quinta-feira, junho 04, 2015

Mister Lonely, de Harmony Korine

É bastante preocupante vasculhar a rede e notar que a grande maioria das resenhas sobre Mister Lonely - um dos filmes mais, digamos, palatáveis de Harmony Korine - é depreciativa. Os textos alegam que o filme não tem pé nem cabeça, que é uma perda de tempo, que é uma enxurrada de imagens sem propósito, que é isso e que é aquilo. Chega a ser triste e patético constatar que a opinião corrente é de que o cinema precisa ser entretenimento o tempo inteiro, com aquela estrutura narrativa e dramática linear, insossa.

 Esse prólogo aí em cima funciona quase como um desabafo diante dessa incapacidade de se pensar o cinema como suporte artístico, como linguagem, como expressão. Ninguém tem a obrigação de gostar de um filme, ou do que quer que seja - pois, como dizia nosso amigo Kant lá nos idos do século 18, faz tempo, a experiência estética acontece na esfera subjetiva, e por isso não há garantias racionais que possam sustentar sua fruição por todos nós, animais dotados de diferentes estruturas para o ajuizamento de gosto. Por isso, seria mais justo analisar Mister Lonely como produção, e não como produto, como fizeram os colega tudo supracitado.

Isto posto, volto a bater na tecla que Korine é tipo um gênio incompreendido. Com um roteiro bem mais maduro do que Kids e uma direção muito mais segura do que em Gummo, ele faz de seu Mister Lonely uma ótima provocação a diversos conceitos, que vão do valor de culto midiático (a mídia que fez chacota dele, lembra?) até o valor de culto religioso, passando por temas mais complexos, como amor, arte e morte. Dessa vez, conta com as luxuosas participações de dois estupendos diretores, que assim como ele são habitués do underground: Werner Herzog  e Leos Carax.

Acompanhamos a bela história de um artista de rua que faz imitação de Michael Jackson em Paris. Solitário (né?), sem falar o idioma local e com contas a pagar, procura se aperfeiçoar o quanto pode, e vai se mantendo com apresentações em asilos. Um dia, conhece uma artista de rua que também faz imitação - a dela, de Marilyn Monroe. Diante da química inevitável entre os dois, ela o convida para ir até uma comunidade onde todos os habitantes são, também, artistas imitadores de celebridades. Lá estão Abraham Lincoln, Madonna, os Três Patetas, o Papa, James Dean, Sammy Davis Jr., Chapeuzinho Vermelho e outros. O líder da comunidade, e marido de Marilyn, é ninguém menos que Charles Chaplin. E os dois tem uma filha, uma pequena cover de Shirley Temple. Juntos, eles trabalham arduamente para apresentar o maior espetáculo de todos os tempos.

Paralelamente a essa história, um padre - interpretado magistralmente pelo monstro, em todos os sentidos, bons e maus, melhores os maus, inclusive, por Werner Herzog - viaja a América do Sul em missões cristãs. Em determinado ponto, ao sobrevoar uma vila humilde no meio da floresta para jogar alimentos e mantimentos, uma das freiras que o ajuda acaba escorregando do avião e caindo. Milagrosamente, sobrevive. A partir de então, ele obriga suas freirinhas, numa provocação épica ao seriado The flying nun, a pular sem paraquedas como exercício de fé. Aí, muitos daqueles que escreveram espinafrando o filme de Korine reclamaram que uma história não tem nada a ver com a outra. Que é só para encher linguiça. Só que não é bem assim.

Who's bad?

A narrativa de Mister Lonely fala, principalmente, sobre não se reconhecer como indivíduo, sobre não se encaixar, sobre não pertencer a lugar nenhum, mesmo quando você acha que encontrou o seu quinhão - assunto caro ao diretor. O artista, por excelência, é aquele que opera um pequeno milagre toda vez que sobe ao palco. Da mesma maneira que as freiras colocam em xeque sua fé quando pulam de um avião sem paraquedas, um imitador também coloca a sua toda vez que se apresenta. Querer acreditar que aquela figura na sua frente é o Michael Jackson, mesmo sabendo que não se trata da realidade, é um exercício de fé. Cego e comovente, carregado de simbolismo, e que funciona metalinguisticamente quando se assiste ao filme.

Bom, o desfecho do argumento (e não do filme, leiam bem) é simplesmente arrebatador. Intenso, mas carregado de lirismo e simplicidade, marcas registradas de Korine. Algumas cenas permanecem na memória após a projeção, tamanha a capacidade do diretor em criar clima, textura e fantasia. Uma delas é esta abaixo, a sequência em que Chapeuzinho Vermelho entoa uma canção folclórica - cuja letra é de arrepiar os pentelhos - enquanto caminha pela linha do trem.


2 comentários:

Kamila Azevedo disse...

Como disse na sua resenha anterior, o único filme do Harmony Korine ao qual assisti foi "Kids".

Li Eli Lili disse...

Phoda!