quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Selma, de Ava DuVernay

Filmes de personalidades históricas parecem estar em alta em Hollywood. Em alguns casos, isso é positivo, como acontece com Selma. Trata-se de um registro histórico que merece estar nas salas de cinema. Mais precisamente, fala sobre um momento crucial na vida e na militância de Martin Luther King Jr. - a marcha organizada de Selma, a cidade que dá nome ao filme, até Montgomery, ambas no estado do Alabama, palco de lamentáveis cenas de violência e desrespeito à população negra dos Estados Unidos. A série de protestos pacíficos tinha como objetivo garantir que os negros pudessem exercer livremente seu direito de voto.

O ponto forte do filme de Ava DuVernay é o clima de embate e suspense que percorre toda a narrativa. As cenas de conflito entre manifestantes e policiais são de tirar o fôlego e de descredenciar o ser humano como um organismo inteligente dotado de razão e sensibilidade. Uma vez que o pastor Martin Luther King Jr. pregava a resistência não violenta, seus seguidores, fossem negros ou brancos, católicos ou protestantes, ricos ou pobres, eram vítimas da covardia que tentava a todo custo dispersar as manifestações.

Outra característica interessante de Selma é mostrar os bastidores do poder, com foco na argumentação do então presidente dos Estados Unidos Lyndon B. Johnson em declarar apoio a Martin Luther King Jr., mas não exercer seu poder para garantir a correta aplicação do direito ao voto. Selma acabou chamando a atenção da mídia, atraindo holofotes de todos os cantos do país, arregimentando grande parte da sociedade civil a apoiar e exigir uma política social mais justa - um dos grandes pilares da campanha vencedora do partido democrata na época, e talvez até hoje.

As atuações estão todas em seus devidos lugares, rendendo bons momentos. Inclusive, a interpretação da apresentadora Oprah Winfrey, que segura a peteca e não a deixa cair. É ela quem assina a produção do filme ao lado de Brad Pitt, que diferentemente do que fez em outra produção sua, 12 anos de escravidão, não faz aqui nenhum papel de herói que salva o dia.

Mais que um bom filme, Selma é um filme necessário. Um justo registro sobre uma grande personalidade histórica que marcou líderes políticos e de movimentos sociais no mundo inteiro.

Mesmo se nada der certo (Begin again), de John Carney

Posso resumir em apenas uma frase esse filme, e aí nem precisaria escrever mais nada > um filme mediano de muita música merda. Mas em respeito aos meus queridos e poucos leitores eu vou adiante para espinafrar um pouco mais essa perda de tempo chamada Mesmo se nada der certo - uma comédia romântica que tem apenas um mérito. Falaremos dele adiante. Por enquanto, o linchamento.

Logo nos primeiros minutos de projeção, a primeira música, os primeiros acordes menores, o primeiro lamento e eu já pensei cá com meus botões: nossa, parece aquela banda horrível, Maroon 5. Desconhecedor assíduo da música popularesca estadunidense - sou do tipo que confunde Nicki Minaj com Kylie Minogue (que é australiana) e não sabe a grafia correta de Beyoncé (tive que pesquisar no Google) -, foi só mais tarde que descobri que um dos protagonistas, ora, vejam só, é o vocalista da dita banda. Soubesse desde o início, teria me poupado de assistir ao filme.

Para piorar, Mesmo se nada der certo tem um dos atores mais insossos da atualidade, mesmo com a cara de bonachão simpático. Mark Ruffalo é fraco, muito fraco. E aqui está bem fraquinho, coitado. Faz par não romântico, mas cheio de tensão sexual, com a boa atriz Keira Knightley, cuja personagem, coitada, mais parece um fiapo de Madalena-arrependida, chata demais. No roteiro, os dois planejam dar a volta por cima. Ela, esquecer o pé na bunda do Maroon 5 e gravar um disco com suas composições próprias. Ele, dar a volta por cima no mercado fonográfico e provar ao ex-sócio que ainda pode produzir um artista de sucesso.

Ei, mas você não falou que tinha um mérito? - perguntam.

Tem. E lembrei de outros enquanto escrevia aqui. O bacana é que o argumento tem lá uma crítica ao star system do mundo da música. Questiona o que é o sucesso, para que serve uma composição, qual é o valor de um disco etc. De maneira meio torta, mas questiona. Outro ponto forte é o coadjuvante James Corden, responsável por uma cena interessante na qual, durante uma festa, desafia as pessoas a não se entregar e dançar uma determinada música. Dá vontade de fazer a brincadeira na próxima festa em que eu estiver presente. E, por último, é preciso admitir, o filme não acaba com o clichê máximo do gênero, o que o salva de ser uma catástrofe total e o mantém na linha da hombridade.

Ou seja, um filme mediano de música merda.

domingo, fevereiro 22, 2015

Eu já estou aqui vendo o Oscar!

E vocês?


A teoria de tudo (The Theory of Everything), de James Marsh

Não se deixe enganar > A teoria de tudo é um filme sobre a relação - linda, diga-se de passagem - entre Stephen Hawking e sua companheira, Jane. O roteiro é uma adaptação do livro dela, que conta em detalhes os momentos, tanto os felizes quanto os difíceis, que ambos passaram juntos. E que não deixam de ser, como a obra do maior cosmólogo vivo do nosso tempo, inspiradores.

O filme também tem como foco a evolução da doença de Hawking, bem como o modo como ele a supera, já que seu cérebro não é afetado - ufa, hein humanidade? Mostra, inclusive, como foi desacreditado pelos médicos, que lhe deram apenas dois anos de vida. Atualmente, ele já passa dos 70...

Comparando A teoria de tudo ao filme do outro gênio britânico, resenhado aí embaixo, trata-se de uma obra mais bem acabada. A edição é melhor, a fotografia é melhor, o figurino é melhor, a direção de arte (que agora se chama design de produção, seguindo a onda) é melhor. Mas o roteiro fica um pouco aquém. Monstruosa mesmo, arrebatadora, impecável, e podia ficar aqui escrevendo uma centena de adjetivos e ainda assim seria pouco, é a atuação de Eddie Redmayne no papel principal. Aliás, parece que direção de atores é um ponto forte do até então desconhecido, ao menos a mim, James Marsh - dele, conheço apenas o bom documentário O Equilibrista. O elenco inteiro rende e não se deixa ser ofuscado pela opulência da interpretação de Redmayne.

Por ser entusiasta do assunto e leitor de Hawking, confesso que esperava um pouco mais de ciência e bem menos melodrama. No entanto, tenho que admitir que, mesmo com cenas bastante dramáticas, A teoria de tudo foge de forma elegante dos clichês comuns a esse gênero de filme, as famosas biografias de fundo romântico.

O jogo da imitação (The Imitation Game), de Morten Tyldum

Quando eu era criança, sempre ouvia meu pai contar a história de Alan Turing. Estamos falando daqueles tempos do monitor verde e preto, de DOS, de disquete Verbatim. Lá na casa dele, todas as senhas dos diversos serviços no computador tinham a ver com o matemático britânico. Era uma espécie de homenagem, reconhecimento, honra ao mérito. Já dizia meu progenitor, um especialista à época dele em computação e programação, que se não fosse o Turing, a gente não teria um computador em casa. Mais tarde, falou a mesma coisa sobre o notebook. Depois, mais tarde ainda, sobre o iPhone. E até hoje ele continua repetindo isso, não sem razão.

Por isso, já estava mesmo na hora das grandes plateias no mundo inteiro conhecerem a interessantíssima, ainda que lamentavelmente triste, história de Turing. Apesar de alguns exageros do roteiro, e de algum atraso na ideia de se fazer um filme sobre sua vida, O jogo da imitação é uma justa homenagem ao sujeito que conseguiu abreviar a Segunda Guerra Mundial quebrando o código das comunicações criptografadas do exército nazista - mas que foi exposto à humilhação pública por ser homossexual.

Atenção para possíveis spoilers adiante! Se bem que, vamos combinar, biografia não tem spoiler porra nenhuma, né?

O que o filme conta é que após a guerra Turing se envolveu com um garoto de programa que roubou sua casa. Inevitavelmente, as investigações acabaram levando os policiais a descobrir sua sexualidade. Acusado de depravação simplesmente por ser gay, o que era crime naquela época, ele foi processado. No entanto, uma vez que era notoriamente um herói de guerra, foi-lhe dada a opção de fazer um tratamento hormonal para castrar seus desejos sexuais. Cansado e com graves sequelas, ele não aguentou a pressão e acabou cometendo suicídio.

Porém...

O que o filme não conta é que Turing foi expulso da marinha britânica por ser gay, e não dispensado por causa do fim da guerra. Pior ainda, foi impedido de continuar suas pesquisas mesmo após o desenvolvimento, que também não aparece no filme, de seu primeiro grande computador, pai de todas as máquinas digitais, o Colossus. Outro ponto divergente ressaltado por quem realmente conhece a vida de Turing (aka meu pai) é que seu temperamento era calmo e amigável, muito diferente do retratado pelo roteiro.

Dissemelhanças à parte, o enredo é bastante interessante, envolvendo no mesmo caldo o suspense da guerra, a beleza da matemática e o absurdo da homofobia. A interpretação de Benedict Cumberbatch, ainda que talvez descolada da realidade, é perfeita. É, no fim das contas, o que dá ritmo e charme ao filme. Digno de premiação.

Birdman, de Alejandro González Iñárritu

Filmes com metalinguagem são difíceis de se fazer e de agradar. Para piorar, eu tenho um pé bem atrás com o Iñarritu, cuja estrutura narrativa costuma se repetir a cada novo trabalho. Por isso, as expectativas não eram das maiores com Birdman - apesar do cartaz prometer catapultar a carreira de Michael Keaton para o estrelato pós-ostracismo, como já foi feito com tanta gente em Hollywood (olha cheirinho de Oscar aí). Porém, preciso tirar o chapéu para Iñarritu > que filme bacana!

Acompanhamos a história de um ator que monta um espetáculo dramático na Broadway como último esforço para se livrar do estigma da personagem que lhe rendeu os louros da fama no passado, mas que ainda insiste em lhe fazer companhia - inclusive, na forma de uma presença esquizofrênica. Qualquer semelhança com a carreira de Keaton, o Batman mais criticado da franquia do super-herói, não é mera coincidência e só adiciona ainda mais conteúdo à metalinguagem proposta.

De forma voyeurística, somos testemunhas dos ensaios para a grande estreia. Para dar andamento ao projeto que pode mudar a sua vida, Riggan, o protagonista do filme e da peça dentro do filme, conta com uma atriz que realiza seu sonho de pisar na Broadway e um ator de métodos hiper-realistas. Não bastasse a ótima direção de elenco, com a brilhante Emma Stone e o sempre surpreendente Edward Norton (além das luxuosas presenças da bela Naomi Watts e do polivalente Zach Galifianakis), a montagem do filme é fantástica.

A câmera passeia pelos bastidores em closes extremos. A entrada e saída dos atores de cena não respeita a cronologia cinematográfica, e sim a teatral: não importa se um ator está declamando sua fala, a câmera se volta a ele em um momento aleatório, do mesmo jeito que o olhar se comporta no teatro. A metalinguagem se reforça aqui com o jogo de câmera virando o jogo de cena.

Mais impressionante ainda, e o grande trunfo de Birdman, é o casamento da linguagem cinematográfica com a metalinguagem. Iñárritu acerta em cheio ao dar ao drama contornos irreais, confundindo seu espectador a todo momento sobre o que é real e o que é imaginário. Vale destacar também a trilha sonora, que entra na proposta da metalinguagem uma vez que é executada somente por um baterista (olha aí, galera do Whiplash), artista de rua, que se torna vez em quando personagem.

Um filmaço! O primeiro que realmente gosto do Iñárritu.

sábado, fevereiro 21, 2015

Whiplash, de Damien Chazelle

Não entendo tanto assim de jazz. Gosto muito, mas não sou dos mais estudiosos, o que nunca me impediu de ouvir discos de Miles Davis, John Coltrane, Thelonious Monk e Charlie Parker. Também nunca estudei música a ponto de ser especialista. Fiz lá minhas aulas de violão no Centro Musical Antonio Adolfo, mas era plenamente consciente das minhas limitações. Aliás, nunca toquei jazz - meu negócio era o rock de garagem, com minha guitarra distorcida a serviço do barulho. No entanto, acho que a minha paixão por música me permite definir Whiplash - e escrevo isso de forma lamuriosa - como a vitória da técnica sobre a sensibilidade.

O roteiro é simples: um jovem de 19 anos que quer se tornar o próximo Buddy Rich entra para a banda do conservatório de música. Lá, é desafiado por um professor que usa métodos nada tradicionais para levar seus pupilos ao limite. Só assim, alega, será possível surgir um novo Bird - a saber, o apelido de Charlie Parker. O grande desafio surge quando ele precisa tocar uma música (que dá nome ao filme) cujo tempo é bastante complexo - a saber novamente, 7/8. O garoto sua, sangra, tem ataque de pelanca e persegue isso como se fosse a coisa mais importante da sua vida.

Não há dúvidas de que se trata de um filme interessante em sua forma. As cenas musicais são muito bem filmadas, a trilha sonora, obviamente, é bem bacana e os atores estão fantásticos, em grande parte porque conhecem realmente os instrumentos que manipulam. Além disso, outro fato que torna Whiplash simpático é que ele é o concorrente ao Oscar de Melhor Filme com orçamento mais humilde da história da premiação. Um típico filme independente no meio de grandalhões com orçamentos astronômicos.

O problema é, repito, a vitória da técnica sobre a sensibilidade. É assim que se encara o mundo da música? Não é possível que o sucesso profissional de um músico amador seja proporcional ao número de vitórias em concursos musicais. Não é possível que tocar um duplo suingue em 7/8 o mais rápido possível faça dele um músico diferenciado. Mas é o que o argumento sublinha durante todo o filme, com duas cenas que reforçam a exaltação da técnica. A primeira é quando um jogador de futebol americano, tratado pelo roteiro como um janistroques, faz uma pergunta pertinente que é totalmente ignorada durante o filme todo: como é possível reconhecer o mérito de forma justa num concurso musical? A outra, patética, é quando o protagonista se senta diante da bateria e, sem a partitura, não consegue tocar a música. E o improviso? Não é o jazz também sobre isso? Usar a sua técnica, conseguida com muito suor e dedicação, para improvisar?

O desfecho é um cruel ato final de sadomasoquismo, fetiche que rasteja pelos cantos do filme todo, tanto na relação aluno x professor, quanto filho x pai, namorado x namorada etc. Uma demonstração enfadonha e inócua do virtuosismo, da técnica, passando por cima da sensibilidade como um rolo compressor.


quinta-feira, fevereiro 19, 2015

Boyhood, de Richard Linklater

Eu fiz isso de propósito > deixei a resenha de Boyhood vir exatamente depois - e acima - da de Interestelar. E o motivo é exemplar. Richard Linklater é exatamente o oposto, a antítese, o inverso, o antagônico do que é Christopher Nolan. Um diretor que faz filmes simples, mas com uma profundidade que é assustadoramente humana. Um sujeito que deixa a complexidade restrita ao desafio de seu ofício como cineasta, e não como traquinagem narrativa. Não me deixam mentir a quantidade exuberante de atores de Slacker, a fotografia cartunesca de Waking life, a perfeita ambientação de Jovens, loucos e rebeldes e o improviso verborrágico dos diálogos de Antes do amanhecer e cia. - só para citar alguns.

Em Boyhood a ousadia foi filmar por mais de uma década, no período da entressafra, os mesmos atores - a partir de um roteiro que acompanha o protagonista dos 6 aos 18 anos. O resultado é magnífico: uma história tão humana, com uma linguagem tão acessível, que é impossível não ser absorvido logo no começo da projeção. Trata-se de um belo epítome sobre crescer, sobre acreditar no futuro, sobre se colocar diante da vida e respeitar o lugar do outro - ainda que este outro seja o seu filho. Pois é, quem é pai tem uma fruição ainda mais intensa do belíssimo argumento de Linklater.

E aí, o roteiro em si pouco importa, porque a ideia está sempre lá, em cada fotograma, em cada enquadramento, em cada ação. Inclusive, nada de tão complexo acontece. Não há reviravoltas intensas ou pontuais. É a vida seguindo seu rumo. A dos atores, a do diretor, a minha, a sua, a do vizinho, a do tio da cunhada da sua prima. É o tempo como personagem inexorável, se distanciando do tratamento de grandeza matemática que é tanto explorada em Interestelar, mas que parece não dá em lugar nenhum no filme de Nolan.

Ainda tem o selo de qualidade Linklater. Direção de atores primorosa, com um belíssimo elenco - incluindo os mais velhos, Patricia Arquette e Ethan Hawke, cujo envelhecimento não é tão perceptível assim. Fotografia bem cuidada, com aquela luz que banha as reminiscências infantis. Diálogos em seus devidos lugares, com certa dose de improviso que os torna prováveis de serem reais. A cenografia que sabe tirar proveito dos fatos cronológicos, sem precisar fazer esforço para criar marcos temporais.

Ah, e um desfecho dos mais singelos que coroa o esforço de Linklater em fazer um filme que talvez seja o mais perto que o cinema já tenha chegado em tentar responder o que faz a vida ter sentido - bem diferente de perguntar qual é o sentido da vida, né Nolan?

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Interestelar (Interstellar), de Christopher Nolan

Sou da opinião que Christopher Nolan é um diretor com uma mania irritante: a de complicar o que já é bem complexo. Seus filmes têm roteiros que dão um nó na narrativa para depois tentar puxar uma pontinha frouxa e salvar o argumento. Mas aí, quando a gente vê, já é tarde demais e o nó não tem mais como ser desfeito. É nessa hora, sempre lá para os vinte minutos finais, que a corda dele fica com um nó na altura do pescoço. E como ele se livra disso? Com a tesoura do clichê.

Em Interestelar é assim. O argumento é primoroso! Bem cuidado, bem amarrado e bem crível - o que já é 80% de sucesso para um bom filme de ficção-científica. Tanto que a gente até esquece essa babaquice midiática de que esse foi o filme mais longo já rodado em IMAX. Roteiros que trabalham em cima de hipóteses plausíveis costumam prender a atenção do espectador mais desacostumado com teorias científicas, até mesmo quando se trata de física quântica, um assunto muito comentado, mas muito pouco compreendido.

Nolan faz certinho. Explica as entrelinhas das equações físicas, apresenta seus personagens com bastante calma e coloca em discussão questões existenciais, envolvendo o espectador num cenário futurista não muito distante e bastante possível no qual a humanidade enfrenta uma praga agrária. Além da escassez de comida no mundo inteiro, a atmosfera da Terra sofre com tempestades de poeira, ficando com níveis muito baixos de oxigênio e sentenciando os humanos à morte lenta.

É aí que entra o protagonista Cooper, um ex-piloto da NASA que aceita fazer parte de um projeto secreto, já que a agência espacial, em si, também se torna uma organização secreta: enviar expedições através de um buraco de minhoca (a saber, uma ainda hipotética dobra no tecido do espaço-tempo que possibilitaria percorrer distâncias inimagináveis em pouquíssimo tempo) que aparece misteriosamente perto de Saturno. Daí, já do outro lado do buraco, duas hipóteses: mandar um sinal de volta quando achar um planeta habitável ou começar uma colônia espacial para dar continuidade à raça humana. E adeus, planeta Terra.

Diz aí, que baita argumento, hein!?

Como entusiasta do assunto, as primeiras horas de filme foram intensas para mim. E acredito que para a maioria dos espectadores. Tem lá uma referência a 2001, uma odisseia no espaço meio esquisita, que não combina nada com o diretor, mas o ritmo é bacana. Até o momento em que Nolan, depois de 400 reviravoltas das mais complexas, mas que a gente até aguenta, se vê num beco sem saída. E aí resolve abandonar as especulações científicas e inventa de botar na jogada um buraco negro... Pronto, está dado o ensejo para criar umas sequências desastrosas, inundadas de sentimentalismo barato e com um desfecho terrível que deixa, obviamente, algumas questões em aberto.

Ô mania chata de complicar as coisas.

Relatos selvagens (Relatos salvajes), de Damián Szifrón

Muita gente bradou por aí que Relatos selvagens, nossa, era um dos melhores do ano e tal, que eu tinha que ver, que era incrível, que o Bombita (eu também fui ver o filme sem saber o que era Bombita) era muito foda etc. Eu aprendi, ao logo do tempo, a frenar com ABS o frenesi das pessoas e não deixá-lo me contagiar - anos de treino. Então, fui conferir o filme de coração aberto e mente vazia, sabendo que o cinema argentino está um passo adiante por aqui pela América Latina.

O roteiro costura cinco ou seis, não lembro aqui o número exato e estou com preguiça de recapitular, episódios cuja temática é a mesma: ainda que vivendo em comunidade há milhares de anos, como o ser humano pode se transformar em um animal incontrolável, mandando às favas a civilidade, quando o instinto de sobrevivência é provocado e precisa aflorar. Espertamente, as tramas partem de situações corriqueiras, como um casamento, um carro rebocado, um filho inconsequente e uma discussão no trânsito. E a catarse, bingo, fortalece os laços entre filme e espectador.

A abertura é promissora - a menor esquete de todas, que tem algo em torno de cinco minutos e ali mesmo se resolve, mostra o tom do argumento e do texto, escrito de próprio punho pelo diretor Damián Szifrón. Aliás, o texto é tão bom que acaba se tornando, ele próprio, o problema. A força de Relatos Selvagens está na palavra. E só. Em momento algum, lamentavelmente, Szifrón usa o suporte que lhe é dado, o cinema, para ousar esteticamente - por mais que seu roteiro dê pano para a manda e seja, reconhecidamente, com todo o mérito, bastante ousado.

E aí, o que acontece? Todos os recursos que a linguagem cinematográfica pode oferecer para uma experiência arrebatadora dentro da sala escura são sumariamente ignorados. A transição entre as esquetes é feita com um fade in, fade out do mais vagabundo. A trilha sonora praticamente não existe. A direção de atores não tenta qualquer jogo cênico, nem com um baita ator no elenco, como o Darín (a esquete dele, pasmem, nem é a melhor). Não há filtros, não há planos, nem fotografia diferenciada. Nada disso.

Ah, mas tinha que ter?

Nem tinha.

No entanto, eu saí do cinema com aquela sensação de que deixaram de lado a possibilidade de entrar para a História, com maiúscula. Me veio à cabeça, na hora, Pulp fiction - ousado no texto e no roteiro, além de ousado esteticamente, cinematograficamente. Pois bem, Szifrón, faltou-lhe um pouco mais de ousadia. Fiquei com a impressão de que o filme daria um ótimo livro de contos. Mas afinal, estava no cinema, e ali o suporte é outro.

Um bom filme, sim. Mas quadrado. O cinema argentino é muito bom, sim. Mas esse nem é o melhor exemplar. É o típico caso de uma direção guiada por alguém que é roteirista de ofício.

Tira a máscara!

É, senhoras e senhores, meninos e meninas. Aproveitei o Carnaval, a festa da carne, para refletir sobre o que é este blog aqui.



Assim, assado, eu não exerço mais a profissão de crítico de cinema, não frequento mais as cabines (apesar de receber, todo santo e profano dia, pelo menos três avisos delas) e nem ganho um cascalho com isso. Também não tenho mais curiosidade em saber quantos filmes assisto por ano, e nem tenho vontade de organizá-los em uma lista cronológica.

Porém, ainda recebo alguns e-mails e cometários de gente que, vai lá saber por quê, gosta desse espaço, que está quase caindo em desuso. Eu pago aquela mixaria anual para manter o domínio - mais para ter como referência no portfólio, já que sou jornalista e redator, do que para ter um domínio só meu tipo aquela coisa meio mal resolvida de dominar a Ásia e a América do Sul e mais 12 territórios a minha escolha.

Então, resolvi tirar a fantasia. E a máscara também.

Vou escrever sobre filmes. O que der na telha. Foda-se a cronologia. Foda-se a contagem. E espero que os meus poucos, queridos e donairosos leitores, mas que são os poucos mais cheios de garbo e classe que ainda curtem um bom cineminha, continuem passando por aqui.

É isso. Beijo pra quem tá de calcinha, abraço para quem tá de cueca. Se bem que ainda é Carnaval...