quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Relatos selvagens (Relatos salvajes), de Damián Szifrón

Muita gente bradou por aí que Relatos selvagens, nossa, era um dos melhores do ano e tal, que eu tinha que ver, que era incrível, que o Bombita (eu também fui ver o filme sem saber o que era Bombita) era muito foda etc. Eu aprendi, ao logo do tempo, a frenar com ABS o frenesi das pessoas e não deixá-lo me contagiar - anos de treino. Então, fui conferir o filme de coração aberto e mente vazia, sabendo que o cinema argentino está um passo adiante por aqui pela América Latina.

O roteiro costura cinco ou seis, não lembro aqui o número exato e estou com preguiça de recapitular, episódios cuja temática é a mesma: ainda que vivendo em comunidade há milhares de anos, como o ser humano pode se transformar em um animal incontrolável, mandando às favas a civilidade, quando o instinto de sobrevivência é provocado e precisa aflorar. Espertamente, as tramas partem de situações corriqueiras, como um casamento, um carro rebocado, um filho inconsequente e uma discussão no trânsito. E a catarse, bingo, fortalece os laços entre filme e espectador.

A abertura é promissora - a menor esquete de todas, que tem algo em torno de cinco minutos e ali mesmo se resolve, mostra o tom do argumento e do texto, escrito de próprio punho pelo diretor Damián Szifrón. Aliás, o texto é tão bom que acaba se tornando, ele próprio, o problema. A força de Relatos Selvagens está na palavra. E só. Em momento algum, lamentavelmente, Szifrón usa o suporte que lhe é dado, o cinema, para ousar esteticamente - por mais que seu roteiro dê pano para a manda e seja, reconhecidamente, com todo o mérito, bastante ousado.

E aí, o que acontece? Todos os recursos que a linguagem cinematográfica pode oferecer para uma experiência arrebatadora dentro da sala escura são sumariamente ignorados. A transição entre as esquetes é feita com um fade in, fade out do mais vagabundo. A trilha sonora praticamente não existe. A direção de atores não tenta qualquer jogo cênico, nem com um baita ator no elenco, como o Darín (a esquete dele, pasmem, nem é a melhor). Não há filtros, não há planos, nem fotografia diferenciada. Nada disso.

Ah, mas tinha que ter?

Nem tinha.

No entanto, eu saí do cinema com aquela sensação de que deixaram de lado a possibilidade de entrar para a História, com maiúscula. Me veio à cabeça, na hora, Pulp fiction - ousado no texto e no roteiro, além de ousado esteticamente, cinematograficamente. Pois bem, Szifrón, faltou-lhe um pouco mais de ousadia. Fiquei com a impressão de que o filme daria um ótimo livro de contos. Mas afinal, estava no cinema, e ali o suporte é outro.

Um bom filme, sim. Mas quadrado. O cinema argentino é muito bom, sim. Mas esse nem é o melhor exemplar. É o típico caso de uma direção guiada por alguém que é roteirista de ofício.

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