quinta-feira, abril 09, 2015

Tusk, de Kevin Smith

Posso ser rápido e rasteiro e fazer um trocadilho besta para definir o novo filme do rei dos geeks, um cara legal, Kevin Smith > Tusk é tosco. Mas é um tosco complexo. Não é qualquer tosqueira, não. É um daqueles casos que se enquadra na categoria das coisas que deixam você boquiaberto e sem saber se são boas ou ruins, mas que são certamente dignas de recomendação.

O roteiro, tosco, foi inspirado numa brincadeira que surgiu num dos episódios do podcast de Smith - que, diga-se de passagem, é um sucesso estrondoso entre os nerds do mundo todo. Após ler uma notícia verídica sobre um canadense excêntrico que oferecia hospedagem gratuita aos hóspedes que aceitassem vestir uma fantasia de morsa, o velho Kevin lançou duas hashtags no Twitter: uma delas, dizia sim para um filme fictício com o argumento baseado na tal notícia; o outro, um não. Qual delas vocês acham que ganhou?

Então, lá foi ele, Kevin Smith, o cara dos nossos filmes preferidos, tipo O balconista, Mallrats, Procura-se Amy e até Red State, fazer um filme sobre um sujeito que é sequestrado por um velho excêntrico que sonha em transformar um ser humano em uma morsa. Tosco?

Pois bem, Tusk tem lá suas semelhanças com a labuta de seu criador. O protagonista que sofre a transformação é um podcaster que publica na internet um vídeo de um moleque estranho cortando a própria perna acidentalmente. As semelhanças acabam aqui. Porque o resto é uma viagem! O vídeo faz tanto sucesso que ele vai até o Canadá entrevistar o pobre coitado desmembrado. No entanto, quando chega lá, acaba descobrindo que o garoto tirou a própria vida, motivado pela repercussão negativa do vídeo. Sem qualquer remorso, procura desesperadamente um personagem estranho que pague os 500 obamas gastos com a passagem de avião. Acaba seduzido por um anúncio no banheiro de um bar que fala sobre um marinheiro cheio de aventuras. Uma delas, envolvendo... uma morsa.

Aí, vocês já devem imaginar o que acontece. É uma espécie de Centopeia humana dirigida por um nerd. Dá para entender? A transformação do sujeito em morsa é lenta, dolorosa e angustiante - muita gritaria, muita agulha e linha, muito sangue, muita pele, muitos nacos de carne. O filme, que até o fim da primeira metade é uma comédia de humor negro com tons sombrios, se torna um híbrido de filme B com gore, com um desfecho que de tão vil e bizarro confunde a cabeça de quem aguenta a projeção até o fim (partindo de mim, isso é um baita elogio, não se enganem).

O pior, ou melhor, ou sei lá, é que Kevin Smith é um diretor de mão cheia. A fotografia do filme é ótima, sombria, fria. A montagem é bem bacana também, com sequências atemporais que vão construindo a imagem humanizada (olha aí a narrativa bacana) do protagonista para depois desconstruí-la completamente. A maquiagem é muito, muito, mas muito boa! Ou seja, a morsa humana é realmente asquerosa e dá até um certo incômodo - principalmente na cena em que ela é forçada a nadar pela primeira vez num tanque de água. Imagina aí.

No fim das contas, Tusk é como aquelas brincadeiras que acabam passando um pouco do limite: você até dá risada, mas meio cabreiro.

E eu só pensava naquela música dos Beatles!

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