sábado, março 14, 2015

A entrevista (The interview), de Evan Goldberg e Seth Rogen

Para quem não ligou o título à celeuma, A entrevista foi aquele que fez com que a Sony e a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos ficassem de cabelos em pé, alimentando um imbróglio diplomático que só não foi para frente porque a Coreia do Norte se supera em ser um país estranho, com um líder que de tão misterioso e imprevisível chega a ser caricato. Antes mesmo do lançamento do filme, um grupo de hackers invadiu o site da distribuidora e ameaçou botar pra quebrar, quebrar mesmo, toda e qualquer sala de cinema estadunidense que exibisse o dito cujo. O recado estava dado > eles ficaram bastante irritados.

Ora, ficaram boquiabertos com a ousadia de dois comediantes dos Estados Unidos em fazer um filme cujo roteiro gira em torno de uma missão secreta para assassinar Kim Jong-un - que, pasmem, fala inglês fluentemente e é um exímio conhecedor da cultura pop daquele país. Os protagonistas são dois janistroques que têm um programa sensacionalista de entrevistas na televisão. Por sorte, acabam conseguindo marcar uma exclusiva com o ditador norte-coreano em território inimigo. Logo, a CIA cresce os olhos e pede esse "favorzinho" - normal, né? - a eles, que têm a chance de se tornarem heróis.

Bom, vamos às observações. Uma sobre o papel de cada país envolvido nessa cambulhada.

Gente, A entrevista é tão bobo, tão infantiloide e tão insosso que, francamente, norte-coreanos, se ofender com isso é como levar a sério disputa de bola de gude entre alunos da quarta série do primário. Os Estados Unidos já pegaram bem mais pesado em outros filmes, com outros tantos desafetos. Inclusive, alguns deles ganhando prêmios - vejam só, norte-coreanos, prêmios! Esse aí o máximo que conseguiu foi uma discussão na web, e que não foi focada em política internacional, se limitando a uma horda de suítes nos jornais sobre o lançamento ou não lançamento do filme nos cinemas.

Já os Estados Unidos, ah, os Estados Unidos. Sempre trocam as mãos pelos pés quando o assunto é diplomacia, sempre trocam o pênis pela bunda quando o assunto é política internacional... Pois até quando o filme é uma comédia, tem lá no argumento um detalhe torto, aquela coisa que os torna meio que bundões, literalmente. A entrevista tem a sua freada na cueca: pouca gente percebeu - e aqui eximo os norte-coreanos, coitados, de culpa - que este filme despretensioso e imemorável entrou para uma minúscula lista de obras fictícias cujo mote principal é uma missão secreta para matar um líder máximo de outra nação que estivesse vivo. Hitler foi alvo de Fritz Lang em O homem que quis matar Hitler, produção de 1941, em plena Segunda Guerra Mundial. Fritz Lang e Hitler, sacou?

Fato é que A entrevista é bem sem graça. Chato pra caramba. A dupla Seth Rogen e James Franco não está tão boa como em seus trabalhos anteriores e rende poucas piadas. Não fosse a repercussão dos ataques ao website da Sony, teria sido um verdadeiro fiasco. O mais bacana do filme, justamente, está fora da tela. No fato, por exemplo, de jovens sul-coreanos planejarem comprar centenas de cópias e milhares de pendrives contendo o filme e jogar tudo em território norte-coreano do alto de um drone. Ou do fato de existir um mercado negro na Coreia do Norte que faturou uma boa grana não só vendendo o filme, mas agendando sessões clandestinas, já que é proibido assisti-lo - coitados, perderam tempo e correram risco à toa.

Muito barulho por nada.

Um comentário:

Kamila Azevedo disse...

Pra ser bem sincera, Dudu, dispenso esse filme. Acho que a polêmica do Sony-leaks favoreceu essa infantilidade chamada "A Entrevista". Como disseram Tina Fey e Amy Poehler no Globo de Ouro desse ano: alguém tinha interesse de assistir a este filme??? O interesse foi criado por causa dos emails sobre a opinião da Coréia do Norte sobre o longa.