domingo, fevereiro 22, 2015

O jogo da imitação (The Imitation Game), de Morten Tyldum

Quando eu era criança, sempre ouvia meu pai contar a história de Alan Turing. Estamos falando daqueles tempos do monitor verde e preto, de DOS, de disquete Verbatim. Lá na casa dele, todas as senhas dos diversos serviços no computador tinham a ver com o matemático britânico. Era uma espécie de homenagem, reconhecimento, honra ao mérito. Já dizia meu progenitor, um especialista à época dele em computação e programação, que se não fosse o Turing, a gente não teria um computador em casa. Mais tarde, falou a mesma coisa sobre o notebook. Depois, mais tarde ainda, sobre o iPhone. E até hoje ele continua repetindo isso, não sem razão.

Por isso, já estava mesmo na hora das grandes plateias no mundo inteiro conhecerem a interessantíssima, ainda que lamentavelmente triste, história de Turing. Apesar de alguns exageros do roteiro, e de algum atraso na ideia de se fazer um filme sobre sua vida, O jogo da imitação é uma justa homenagem ao sujeito que conseguiu abreviar a Segunda Guerra Mundial quebrando o código das comunicações criptografadas do exército nazista - mas que foi exposto à humilhação pública por ser homossexual.

Atenção para possíveis spoilers adiante! Se bem que, vamos combinar, biografia não tem spoiler porra nenhuma, né?

O que o filme conta é que após a guerra Turing se envolveu com um garoto de programa que roubou sua casa. Inevitavelmente, as investigações acabaram levando os policiais a descobrir sua sexualidade. Acusado de depravação simplesmente por ser gay, o que era crime naquela época, ele foi processado. No entanto, uma vez que era notoriamente um herói de guerra, foi-lhe dada a opção de fazer um tratamento hormonal para castrar seus desejos sexuais. Cansado e com graves sequelas, ele não aguentou a pressão e acabou cometendo suicídio.

Porém...

O que o filme não conta é que Turing foi expulso da marinha britânica por ser gay, e não dispensado por causa do fim da guerra. Pior ainda, foi impedido de continuar suas pesquisas mesmo após o desenvolvimento, que também não aparece no filme, de seu primeiro grande computador, pai de todas as máquinas digitais, o Colossus. Outro ponto divergente ressaltado por quem realmente conhece a vida de Turing (aka meu pai) é que seu temperamento era calmo e amigável, muito diferente do retratado pelo roteiro.

Dissemelhanças à parte, o enredo é bastante interessante, envolvendo no mesmo caldo o suspense da guerra, a beleza da matemática e o absurdo da homofobia. A interpretação de Benedict Cumberbatch, ainda que talvez descolada da realidade, é perfeita. É, no fim das contas, o que dá ritmo e charme ao filme. Digno de premiação.

Um comentário:

María Alvarado disse...

Antes de ver o filme eu não sabia nada sobre Bletchley, a maquina enigma ou qualquer coisa, mas tudo parecia muito interessante. Foi uma pena que Turing levaria a um julgamento, não DIFO perdão, porque ele fez algo importante, mas deve considerar mudar suas leis. Eles são considerados monstros moralmente injustas homossexuais, mas deixá-lo passar, enquanto eles eram úteis.