sexta-feira, outubro 30, 2015

Que horas ela volta?, de Anna Muylaert

No Brasil, esse país repleto de contrastes sociais, no qual a mercantilização da cultura é apenas uma pequena parte da grande mazela, o acesso ao cinema é cada vez mais dificultado. Para se ter uma ideia de como a coisa ficou elitizada por aqui, teve até crítico (?) de site famoso (??) de cinema criticando (né?) promoções com ingressos mais baratos, com medo de ser assaltado dentro da sala de projeção. É sério, teve isso mesmo!

E por que esse nariz de cera (expressão jornalística) antes da resenha (tô adorando esses parênteses todos) de Que horas ela volta? É que, parágrafo inicial posto, a maior parte dos espectadores que vai assistir ao filme é também aquela que faz o papel de antagonista na produção de Anna Muylaert - um antagonismo que, de tão arraigado pelos anos de colonialidade do nosso Brasil varonil, chegou até a passar despercebido por algumas patroas que, após a projeção, viram "nada demais, gente..." - tamanha a incapacidade de se colocarem no lugar  do outro.

O roteiro traz uma Regina Casé irretocável no papel de Val, uma empregada doméstica nordestina que trabalha numa casa da alta burguesia paulista. Como tantas outras, ela abdicou de sua vida (e família) para cuidar das dos outros - inclusive, afastando-se da própria filha. É esta que, logo no começo do filme, chega a São Paulo para prestar vestibular e se instala num colchão no quartinho 2 por 2 que fica na área de serviço da mansão.

A presença da jovem provoca reações das mais diversas intensidades em todos os moradores da casa. Guardadas as devidas proporções, o roteiro de Que horas ela volta acaba lembrando, de leve (até mesmo porque a intenção é essa), o magistral e inesquecível Teorema, de Pasolini (tava sentindo falta de uns parênteses). Se no filme italiano o drama é psico-erótico, na produção brasileira é psicossocial.

Não tive uma Val, mas tive camisa dos Ramones lavada e passada por outrem.

O filme emociona ao mesmo tempo em que incomoda - porque nos faz pensar muito sobre essa realidade da qual a gente, inegavelmente, de maneiras obtusas até, faz parte. Na verdade, emociona e incomoda quem tem um mínimo de capacidade de análise social, o que anda em falta por aí. Mas vá lá, em épocas na qual as pessoas reclamam porque as empregadas domésticas estão ganhando mais direitos (agora reclamam do tal cadastro para recolher FGTS), não deixa de ser um filme importante. Bom para espanar a poeira (sem trocadilhos) daquele canto do cérebro que tem a ver com a capacidade de enxergar o outro.

Cinema pode ser uma boa faxina vez em quando.

Um comentário:

Kamila Azevedo disse...

"Que Horas Ela Volta?" é um belo filme. Acho que fala muito sobre as recentes transformações sociais vistas em nosso país, ao mesmo tempo em que toca, de forma delicada, na questão das empregadas domésticas, na maneira patriarcal em que a nossa sociedade está calcada e, principalmente, na educação como forma de ascensão social.