domingo, fevereiro 22, 2015

Birdman, de Alejandro González Iñárritu

Filmes com metalinguagem são difíceis de se fazer e de agradar. Para piorar, eu tenho um pé bem atrás com o Iñarritu, cuja estrutura narrativa costuma se repetir a cada novo trabalho. Por isso, as expectativas não eram das maiores com Birdman - apesar do cartaz prometer catapultar a carreira de Michael Keaton para o estrelato pós-ostracismo, como já foi feito com tanta gente em Hollywood (olha cheirinho de Oscar aí). Porém, preciso tirar o chapéu para Iñarritu > que filme bacana!

Acompanhamos a história de um ator que monta um espetáculo dramático na Broadway como último esforço para se livrar do estigma da personagem que lhe rendeu os louros da fama no passado, mas que ainda insiste em lhe fazer companhia - inclusive, na forma de uma presença esquizofrênica. Qualquer semelhança com a carreira de Keaton, o Batman mais criticado da franquia do super-herói, não é mera coincidência e só adiciona ainda mais conteúdo à metalinguagem proposta.

De forma voyeurística, somos testemunhas dos ensaios para a grande estreia. Para dar andamento ao projeto que pode mudar a sua vida, Riggan, o protagonista do filme e da peça dentro do filme, conta com uma atriz que realiza seu sonho de pisar na Broadway e um ator de métodos hiper-realistas. Não bastasse a ótima direção de elenco, com a brilhante Emma Stone e o sempre surpreendente Edward Norton (além das luxuosas presenças da bela Naomi Watts e do polivalente Zach Galifianakis), a montagem do filme é fantástica.

A câmera passeia pelos bastidores em closes extremos. A entrada e saída dos atores de cena não respeita a cronologia cinematográfica, e sim a teatral: não importa se um ator está declamando sua fala, a câmera se volta a ele em um momento aleatório, do mesmo jeito que o olhar se comporta no teatro. A metalinguagem se reforça aqui com o jogo de câmera virando o jogo de cena.

Mais impressionante ainda, e o grande trunfo de Birdman, é o casamento da linguagem cinematográfica com a metalinguagem. Iñárritu acerta em cheio ao dar ao drama contornos irreais, confundindo seu espectador a todo momento sobre o que é real e o que é imaginário. Vale destacar também a trilha sonora, que entra na proposta da metalinguagem uma vez que é executada somente por um baterista (olha aí, galera do Whiplash), artista de rua, que se torna vez em quando personagem.

Um filmaço! O primeiro que realmente gosto do Iñárritu.

Nenhum comentário: