onde eu podia trocar uma ideia sobre as bandas e artistas dos quais gostava. Foi uma época de fruição quase solitária e de extrema mudança de paradigmas.

Por isso, ler o livro que o meu querido e estimado amigo Felipe Demier ajudou a dar corpo, a autobiografia do guitarrista de uma das minhas bandas prediletas, foi uma jornada profunda a um passado que ajudou a construir o meu caráter e a dar forma ao que sou hoje. Li Dado Villa-Lobos - Memórias de um Legionário, da editora Mauad, em uma semana de folga do trabalho. Foi a minha viagem de férias.

A leitura é como uma visita íntima aos ídolos, que gentil e humildemente descem do oratório e se mostram tão humanos quanto o leitor. O livro permite acompanhar o surgimento do rock de Brasília, os percalços políticos e econômicos que influenciaram a produção cultural do país, o processo criativo de quem tentava remar contra a corrente e as relações humanas que se estabeleceram dentro desse caldeirão que continua em ebulição. É cômico, denso, tenso, emocionante e até deprimente em certas passagens. Senti-me tão perto do Dado, que é como se tivesse estado numa mesa de bar dividindo uma cerveja gelada com ele e os outros dois autores - além do Felipe, o Romulo Mattos, outro cara bom de papo.

Olha a camisa do Bonfá ali. Sempre relacionei as duas bandas.

Página a página, ou seja, disco a disco, fui entendo como minha predileção pela guitarra do Dado, com suas texturas diversas e elegantes, fazia sentido. Perpassar, dessa espécie de bastidores, todas as etapas - composição, ensaio, gravação, lançamento, apresentações - de cada álbum da Legião Urbana foi uma possibilidade inestimável de entender por que a música pode ter essa força avassaladora na vida de muita gente.

Escrevo isso porque Legião Urbana é parte indelével da minha vida. Quando criança morria de medo de que a usina nuclear de Angra dos Reis causasse um desastre ambiental. Meu temor era corroborado pelo grotesco acidente em Chernobyl, em 1986, que transformou a cidade da antiga União Soviética em um cenário abandonado de filme de terror. Mesmo se as estrelas começassem a cair / E a luz queimasse tudo ao redor / E fosse o fim chegando cedo / Você visse o nosso corpo em chamas! Perdi a conta de quantas vezes escutei esses versos com aquela mistura de temor e arrebatamento.

Quando ainda estava no colégio, prestes a completar o que hoje equivale ao Ensino Fundamental, havia uma Mônica na minha sala. Uma menina completamente diferente de mim: ela do reggae e eu, do rock. No entanto, éramos muito próximos. Também perdi a conta de quantas vezes nós dois ouvimos as pessoas cantando, ao fim do ano letivo, que naquelas férias não iríamos viajar porque o nosso filhinho estava de recuperação.

Teve a vez em que, tentando me aproximar do sexo oposto, utilizei-me dos versos que descreviam com perfeição o olhar da menina que eu queria conquistar. Empunhei o violão e cantei: Veja o sol dessa manhã tão cinza / A tempestade que chega é da cor dos seus olhos / Castanhos. Se deu certo? Nem deu. Além do mais, a música era tão conhecida que praticamente todos os garotos que foram atraídos por aqueles tais olhos castanhos tiveram a mesma ideia.

Para além desse registro afetivo, a leitura foi uma excelente oportunidade de reviver as tardes da minha adolescência na Rock It! Assim que fechei o livro, fui buscando todas as referências que o Dado cita - não somente as musicais, mas também as literárias e cinematográficas. Um garimpo muito valioso, que me revelou influências que haviam passado despercebidas.

As 256 páginas de Dado Villa-Lobos - Memórias de um Legionário são intensas como foi a passagem da Legião Urbana pelo cenário musical brasileiro. É muito bom estender a experiência para além dos ouvidos. Ler sobre aquelas músicas que se tornaram pequenos hinos, que contundentemente questionaram a geração Coca-Cola, é refletir sobre a nossa própria juventude e sobre sua força destrutiva e renovadora. Não há dúvidas: não aprendemos a lição. Precisamos refazer nosso dever de casa. E aí, então, eles vão ver.



sexta-feira, dezembro 18, 2015

Guerra nas Estrelas - O despertar da Força (Star Wars - The Force awakens), de JJ Abrams

Pode ler, rapaziada! Não tem spoilers.

Foi uma longa espera. Literalmente! Era uma quarta-feira, 23h40, sessão de pré-estreia no Cinemark, quando a iluminação foi reduzida e a tela, acesa. O que era para ser 11 minutos de anúncios e trailers (por razões contratuais, a projeção estava marcada para começar 0h01), se estendeu por lamentáveis 50 minutos. Precisamente às 0h41 de quinta-feira, a cartela com aquela frase emblemática - Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante... - apareceu. O público foi ao delírio. Começava Guerra nas Estrelas - O despertar da Força.

Ao meu lado, quem também ia ao delírio era minha pequena princesa rebelde de apenas 7 anos, já iniciada na saga de George Lucas, devidamente indumentada com vestido branco e penteado da Leia no Episódio 4 - os famosos coques-rosquinha. Logo na abertura, que se assemelha muito a tantas outras com as quais nos acostumamos, temos uma pequena amostra de que sim, veremos basicamente a mesma trama de sempre, mas com um adicional de velocidade na edição.

Sem spoilers, o que se pode dizer é que o novo filme da franquia tem tudo para agradar os fãs da série. J J Abrams, calejado com o público geek, tem os paranauê necessários para voltar a realizar a tarefa que a primeira trilogia fez com maestria, mas que foi esquecida pela segunda: contar uma história simples. Nada de tramas mirabolantes, reviravoltas inesperadas e sistemas políticos intergaláticos complexos.

Não é que o argumento seja tão simples assim, nem tampouco mais do mesmo. Tem lá aquela enxurrada de referências, tanto nos diálogos, quanto na ação. No entanto, mérito do diretor, os novos personagens adicionam algo que não vimos anteriormente. Em primeiro lugar, Finn, o Stormtrooper arrependido que larga as armas para fugir, nos dá uma perspectiva inédita e humaniza um personagem que, anteriormente, era apenas decorativo - para citar Michel Temer. BB8, o pequeno dróide esférico, tem a difícil tarefa de substituir o imbatível R2-D2 - e o faz com uma eficiência absurdamente incrível! Impossível não querer ter um boneco dele em casa.

O vilão da história, Kylo Ren, acrescenta outra novidade que, no meu ponto de vista, é o grande trunfo desse primeiro filme da nova trilogia: podemos ver a fisionomia e a expressão do vilão enquanto ele age. Bem diferente do que acontecia com Darth Vader, cuja voz e pantomima eram marcantes por conta da figura estática da máscara. Essa humanização de Kylo Ren proporciona a construção de um antagonista complexo e bastante interessante, interpretado à altura por Adam Driver.

Só gente bonita nessa tal Millennium Falcon!

As cenas de batalha ganharam ângulos bastante interessantes, com passagens de tirar o fôlego. E o mais bacana é que aquelas tomadas do cockpit das X-Wings, com os pilotos em primeiro plano, continuam as mesmas de anos atrás!

No fim das contas, o filme é entretenimento como entretenimento deve ser. Divertido, empolgante e com aquele desfecho que deixa o espectador desesperado para conferir o próximo capítulo.

Curioso foi, ao término da projeção, o comentário de um rapaz, catedrático de Guerra nas Estrelas, sobre o que havia acabado de ver. Meio cabisbaixo, me confessou:

- Achei o filme muito infantil.

Olhei para o lado. Lá estava minha pequena princesa rebelde, completamente excitada por tudo que tinha acabado de ver. Tive que fazer a réplica, inevitável:

- Me diga qual filme de Guerra nas Estrelas não é infantil. Inclusive, não é por isso mesmo que estamos aqui?

Que a Força esteja com vocês.