domingo, maio 10, 2015

Gummo, de Harmony Korine

Harmony Korine ainda era um moleque skatista de Nova York quando escreveu, aos 19 anos, o roteiro de Kids, clássico hiper-realista dirigido por Larry Clark que deixou muitos adultos de cabelos em pé e semanas sem dormir direito de tão alarmante e assustador que era. Depois disso, com certa notoriedade no meio underground, o rapazola juntou uma grana e resolveu estrear como diretor de longas. E aí fez essa produção desconcertante e escalafobética, ainda que linda e cheia de lirismo, chamada Gummo, que o projetou de vez. Para o bem e para o mal.

Para o bem > Foi o primeiro (e talvez o único, teria que pesquisar) diretor de fora da Europa a ser convidado para integrar o movimento Dogma 95, de Lars Von Trier. O enfant terrible dinamarquês cedeu seu mega estúdio particular para que ele acabesse Julien Donkey-Boy, ou Dogma #6. Tem admiradores e colaboradores do quilate de Werner Herzog e Gus Van Sant. E já compôs música com a Björk - só isso.

Para o mal > Por conta de seu temperamento nada convencional, quase disfuncional, e por causa da pouca idade quando os holofotes se voltaram a ele, Korine foi meio que massacrado e hostilizado pela grande mídia em troca de audiência. Mídia esta que não deu a devida atenção a seus filmes, de linguagem e montagem experimentais. Essa campanha vergonhosa pode ser conferida no YouTube, com as passagens do diretor pelo programa de David Letterman.

Gummo é experimental até o talo. Filmado de forma crua, interpretado da mesma maneira e todo trabalhado na estética da miséria. O roteiro fala sobre as vidas sem rumo de personagens bizarros que vivem em uma cidade do interior dos Estados Unidos recém devastada por um tornado. O diferencial está na forma de abordar tudo isso. Por mais que o que se veja seja explícito e chocante - tipo animais sendo executados e vendidos a um açougueiro, um jovem que ganha dinheiro usando a irmã com síndrome de Down como prostituta, dois irmãos caindo na porrada de verdade até sangrarem, menores de idade usando drogas e crianças se comportando de maneira muito, mas muito errada - a direção de Korine faz com que tudo esteja no lugar.

A escolha de dar lirismo a tudo isso, a todo esse mundo sujo e podre, é perfeita. Se manifesta, por exemplo, na cena em que um dos jovens que faz sexo com a prostituta supracitada dá uma piscadela a ela quando vai embora, deixando nítida uma relação de afeto em meio àquele deserto. Além disso, o texto de Korine é fantástico, e vai reforçando seu argumento, bastante contundente, ao longo da projeção, sem precisar de um encadeamento lógico e sequencial. É uma sociedade que não precisa necessariamente de uma calamidade para se ver chafurdada na lama. A calamidade é a própria sociedade, a maneira como ela se estrutura e traça seus caminhos. Isso fica mais claro ainda quando sabemos que muitas das cenas foram filmadas com pessoas reais, nas ruas da cidade natal do diretor, em uma local onde nenhuma catástrofe natural de fato ocorreu.

A famosa cena da banheira! Notem o bacon colado na parede...

Dá para entender ao final da projeção por que Herzog e Van Sant ficaram tão impressionados com Korine, a ponto do primeiro inclusive participar de seus filmes seguintes (que em breve serão devidamente resenhados por aqui). Mal e porcamente comparando, ouso dizer que ele é o Terrence Malick do underground, casando como poucos imagem, som e texto para contextualizar uma história - o que é bem mais do que simplesmente contar uma história. Dá para entender também porque tanta gente odeia seus filmes e o reduz, injustamente, a um niilista cinematográfico. Korine propõe uma experiência audiovisual nada convencional e de recompensa não muito satisfatória se o que se busca é o entretenimento.

Um diretor de linguagem diferenciada. E não há dúvida de que é disso que precisamos cada vez mais.

Um comentário:

Kamila Azevedo disse...

Do Harmony Korine, só assisti mesmo a "Kids", que considero um bom filme!