quarta-feira, agosto 12, 2015

O sal da Terra, de Wim Wenders


Wim Wenders, um dos meus diretores prediletos, resolveu fazer um filme sobre um dos artistas prediletos de uma esmagadora maioria de terráqueos, o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado. A nova produção do cineasta alemão, em parceria com o filho da personagem documentada, acerta em cheio ao se debruçar não no conteúdo, mas nas histórias - e bota história nisso - por trás de cada registro imagético feito por um sujeito que tem o olhar, sim, diferenciado. Eu preciso, antes de continuar, deixar isto claro, sob pena de não ser mal interpretado: não gosto, tanto assim, das fotografias do Sebastião Salgado.

Isto posto, me causou bastante estranheza, logo na abertura do filme, Wenders dizer que comprou por um punhado de dólares, aliás, muitos dólares, uma fotografia de seu objeto documentado para pendurar na parede de casa. Começar seu documentário assim foi um erro.

Continuo com o que pode parecer mero acinte, mas garanto que não é: a obra do fotógrafo brasileiro tem muito mais apelo referencial do que propriamente artístico. Óbvio que eu sei que foto não é estética na essência. Esta vem depois, com o apuro da sensibilidade. Mas esses registros instantâneos que Sebastião Salgado faz, ainda que singulares, têm sua força estética muito mais concentrada na documentação do real.

Por exemplo, quando a lente dele focaliza a dura situação dos trabalhadores brasileiros, ali há mais apresentação do que representação. Apresenta a ideia de uma forma como poucos conseguem, e aí é que está o talento desigual dele. Admito que é uma questão minha comigo mesmo: enxergo um Salgado mais fotojornalista do que artista. E esse é o Salgado que quase admiro, ou melhor, que admiro de vez em quando: o fotojornalista de olhar brutalmente referencial. Que se esmera em um tema e busca realizar projetos a longo prazo, que geram livros - ao invés de mostras ou exposições de curta duração, daquelas que geram filas em centros culturais. Não existe aí uma diferença enorme para o que se proporia uma dita fotografia de arte?

Taí um Salgado  mais artístico que referencial. Bacana!
Posso, então, repetir que Wenders acertou em cheio em documentar o olhar, e não o suporte para o qual se olha. A câmera vai atrás da experiência do fotógrafo. E aí, Sebastião Salgado vira uma personagem das mais interessantes. É muito bacana ver como o humanismo permeia toda a vida de uma pessoa que abriu mão do conforto e da segurança, pessoal e financeira, para buscar novos olhares e novos ângulos para velhas questões.

Não comentarei aqui o trocadilho infame e meio ridículo que dá nome ao filme. Precisava mesmo disso que o Sebastião é salgado, é o sal da Terra? A expressão é retirada da bíblia, numa passagem que diz que os seres humanos são o sal da Terra. Então, podemos dizer que esse deus aí errou a mão e salgou a Terra demais. Mas isso é papo para outra mesa de bar...

2 comentários:

Kamila Azevedo disse...

Sebastião Salgado me parece ser uma unanimidade. Eu tenho curiosidade para conferir "O Sal da Terra" para ver como um cineasta como Win Wenders captura a arte de outro grande artista.

Lucas disse...

Legal!