sexta-feira, maio 01, 2015

Pelo malo, de Mariana Rondón

A Venezuela midiática é famosa por duas coisas: mulheres bonitas e Hugo Chávez. As primeiras, estão sempre em voga por conta dos concursos de misses. O segundo... Bom, foi figura com cadeira cativa nos noticiários do mundo inteiro - mais pelos erros do que pelos acertos, visto que tinha essa mania incorrigível de transformar pequenos êxitos em grandes fracassos. Apesar da máquina audiovisual venezuelana ter trabalhado incessantemente, enquanto o líder bolivariano era vivo, para construir a imagem de um grande Bonaparte, a sétima arte quase não foi acionada (salvo alguns documentários, como A revolução não será televisionada) para esse fim. Logo, é desalumiada essa relação das plateias latinas com o cinema venezuelano.

Isto posto, Pelo malo é um grande êxito. Lançado pouco tempo após a morte de Chávez, é capaz de contar uma história e contextualizá-la sem se tornar panfletário. E faz isso debruçado sobre um argumento que questiona valores arraigados na maioria das economias periféricas. Escorado na estética da miséria, o filme da diretora Mariana Rondón fala sobre sexualidade, racismo, patriarcalismo e subdesenvolvimento. O roteiro usa os cabelos crespos de um menino de nove anos como signo de uma sociedade que não enxerga o próprio umbigo e é incapaz de reconhecer a própria imagem. Lembra alguma coisa, Brasil?

Qual é o pente que te penteia?

Junior vive em um bairro pobre de Caracas. Sua mãe, solteira, precisa dar conta de criar também um bebê. Tenta, a todo o custo, conseguir novamente um emprego de segurança particular numa grande empresa, de onde foi afastada por indisciplina. Junior vive vagando pela comunidade onde mora, sem ter muito o que fazer. Sonha em ser cantor. E para isso, cisma que precisa alisar os cabelos seja lá como isso tiver que ser feito: sabão, óleo ou chapinha. Ele aprendeu que cabelo crespo é cabelo ruim - como mostra um programa na TV no qual uma moça negra repete exatamente esse discurso, enquanto luta pateticamente para alisar os próprios cabelos. Franzino e introspectivo, Junior precisa lidar com a personalidade inconstante de sua mãe, que acredita que ele está doente, "tornando-se um homossexual" - o que a deixa, além de apavorada, enfurecida.

Samuel Zambrano, o protagonista, enche a tela de franqueza e transparência com uma atuação emocionante e vibrante, como poucas crianças conseguem fazer. Samantha Castillo, atriz que interpreta sua mãe, está em plena sintonia com o ator mirim. Ela cumpre a difícil tarefa de dar vida a uma personagem bastante complexa, cuja beleza é áspera e dolorosamente sensual. A cena final, com os dois em plano fechado, é de nocautear qualquer um. Magnificamente executada e capaz de deixar um nó na garganta que dura por algum tempo após os créditos finais.

Que a Venezuela possa nos dar mais desses. Com ou sem regimes bonapartistas.

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