domingo, março 22, 2015

Sniper americano (American sniper), de Clint Eastwood

Gente, o mundo está cada vez mais doido. Qual era a intenção de Clint Eastwood com esse filme? Seria uma crônica de guerra sobre um episódio recente da História? Uma homenagem póstuma para inspirar e arregimentar novos combatentes? Uma crítica ao crescimento e fortalecimento da indústria bélica? Um manifesto pacifista? - aí, não, né? Não combina com o cara. Bom, seria um alerta de utilidade pública sobre os problemas psicológicos que os soldados que retornam da guerra enfrentam? Quase isso. E o problema é justamente esse quase.

O roteiro de Sniper americano é baseado em fatos reais. Conta a história de Chris Kyle, um redneck texano que resolve se alistar no exército estadunidense depois de ver as torres gêmeas do WTC se esfarelando céu abaixo naquele fatídico dia 9 de setembro. Inflado pelo senso de patriotismo exacerbado, sua dedicação ufanista o leva a ser um dos melhores atiradores de precisão dos Estados Unidos, alçando-o ao estrelato. Sua dedicação é tamanha, que ele inclusive abre mão de estar com a família para proteger e salvaguardar o país que tanto ama.

Só que nem tudo são flores. Como a maioria dos combatentes que retornam ao seio da pátria, Kyle também sofre com disfunções psiquiátricas. Se torna um cara temperamental, explosivo, paranoico, introspectivo etc. Essa é a parte do filme em que pensamos que o velho Clint está criticando a situação em que se encontram os veteranos de guerra do seu país - e haja veterano, porque haja guerra, amigo! Mas nem... Kyle resolve que só vai abandonar a vida no front depois de cumprir uma missão movida, também, por questões pessoais: ele precisa colocar uma bala na cabeça do líder dos rebeldes iraquianos que matou seu amigo. Líder este de um grupo que mais tarde ficaria conhecido como... Estado Islâmico!

Aí vem a piração. Como a maioria dos atuais filmes desse gênero produzidos nos EUA atesta, parece que eles só conseguem fazer uma crítica às atrocidades da guerra, tanto em civis quanto em militares, depois que se passa muito tempo e a poeira da cólera se assenta. Assim como em Guerra ao terror, o que parece ser um alerta sobre os efeitos da guerra nos seres humanos acaba se transformando numa ode ao belicismo, uma justificativa para a doentia relação que os estadunidenses têm não somente com conflitos bélicos, mas com as armas de fogo. A diferença é que, se no vencedor do Oscar o protagonista volta à guerra, aqui no filme de Clint é a guerra que volta ao protagonista - uma estúpida ode ao que há de pior nesse mundo.

Conclusão, e ela pode parecer dura > Sniper americano é uma homenagem à guerra, e não ao ser humano.

sábado, março 14, 2015

A entrevista (The interview), de Evan Goldberg e Seth Rogen

Para quem não ligou o título à celeuma, A entrevista foi aquele que fez com que a Sony e a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos ficassem de cabelos em pé, alimentando um imbróglio diplomático que só não foi para frente porque a Coreia do Norte se supera em ser um país estranho, com um líder que de tão misterioso e imprevisível chega a ser caricato. Antes mesmo do lançamento do filme, um grupo de hackers invadiu o site da distribuidora e ameaçou botar pra quebrar, quebrar mesmo, toda e qualquer sala de cinema estadunidense que exibisse o dito cujo. O recado estava dado > eles ficaram bastante irritados.

Ora, ficaram boquiabertos com a ousadia de dois comediantes dos Estados Unidos em fazer um filme cujo roteiro gira em torno de uma missão secreta para assassinar Kim Jong-un - que, pasmem, fala inglês fluentemente e é um exímio conhecedor da cultura pop daquele país. Os protagonistas são dois janistroques que têm um programa sensacionalista de entrevistas na televisão. Por sorte, acabam conseguindo marcar uma exclusiva com o ditador norte-coreano em território inimigo. Logo, a CIA cresce os olhos e pede esse "favorzinho" - normal, né? - a eles, que têm a chance de se tornarem heróis.

Bom, vamos às observações. Uma sobre o papel de cada país envolvido nessa cambulhada.

Gente, A entrevista é tão bobo, tão infantiloide e tão insosso que, francamente, norte-coreanos, se ofender com isso é como levar a sério disputa de bola de gude entre alunos da quarta série do primário. Os Estados Unidos já pegaram bem mais pesado em outros filmes, com outros tantos desafetos. Inclusive, alguns deles ganhando prêmios - vejam só, norte-coreanos, prêmios! Esse aí o máximo que conseguiu foi uma discussão na web, e que não foi focada em política internacional, se limitando a uma horda de suítes nos jornais sobre o lançamento ou não lançamento do filme nos cinemas.

Já os Estados Unidos, ah, os Estados Unidos. Sempre trocam as mãos pelos pés quando o assunto é diplomacia, sempre trocam o pênis pela bunda quando o assunto é política internacional... Pois até quando o filme é uma comédia, tem lá no argumento um detalhe torto, aquela coisa que os torna meio que bundões, literalmente. A entrevista tem a sua freada na cueca: pouca gente percebeu - e aqui eximo os norte-coreanos, coitados, de culpa - que este filme despretensioso e imemorável entrou para uma minúscula lista de obras fictícias cujo mote principal é uma missão secreta para matar um líder máximo de outra nação que estivesse vivo. Hitler foi alvo de Fritz Lang em O homem que quis matar Hitler, produção de 1941, em plena Segunda Guerra Mundial. Fritz Lang e Hitler, sacou?

Fato é que A entrevista é bem sem graça. Chato pra caramba. A dupla Seth Rogen e James Franco não está tão boa como em seus trabalhos anteriores e rende poucas piadas. Não fosse a repercussão dos ataques ao website da Sony, teria sido um verdadeiro fiasco. O mais bacana do filme, justamente, está fora da tela. No fato, por exemplo, de jovens sul-coreanos planejarem comprar centenas de cópias e milhares de pendrives contendo o filme e jogar tudo em território norte-coreano do alto de um drone. Ou do fato de existir um mercado negro na Coreia do Norte que faturou uma boa grana não só vendendo o filme, mas agendando sessões clandestinas, já que é proibido assisti-lo - coitados, perderam tempo e correram risco à toa.

Muito barulho por nada.

sexta-feira, março 06, 2015

Resenha e homenagem póstuma > Jornada nas Estrelas, de Robert Wise

Faz um tempo que eu queria escrever sobre Star Trek, o filme de 1979 dirigido Robert Wise. Agora que Leonard Nimoy se foi, com certo atraso faço aqui uma resenha e uma homenagem póstuma ao ator, eterno Spock, com suas orelhas pontiagudas e sua incrível prestidigitadora forma de comunicação com civilizações extra-terrestres.

Comprei o filme nas Americanas, numa daquelas gôndolas promocionais que vendem DVDs, essas mídias fadadas ao olvido, a versão original que foi às telas de cinema. Uma produção caprichada, mas que dividiu os fãs da série televisiva que já existia desde a década de 1960. Alguns gostaram, outros odiaram. Eu não fui verdadeiramente um fã da série, apesar de acompanhá-la naquelas tardes da extinta Rede Manchete (se não me engano, ia ao ar logo após Incrível Hulk, aquela série com o Bill Bixby). Pois eu adorei.

A primeira vez que vi a versão cinematográfica de Jornada nas Estrelas eu ainda era menino, e confesso que Guerra nas Estrelas, com sua aura de aventura fantástica, me enchia mais os olhos. Aliás, essa era uma diferença fundamental entre as duas franquias. Enquanto Luke e os jedis seguiam os moldes das narrativas heroicas, no melhor estilo Joseph Campbell (vide O mito do herói), a turma da USS Enterprise seguia a linha mais científica, ousando não somente numa argumentação sustentada pela astrofísica, mas também no design de produção.

O ótimo roteiro do filme de Wise surpreende. Inclusive, por ser ele o diretor. Explico aqui > é ele o responsável por um dos filmes que mais detesto neste mundo, a saber, A Noviça Rebelde. Ok, ele dirigiu o fantástico O dia em que a Terra parou - e uma vez que Spock não sai correndo e cantando feliz da vida em nenhuma pradaria alienígena, a minha implicância com Wise fica de lado. Aqui, no primeiro longa de Jornada nas Estrelas, o já lendário capitão Kirk precisa levar a Enterprise até uma misteriosa nuvem que destrói o que encontra pela frente e, pior, está a caminho da Terra. Para isso, conta com alguns personagens da série televisiva, incluindo o diplomata estelar (predicado por minha conta) Dr. Spock.

O clima de suspense é realmente fantástico! O desfecho, quando conhecemos as reais intenções por trás da força alienígena que ameaça os humanos, é bastante criativo e suscita questões que seriam abordadas intensamente nos filmes de ficção-científica a partir de então. Os efeitos especiais são bem bacanas. Há também uma cena curiosa e emblemática que mostra um dos ícones da série televisiva, o teletransporte, dando errado.

Um excelente exemplar cinematográfico de boa ficção-científica, por mais que os fãs ardorosos da série possam ter se decepcionado.