quinta-feira, fevereiro 19, 2015

Boyhood, de Richard Linklater

Eu fiz isso de propósito > deixei a resenha de Boyhood vir exatamente depois - e acima - da de Interestelar. E o motivo é exemplar. Richard Linklater é exatamente o oposto, a antítese, o inverso, o antagônico do que é Christopher Nolan. Um diretor que faz filmes simples, mas com uma profundidade que é assustadoramente humana. Um sujeito que deixa a complexidade restrita ao desafio de seu ofício como cineasta, e não como traquinagem narrativa. Não me deixam mentir a quantidade exuberante de atores de Slacker, a fotografia cartunesca de Waking life, a perfeita ambientação de Jovens, loucos e rebeldes e o improviso verborrágico dos diálogos de Antes do amanhecer e cia. - só para citar alguns.

Em Boyhood a ousadia foi filmar por mais de uma década, no período da entressafra, os mesmos atores - a partir de um roteiro que acompanha o protagonista dos 6 aos 18 anos. O resultado é magnífico: uma história tão humana, com uma linguagem tão acessível, que é impossível não ser absorvido logo no começo da projeção. Trata-se de um belo epítome sobre crescer, sobre acreditar no futuro, sobre se colocar diante da vida e respeitar o lugar do outro - ainda que este outro seja o seu filho. Pois é, quem é pai tem uma fruição ainda mais intensa do belíssimo argumento de Linklater.

E aí, o roteiro em si pouco importa, porque a ideia está sempre lá, em cada fotograma, em cada enquadramento, em cada ação. Inclusive, nada de tão complexo acontece. Não há reviravoltas intensas ou pontuais. É a vida seguindo seu rumo. A dos atores, a do diretor, a minha, a sua, a do vizinho, a do tio da cunhada da sua prima. É o tempo como personagem inexorável, se distanciando do tratamento de grandeza matemática que é tanto explorada em Interestelar, mas que parece não dá em lugar nenhum no filme de Nolan.

Ainda tem o selo de qualidade Linklater. Direção de atores primorosa, com um belíssimo elenco - incluindo os mais velhos, Patricia Arquette e Ethan Hawke, cujo envelhecimento não é tão perceptível assim. Fotografia bem cuidada, com aquela luz que banha as reminiscências infantis. Diálogos em seus devidos lugares, com certa dose de improviso que os torna prováveis de serem reais. A cenografia que sabe tirar proveito dos fatos cronológicos, sem precisar fazer esforço para criar marcos temporais.

Ah, e um desfecho dos mais singelos que coroa o esforço de Linklater em fazer um filme que talvez seja o mais perto que o cinema já tenha chegado em tentar responder o que faz a vida ter sentido - bem diferente de perguntar qual é o sentido da vida, né Nolan?

Um comentário:

Kamila Azevedo disse...

Perfeito, Dudu! A síntese do seu texto está na frase que resume o estilo Linklater de filmar: com simplicidade, mas muita humanidade. ansiosa para conferir "Boyhood".