quarta-feira, dezembro 30, 2015

Nocaute (Southpaw), de Antoine Fuqua

Você vai ler por aí uma penca de resenhas comparando Nocaute a Rocky. A comparação parece inevitável. Afinal, trata-se daquela velha história de superação utilizando a lona como metáfora e os assaltos como obstáculos e os adversários como alter-egos a serem superados e a família como pilar cristão e a humildade como redenção etc. Só que aqui, nesse blog, não vai ter comparação. Para colocar os dois filmes numa só sentença, basta escrever o seguinte: Nocaute podia ser muito melhor que qualquer episódio da franquia de Rocky.

O roteiro, que tem lá um buraco amadorístico em minha singela opinião, mostra a ascensão e queda de um pugilista que, além de deter o título de campeão, se mantém invicto com um invejoso cartel em que não há derrotas. Até o dia em que um drama familiar, que começa com a provocação de um possível adversário, faz com que tudo se torne poeira. Ele perde o dinheiro, a casa, os treinadores e até a guarda da filha. Tudo de forma muito maniqueísta, previsível e até infantil - e com o tal buraco no roteiro escancarado ali na sua frente, sobre o qual não vou comentar para não desagradar leitores que não suportam spoilers (estes devem ser dois ou três dos meus 11 leitores, e prezo muito pela presença deles aqui, por mais que não suportem spoilers, o que eu acho uma besteira, mas vá lá, depois explico porque acho besteira).   

A verdade é que o diretor Antoine Fuqua tinha em mãos um argumento que poderia ter sido muito melhor aproveitado se o roteiro optasse, logo após a reviravolta que dá início ao drama do protagonista, por um tratamento mais denso e pesado. Portanto, o que promete ser uma história contundente, acaba sendo uma mera lição de vida, daquelas risíveis, usando as regras e curiosidades do boxe como mensagens de efeito para um aprendizado sobre a luta pela sobrevivência. Por exemplo, notem o nome do  lutador: Billy Hope. Esperança, sacou? E o filme faz questão de deixar isso bem claro (o poster gingo, pior, traz escrito believe in hope). Faltou explorar mais o lado sombrio das lutas de boxe, cavar um poço um pouco mais fundo e sem uma escada de emergência para a saída. 

Adriaaaaaan! Pera, não. Esse é diferente...
Quanto às atuações, de fato, Jake Gyllenhaal segura a onda e faz um excelente trabalho. Outro que não deixa a peteca cair é o experiente Forest Whitaker, que tem seu trabalho de composição dramática atrapalhado pela superficialidade do personagem, uma espécie de Senhor Miyagi do boxe, com uma profusão de chavões chatões.

Curiosidade para o público brasileiro: tem uma hora, lá na segunda metade de projeção, em que o protagonista vai alugar um apartamento. Há uma moça que mostra a ele os cômodos e fala sobre o pagamento. Percebe-se, pelo jeito como se expressa, que é latina. E aí ela abre a boca pra falar com alguém em sua língua nativa e... é do Brasil il il! E com direito a sotaque do Nordeste. O nome dela é Juliana Guedes, e está devidamente cadastrada no IMDB, aqui. Ao que parece, é assistente de Jake Gyllenhaal.

domingo, dezembro 27, 2015

Perdido em Marte (The Martian), de Ridley Scott

A ideia é muito boa: a história parte de um ponto no futuro próximo em que o homem já domina a técnica de exploração em Marte, o que pelo jeito não vai demorar tanto assim. Pelos planos da NASA, se tudo der certo, a primeira missão tripulada deve acontecer daqui a 14 anos (já é quase ano novo), em 2030. O livro homônimo de Andy Weir, no qual se baseia o filme, cria uma espécie de drama centrado na sobrevivência em um ambiente inóspito, colocando em destaque conceitos morais. Ridley Scott pega esse argumento e faz um filme que funciona como um Náufrago - ou Esqueceram de mim, para aproveitar essa onda de festas de fim de ano - futurista, dirigindo sua história exatamente como manda o figurino hollywoodiano, o que nem sempre é uma ideia muito boa.

Acontece assim, em sinopse informal: tem lá uma tempestade monstruosa em solo marciano e os astronautas são obrigados a abortar a missão. O personagem de Matt Damom, o botânico da equipe, leva uma estocada nos cornos e desaparece. Dado como morto, é deixado para trás pelo resto da tripulação, que se pirulita rapidinho do planeta vermelho. Acontece que, por milagre (sim, deus está presente em Marte), ele sobrevive. A partir daí, a NASA fica mal na fita e precisa decidir se vai deixá-lo lá, já que é difícil pra caramba se manter vivo num lugar daqueles, ou se vai se descabelar - e se descapitalizar - para traçar um plano de resgate. Bom, se você viu o trailer, já sabe que opção eles escolhem.

Não li o livro, mas se o filme for fidedigno a ele, trata-se de um grande desperdício de tinta, assim como foi esse grande desperdício de película de um diretor que vem acumulando equívocos ao longo do tempo, talvez por seguir austeramente a cartilha do mercado cinematográfico. O protagonista mais parece uma mistura de MacGyver com Kevin McCallister. Ao mesmo tempo em que usa seus conhecimentos avançados de botânica, faz piadas o tempo inteiro. O tempo inteiro mesmo, ainda que não se trate de uma comédia - o que faria sentido num livro, uma vez que o narrador solitário tem suas sacadas em um fluxo de memória consciente, sem precisar concretizar sua comicidade diante do perigo em ações tresloucadas. Apesar do tema empolgante, o filme é chato. Não decola, para fazer um trocadilho. Não há uma cena sequer na qual a imprevisibilidade seja tratada com carinho. É tudo completamente previsível...

Outbacks australianos? Nem.. É tudo computadorizado.

Talvez isso não faça parte nem do livro, mas seria bastante interessante fazer um filme no qual a figura de um deus partisse de um humano. Em Marte, um botânico faz surgir a vida e dá aos marcianos sapiens, milhões de nos após uma evolução, um motivo para que seja criada a eterna pergunta que tanto move os viventes: de onde viemos? Nisso, entraria no balaio ciência, religião, ética, moral, cultura etc. Mas nem rola aqui. Perdido em Marte vai pelo caminho mais fácil e traz um desfecho que mais parece o de um filme de super-herói. Chega a ser patético.

O que me fez ficar até o fim foi essa possibilidade de vislumbrar, agora que já sabemos, graças ao Curiosity, como é Marte, a interação entre o planeta e os seres humanos. De resto, é pura perda de tempo.

Nota, em 11/01/2016 > O filme foi premiado no Globo de Ouro na categoria Comédia! Metalinguagem? Ai, que comédia...

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Para ler a música de uma Legião

Hoje o assunto por aqui é música. A resenha abaixo é da autobiografia do Dado Villa-Lobos, guitarrista da Legião Urbana.

A mim, música sempre foi textura. Comecei a tocar guitarra na época em que os heróis do instrumento, de cabelos compridos revoltos e calças de couro apertadas, executavam arpejos em velocidade extrema. Muita técnica, pouca textura. Eu estava mais interessado em barulhos estranhos. Meus heróis sempre foram aqueles que conseguiam fazer com que a guitarra não soasse simplesmente como um instrumento de corda amplificado, e sim como uma agulha que vai entrelaçando timbres, tons, notas, semínimas.

Contrariando a massa, que ovacionava Malmsteen, Satriani e Vai, a santíssima trindade àquela época, eu queria ser diferente. Gostava de Pixies, Sonic Youth e Dinosaur Jr. - além dos representantes da MPB, Música Popular Britânica, como Clash, Joy Division, Specials e tantos outros. De gente de verdade que tocava guitarra para fazer barulho bom. Eu preferia, por exemplo, o Dado Villa-Lobos.

Parte da minha adolescência foi vivida na saudosa loja que o guitarrista da Legião e o baixista da Plebe Rude - outra banda que sempre admirei -, André X, mantinham numa galeria do Leblon off-Manoel Carlos. Foi lá, aos 13 anos, que adquiri o meu primeiro disco do Pavement, Slanted and Enchanted, de 1991 – o que me custou toda a mesada, algo em torno de NCz$ 1.500,00. A Rock it! era um dos únicos lugares onde eu podia trocar uma ideia sobre as bandas e artistas dos quais gostava. Foi uma época de fruição quase solitária e de extrema mudança de paradigmas.

Por isso, ler o livro que o meu querido e estimado amigo Felipe Demier ajudou a dar corpo, a autobiografia do guitarrista de uma das minhas bandas prediletas, foi uma jornada profunda a um passado que ajudou a construir o meu caráter e a dar forma ao que sou hoje. Li Dado Villa-Lobos - Memórias de um Legionário, da editora Mauad, em uma semana de folga do trabalho. Foi a minha viagem de férias.

A leitura é como uma visita íntima aos ídolos, que gentil e humildemente descem do oratório e se mostram tão humanos quanto o leitor. O livro permite acompanhar o surgimento do rock de Brasília, os percalços políticos e econômicos que influenciaram a produção cultural do país, o processo criativo de quem tentava remar contra a corrente e as relações humanas que se estabeleceram dentro desse caldeirão que continua em ebulição. É cômico, denso, tenso, emocionante e até deprimente em certas passagens. Senti-me tão perto do Dado, que é como se tivesse estado numa mesa de bar dividindo uma cerveja gelada com ele e os outros dois autores - além do Felipe, o Romulo Mattos, outro cara bom de papo.

Olha a camisa do Bonfá ali. Sempre relacionei as duas bandas.

Página a página, ou seja, disco a disco, fui entendo como minha predileção pela guitarra do Dado, com suas texturas diversas e elegantes, fazia sentido. Perpassar, dessa espécie de bastidores, todas as etapas - composição, ensaio, gravação, lançamento, apresentações - de cada álbum da Legião Urbana foi uma possibilidade inestimável de entender por que a música pode ter essa força avassaladora na vida de muita gente.

Escrevo isso porque Legião Urbana é parte indelével da minha vida. Quando criança morria de medo de que a usina nuclear de Angra dos Reis causasse um desastre ambiental. Meu temor era corroborado pelo grotesco acidente em Chernobyl, em 1986, que transformou a cidade da antiga União Soviética em um cenário abandonado de filme de terror. Mesmo se as estrelas começassem a cair / E a luz queimasse tudo ao redor / E fosse o fim chegando cedo / Você visse o nosso corpo em chamas! Perdi a conta de quantas vezes escutei esses versos com aquela mistura de temor e arrebatamento.

Quando ainda estava no colégio, prestes a completar o que hoje equivale ao Ensino Fundamental, havia uma Mônica na minha sala. Uma menina completamente diferente de mim: ela do reggae e eu, do rock. No entanto, éramos muito próximos. Também perdi a conta de quantas vezes nós dois ouvimos as pessoas cantando, ao fim do ano letivo, que naquelas férias não iríamos viajar porque o nosso filhinho estava de recuperação.

Teve a vez em que, tentando me aproximar do sexo oposto, utilizei-me dos versos que descreviam com perfeição o olhar da menina que eu queria conquistar. Empunhei o violão e cantei: Veja o sol dessa manhã tão cinza / A tempestade que chega é da cor dos seus olhos / Castanhos. Se deu certo? Nem deu. Além do mais, a música era tão conhecida que praticamente todos os garotos que foram atraídos por aqueles tais olhos castanhos tiveram a mesma ideia.

Para além desse registro afetivo, a leitura foi uma excelente oportunidade de reviver as tardes da minha adolescência na Rock It! Assim que fechei o livro, fui buscando todas as referências que o Dado cita - não somente as musicais, mas também as literárias e cinematográficas. Um garimpo muito valioso, que me revelou influências que haviam passado despercebidas.

As 256 páginas de Dado Villa-Lobos - Memórias de um Legionário são intensas como foi a passagem da Legião Urbana pelo cenário musical brasileiro. É muito bom estender a experiência para além dos ouvidos. Ler sobre aquelas músicas que se tornaram pequenos hinos, que contundentemente questionaram a geração Coca-Cola, é refletir sobre a nossa própria juventude e sobre sua força destrutiva e renovadora. Não há dúvidas: não aprendemos a lição. Precisamos refazer nosso dever de casa. E aí, então, eles vão ver.



sexta-feira, dezembro 18, 2015

Guerra nas Estrelas - O despertar da Força (Star Wars - The Force awakens), de JJ Abrams

Pode ler, rapaziada! Não tem spoilers.

Foi uma longa espera. Literalmente! Era uma quarta-feira, 23h40, sessão de pré-estreia no Cinemark, quando a iluminação foi reduzida e a tela, acesa. O que era para ser 11 minutos de anúncios e trailers (por razões contratuais, a projeção estava marcada para começar 0h01), se estendeu por lamentáveis 50 minutos. Precisamente às 0h41 de quinta-feira, a cartela com aquela frase emblemática - Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante... - apareceu. O público foi ao delírio. Começava Guerra nas Estrelas - O despertar da Força.

Ao meu lado, quem também ia ao delírio era minha pequena princesa rebelde de apenas 7 anos, já iniciada na saga de George Lucas, devidamente indumentada com vestido branco e penteado da Leia no Episódio 4 - os famosos coques-rosquinha. Logo na abertura, que se assemelha muito a tantas outras com as quais nos acostumamos, temos uma pequena amostra de que sim, veremos basicamente a mesma trama de sempre, mas com um adicional de velocidade na edição.

Sem spoilers, o que se pode dizer é que o novo filme da franquia tem tudo para agradar os fãs da série. J J Abrams, calejado com o público geek, tem os paranauê necessários para voltar a realizar a tarefa que a primeira trilogia fez com maestria, mas que foi esquecida pela segunda: contar uma história simples. Nada de tramas mirabolantes, reviravoltas inesperadas e sistemas políticos intergaláticos complexos.

Não é que o argumento seja tão simples assim, nem tampouco mais do mesmo. Tem lá aquela enxurrada de referências, tanto nos diálogos, quanto na ação. No entanto, mérito do diretor, os novos personagens adicionam algo que não vimos anteriormente. Em primeiro lugar, Finn, o Stormtrooper arrependido que larga as armas para fugir, nos dá uma perspectiva inédita e humaniza um personagem que, anteriormente, era apenas decorativo - para citar Michel Temer. BB8, o pequeno dróide esférico, tem a difícil tarefa de substituir o imbatível R2-D2 - e o faz com uma eficiência absurdamente incrível! Impossível não querer ter um boneco dele em casa.

O vilão da história, Kylo Ren, acrescenta outra novidade que, no meu ponto de vista, é o grande trunfo desse primeiro filme da nova trilogia: podemos ver a fisionomia e a expressão do vilão enquanto ele age. Bem diferente do que acontecia com Darth Vader, cuja voz e pantomima eram marcantes por conta da figura estática da máscara. Essa humanização de Kylo Ren proporciona a construção de um antagonista complexo e bastante interessante, interpretado à altura por Adam Driver.

Só gente bonita nessa tal Millennium Falcon!

As cenas de batalha ganharam ângulos bastante interessantes, com passagens de tirar o fôlego. E o mais bacana é que aquelas tomadas do cockpit das X-Wings, com os pilotos em primeiro plano, continuam as mesmas de anos atrás!

No fim das contas, o filme é entretenimento como entretenimento deve ser. Divertido, empolgante e com aquele desfecho que deixa o espectador desesperado para conferir o próximo capítulo.

Curioso foi, ao término da projeção, o comentário de um rapaz, catedrático de Guerra nas Estrelas, sobre o que havia acabado de ver. Meio cabisbaixo, me confessou:

- Achei o filme muito infantil.

Olhei para o lado. Lá estava minha pequena princesa rebelde, completamente excitada por tudo que tinha acabado de ver. Tive que fazer a réplica, inevitável:

- Me diga qual filme de Guerra nas Estrelas não é infantil. Inclusive, não é por isso mesmo que estamos aqui?

Que a Força esteja com vocês.

sexta-feira, outubro 30, 2015

Que horas ela volta?, de Anna Muylaert

No Brasil, esse país repleto de contrastes sociais, no qual a mercantilização da cultura é apenas uma pequena parte da grande mazela, o acesso ao cinema é cada vez mais dificultado. Para se ter uma ideia de como a coisa ficou elitizada por aqui, teve até crítico (?) de site famoso (??) de cinema criticando (né?) promoções com ingressos mais baratos, com medo de ser assaltado dentro da sala de projeção. É sério, teve isso mesmo!

E por que esse nariz de cera (expressão jornalística) antes da resenha (tô adorando esses parênteses todos) de Que horas ela volta? É que, parágrafo inicial posto, a maior parte dos espectadores que vai assistir ao filme é também aquela que faz o papel de antagonista na produção de Anna Muylaert - um antagonismo que, de tão arraigado pelos anos de colonialidade do nosso Brasil varonil, chegou até a passar despercebido por algumas patroas que, após a projeção, viram "nada demais, gente..." - tamanha a incapacidade de se colocarem no lugar  do outro.

O roteiro traz uma Regina Casé irretocável no papel de Val, uma empregada doméstica nordestina que trabalha numa casa da alta burguesia paulista. Como tantas outras, ela abdicou de sua vida (e família) para cuidar das dos outros - inclusive, afastando-se da própria filha. É esta que, logo no começo do filme, chega a São Paulo para prestar vestibular e se instala num colchão no quartinho 2 por 2 que fica na área de serviço da mansão.

A presença da jovem provoca reações das mais diversas intensidades em todos os moradores da casa. Guardadas as devidas proporções, o roteiro de Que horas ela volta acaba lembrando, de leve (até mesmo porque a intenção é essa), o magistral e inesquecível Teorema, de Pasolini (tava sentindo falta de uns parênteses). Se no filme italiano o drama é psico-erótico, na produção brasileira é psicossocial.

Não tive uma Val, mas tive camisa dos Ramones lavada e passada por outrem.

O filme emociona ao mesmo tempo em que incomoda - porque nos faz pensar muito sobre essa realidade da qual a gente, inegavelmente, de maneiras obtusas até, faz parte. Na verdade, emociona e incomoda quem tem um mínimo de capacidade de análise social, o que anda em falta por aí. Mas vá lá, em épocas na qual as pessoas reclamam porque as empregadas domésticas estão ganhando mais direitos (agora reclamam do tal cadastro para recolher FGTS), não deixa de ser um filme importante. Bom para espanar a poeira (sem trocadilhos) daquele canto do cérebro que tem a ver com a capacidade de enxergar o outro.

Cinema pode ser uma boa faxina vez em quando.

quarta-feira, agosto 12, 2015

O sal da Terra, de Wim Wenders


Wim Wenders, um dos meus diretores prediletos, resolveu fazer um filme sobre um dos artistas prediletos de uma esmagadora maioria de terráqueos, o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado. A nova produção do cineasta alemão, em parceria com o filho da personagem documentada, acerta em cheio ao se debruçar não no conteúdo, mas nas histórias - e bota história nisso - por trás de cada registro imagético feito por um sujeito que tem o olhar, sim, diferenciado. Eu preciso, antes de continuar, deixar isto claro, sob pena de não ser mal interpretado: não gosto, tanto assim, das fotografias do Sebastião Salgado.

Isto posto, me causou bastante estranheza, logo na abertura do filme, Wenders dizer que comprou por um punhado de dólares, aliás, muitos dólares, uma fotografia de seu objeto documentado para pendurar na parede de casa. Começar seu documentário assim foi um erro.

Continuo com o que pode parecer mero acinte, mas garanto que não é: a obra do fotógrafo brasileiro tem muito mais apelo referencial do que propriamente artístico. Óbvio que eu sei que foto não é estética na essência. Esta vem depois, com o apuro da sensibilidade. Mas esses registros instantâneos que Sebastião Salgado faz, ainda que singulares, têm sua força estética muito mais concentrada na documentação do real.

Por exemplo, quando a lente dele focaliza a dura situação dos trabalhadores brasileiros, ali há mais apresentação do que representação. Apresenta a ideia de uma forma como poucos conseguem, e aí é que está o talento desigual dele. Admito que é uma questão minha comigo mesmo: enxergo um Salgado mais fotojornalista do que artista. E esse é o Salgado que quase admiro, ou melhor, que admiro de vez em quando: o fotojornalista de olhar brutalmente referencial. Que se esmera em um tema e busca realizar projetos a longo prazo, que geram livros - ao invés de mostras ou exposições de curta duração, daquelas que geram filas em centros culturais. Não existe aí uma diferença enorme para o que se proporia uma dita fotografia de arte?

Taí um Salgado  mais artístico que referencial. Bacana!
Posso, então, repetir que Wenders acertou em cheio em documentar o olhar, e não o suporte para o qual se olha. A câmera vai atrás da experiência do fotógrafo. E aí, Sebastião Salgado vira uma personagem das mais interessantes. É muito bacana ver como o humanismo permeia toda a vida de uma pessoa que abriu mão do conforto e da segurança, pessoal e financeira, para buscar novos olhares e novos ângulos para velhas questões.

Não comentarei aqui o trocadilho infame e meio ridículo que dá nome ao filme. Precisava mesmo disso que o Sebastião é salgado, é o sal da Terra? A expressão é retirada da bíblia, numa passagem que diz que os seres humanos são o sal da Terra. Então, podemos dizer que esse deus aí errou a mão e salgou a Terra demais. Mas isso é papo para outra mesa de bar...

quinta-feira, junho 04, 2015

Mister Lonely, de Harmony Korine

É bastante preocupante vasculhar a rede e notar que a grande maioria das resenhas sobre Mister Lonely - um dos filmes mais, digamos, palatáveis de Harmony Korine - é depreciativa. Os textos alegam que o filme não tem pé nem cabeça, que é uma perda de tempo, que é uma enxurrada de imagens sem propósito, que é isso e que é aquilo. Chega a ser triste e patético constatar que a opinião corrente é de que o cinema precisa ser entretenimento o tempo inteiro, com aquela estrutura narrativa e dramática linear, insossa.

 Esse prólogo aí em cima funciona quase como um desabafo diante dessa incapacidade de se pensar o cinema como suporte artístico, como linguagem, como expressão. Ninguém tem a obrigação de gostar de um filme, ou do que quer que seja - pois, como dizia nosso amigo Kant lá nos idos do século 18, faz tempo, a experiência estética acontece na esfera subjetiva, e por isso não há garantias racionais que possam sustentar sua fruição por todos nós, animais dotados de diferentes estruturas para o ajuizamento de gosto. Por isso, seria mais justo analisar Mister Lonely como produção, e não como produto, como fizeram os colega tudo supracitado.

Isto posto, volto a bater na tecla que Korine é tipo um gênio incompreendido. Com um roteiro bem mais maduro do que Kids e uma direção muito mais segura do que em Gummo, ele faz de seu Mister Lonely uma ótima provocação a diversos conceitos, que vão do valor de culto midiático (a mídia que fez chacota dele, lembra?) até o valor de culto religioso, passando por temas mais complexos, como amor, arte e morte. Dessa vez, conta com as luxuosas participações de dois estupendos diretores, que assim como ele são habitués do underground: Werner Herzog  e Leos Carax.

Acompanhamos a bela história de um artista de rua que faz imitação de Michael Jackson em Paris. Solitário (né?), sem falar o idioma local e com contas a pagar, procura se aperfeiçoar o quanto pode, e vai se mantendo com apresentações em asilos. Um dia, conhece uma artista de rua que também faz imitação - a dela, de Marilyn Monroe. Diante da química inevitável entre os dois, ela o convida para ir até uma comunidade onde todos os habitantes são, também, artistas imitadores de celebridades. Lá estão Abraham Lincoln, Madonna, os Três Patetas, o Papa, James Dean, Sammy Davis Jr., Chapeuzinho Vermelho e outros. O líder da comunidade, e marido de Marilyn, é ninguém menos que Charles Chaplin. E os dois tem uma filha, uma pequena cover de Shirley Temple. Juntos, eles trabalham arduamente para apresentar o maior espetáculo de todos os tempos.

Paralelamente a essa história, um padre - interpretado magistralmente pelo monstro, em todos os sentidos, bons e maus, melhores os maus, inclusive, por Werner Herzog - viaja a América do Sul em missões cristãs. Em determinado ponto, ao sobrevoar uma vila humilde no meio da floresta para jogar alimentos e mantimentos, uma das freiras que o ajuda acaba escorregando do avião e caindo. Milagrosamente, sobrevive. A partir de então, ele obriga suas freirinhas, numa provocação épica ao seriado The flying nun, a pular sem paraquedas como exercício de fé. Aí, muitos daqueles que escreveram espinafrando o filme de Korine reclamaram que uma história não tem nada a ver com a outra. Que é só para encher linguiça. Só que não é bem assim.

Who's bad?

A narrativa de Mister Lonely fala, principalmente, sobre não se reconhecer como indivíduo, sobre não se encaixar, sobre não pertencer a lugar nenhum, mesmo quando você acha que encontrou o seu quinhão - assunto caro ao diretor. O artista, por excelência, é aquele que opera um pequeno milagre toda vez que sobe ao palco. Da mesma maneira que as freiras colocam em xeque sua fé quando pulam de um avião sem paraquedas, um imitador também coloca a sua toda vez que se apresenta. Querer acreditar que aquela figura na sua frente é o Michael Jackson, mesmo sabendo que não se trata da realidade, é um exercício de fé. Cego e comovente, carregado de simbolismo, e que funciona metalinguisticamente quando se assiste ao filme.

Bom, o desfecho do argumento (e não do filme, leiam bem) é simplesmente arrebatador. Intenso, mas carregado de lirismo e simplicidade, marcas registradas de Korine. Algumas cenas permanecem na memória após a projeção, tamanha a capacidade do diretor em criar clima, textura e fantasia. Uma delas é esta abaixo, a sequência em que Chapeuzinho Vermelho entoa uma canção folclórica - cuja letra é de arrepiar os pentelhos - enquanto caminha pela linha do trem.


domingo, maio 10, 2015

Gummo, de Harmony Korine

Harmony Korine ainda era um moleque skatista de Nova York quando escreveu, aos 19 anos, o roteiro de Kids, clássico hiper-realista dirigido por Larry Clark que deixou muitos adultos de cabelos em pé e semanas sem dormir direito de tão alarmante e assustador que era. Depois disso, com certa notoriedade no meio underground, o rapazola juntou uma grana e resolveu estrear como diretor de longas. E aí fez essa produção desconcertante e escalafobética, ainda que linda e cheia de lirismo, chamada Gummo, que o projetou de vez. Para o bem e para o mal.

Para o bem > Foi o primeiro (e talvez o único, teria que pesquisar) diretor de fora da Europa a ser convidado para integrar o movimento Dogma 95, de Lars Von Trier. O enfant terrible dinamarquês cedeu seu mega estúdio particular para que ele acabesse Julien Donkey-Boy, ou Dogma #6. Tem admiradores e colaboradores do quilate de Werner Herzog e Gus Van Sant. E já compôs música com a Björk - só isso.

Para o mal > Por conta de seu temperamento nada convencional, quase disfuncional, e por causa da pouca idade quando os holofotes se voltaram a ele, Korine foi meio que massacrado e hostilizado pela grande mídia em troca de audiência. Mídia esta que não deu a devida atenção a seus filmes, de linguagem e montagem experimentais. Essa campanha vergonhosa pode ser conferida no YouTube, com as passagens do diretor pelo programa de David Letterman.

Gummo é experimental até o talo. Filmado de forma crua, interpretado da mesma maneira e todo trabalhado na estética da miséria. O roteiro fala sobre as vidas sem rumo de personagens bizarros que vivem em uma cidade do interior dos Estados Unidos recém devastada por um tornado. O diferencial está na forma de abordar tudo isso. Por mais que o que se veja seja explícito e chocante - tipo animais sendo executados e vendidos a um açougueiro, um jovem que ganha dinheiro usando a irmã com síndrome de Down como prostituta, dois irmãos caindo na porrada de verdade até sangrarem, menores de idade usando drogas e crianças se comportando de maneira muito, mas muito errada - a direção de Korine faz com que tudo esteja no lugar.

A escolha de dar lirismo a tudo isso, a todo esse mundo sujo e podre, é perfeita. Se manifesta, por exemplo, na cena em que um dos jovens que faz sexo com a prostituta supracitada dá uma piscadela a ela quando vai embora, deixando nítida uma relação de afeto em meio àquele deserto. Além disso, o texto de Korine é fantástico, e vai reforçando seu argumento, bastante contundente, ao longo da projeção, sem precisar de um encadeamento lógico e sequencial. É uma sociedade que não precisa necessariamente de uma calamidade para se ver chafurdada na lama. A calamidade é a própria sociedade, a maneira como ela se estrutura e traça seus caminhos. Isso fica mais claro ainda quando sabemos que muitas das cenas foram filmadas com pessoas reais, nas ruas da cidade natal do diretor, em uma local onde nenhuma catástrofe natural de fato ocorreu.

A famosa cena da banheira! Notem o bacon colado na parede...

Dá para entender ao final da projeção por que Herzog e Van Sant ficaram tão impressionados com Korine, a ponto do primeiro inclusive participar de seus filmes seguintes (que em breve serão devidamente resenhados por aqui). Mal e porcamente comparando, ouso dizer que ele é o Terrence Malick do underground, casando como poucos imagem, som e texto para contextualizar uma história - o que é bem mais do que simplesmente contar uma história. Dá para entender também porque tanta gente odeia seus filmes e o reduz, injustamente, a um niilista cinematográfico. Korine propõe uma experiência audiovisual nada convencional e de recompensa não muito satisfatória se o que se busca é o entretenimento.

Um diretor de linguagem diferenciada. E não há dúvida de que é disso que precisamos cada vez mais.

segunda-feira, maio 04, 2015

Cineminha com a Duda > História sem fim

Vejam só que luxo, senhoras e senhores, donairosos e garbosos leitores deste blog: apresento a vocês a visão de uma menina de sete anos sobre um filme da nossa infância (isso vale se você é balzaquiano feito eu), uma produção de 1984 - ah meus tempos... Diz aí, Dudinha, o que você achou.

Eu vi esse filme no videogame do meu pai, no Netflix. O nome é História sem fim. Eu vi esse filme com meu pai e minha mãe. É sobre um garoto e a mãe dele morreu. Ele ia para a escola quando três garotos apareceram no caminho e perseguiram ele. E ele foi acabar na loja de livros. Aí ele viu um idoso lendo um livro chamado História sem fim e o garoto pegou o livro e foi até o sótão da escola. Ele abriu e começou a ler uma história sem fim. Mas ele não sabia que tinha entrado na história do livro.

O personagem que eu mais gostei foi o dragão da sorte, mas ele parece um cachorro comprido. Eu achei ele fofo e queria ter um igual para poder voar. A parte que eu mais gostei foi a que o garoto voou nas nuvens com o dragão da sorte. O personagem que eu menos gostei foi aquele bicho que morava numa caverna. Ele tinha orelha pontuda, gostava de estudar medidas e coisas. E a outra mulher que gostava de fazer as comidas. Achei eles muito feios. A parte que eu menos gostei foi a parte que os três garotos jogaram o menino novo da escola na lata de lixo. Tem outra parte que eu mais gostei, e essa parte foi a que o dragão da sorte joga os três garotos que estavam implicando com o menino mais novo da escola na mesma lata de lixo. Essa parte foi muito boa!

Eu achei a Imperatriz muito bonita!

É um filme muito antigo e o preferido da minha mãe. Eu também vi mais dois filmes nesse dia, mas esse foi o que eu mais gostei de todos. Eu achei a cena que mostra a terra Fantasia uma cena bonita, com muitos personagens estranhos. Tinha um que era feito de rocha e era gigaaaaaaaaaaaaaaaaaaante. Eu gostei muito desse personagem.

Eu acho esse filme maravilhoso. E que vale 10 vezes muito de ver.

sábado, maio 02, 2015

Magia ao luar, de Woody Allen

O velho Allen sabe mesmo fazer cinema. Isso já estava comprovado faz tempo. Parece, no entanto, que a idade lhe caiu muito bem. Sem aquela pretensão anterior de fundamentar seus filmes com inesgotáveis referências intelectuais, uma vez que não precisa mais provar nada a ninguém, suas produções têm a despretensão que tão bem faz à sétima arte. Em Magia ao luar, ele tem as luxuosas participações de duas grandes estrelas, igualmente despretensiosas: Colin Firth e seu sotaque refinadamente britânico e Emma Stone - na minha singela opinião, uma das atrizes mais fodas da atualidade.

Assumidamente (estranho ter que usar este advérbio, mas vá lá...) ateu, cético de carteirinha, Allen conta uma divertida história sobre uma moça que, ao que parece, tem poderes de ler o passado e o futuro. Quando uma rica família aristocrata se encanta com seus poderes sobrenaturais, a ponto de querer investir muito dinheiro nisso, um mágico especialista em truques de ilusionismo é chamado para tentar verificar se há uma emboscada por trás de tais dons adivinhatórios.

"Madame lê passada, presenta e futura... e faz as unhas."

O feijão com arroz para uma boa diversão está lá. Personagens interessantes, trilha sonora caprichada, figurinos nos trinques e ótimos diálogos, apoiados nas atuações irrepreensíveis dos dois protagonistas. Firth funciona como um alter ego de Allen, colocando a racionalidade combativa do diretor a favor da comédia de costumes.

Ponto para Allen!

sexta-feira, maio 01, 2015

Pelo malo, de Mariana Rondón

A Venezuela midiática é famosa por duas coisas: mulheres bonitas e Hugo Chávez. As primeiras, estão sempre em voga por conta dos concursos de misses. O segundo... Bom, foi figura com cadeira cativa nos noticiários do mundo inteiro - mais pelos erros do que pelos acertos, visto que tinha essa mania incorrigível de transformar pequenos êxitos em grandes fracassos. Apesar da máquina audiovisual venezuelana ter trabalhado incessantemente, enquanto o líder bolivariano era vivo, para construir a imagem de um grande Bonaparte, a sétima arte quase não foi acionada (salvo alguns documentários, como A revolução não será televisionada) para esse fim. Logo, é desalumiada essa relação das plateias latinas com o cinema venezuelano.

Isto posto, Pelo malo é um grande êxito. Lançado pouco tempo após a morte de Chávez, é capaz de contar uma história e contextualizá-la sem se tornar panfletário. E faz isso debruçado sobre um argumento que questiona valores arraigados na maioria das economias periféricas. Escorado na estética da miséria, o filme da diretora Mariana Rondón fala sobre sexualidade, racismo, patriarcalismo e subdesenvolvimento. O roteiro usa os cabelos crespos de um menino de nove anos como signo de uma sociedade que não enxerga o próprio umbigo e é incapaz de reconhecer a própria imagem. Lembra alguma coisa, Brasil?

Qual é o pente que te penteia?

Junior vive em um bairro pobre de Caracas. Sua mãe, solteira, precisa dar conta de criar também um bebê. Tenta, a todo o custo, conseguir novamente um emprego de segurança particular numa grande empresa, de onde foi afastada por indisciplina. Junior vive vagando pela comunidade onde mora, sem ter muito o que fazer. Sonha em ser cantor. E para isso, cisma que precisa alisar os cabelos seja lá como isso tiver que ser feito: sabão, óleo ou chapinha. Ele aprendeu que cabelo crespo é cabelo ruim - como mostra um programa na TV no qual uma moça negra repete exatamente esse discurso, enquanto luta pateticamente para alisar os próprios cabelos. Franzino e introspectivo, Junior precisa lidar com a personalidade inconstante de sua mãe, que acredita que ele está doente, "tornando-se um homossexual" - o que a deixa, além de apavorada, enfurecida.

Samuel Zambrano, o protagonista, enche a tela de franqueza e transparência com uma atuação emocionante e vibrante, como poucas crianças conseguem fazer. Samantha Castillo, atriz que interpreta sua mãe, está em plena sintonia com o ator mirim. Ela cumpre a difícil tarefa de dar vida a uma personagem bastante complexa, cuja beleza é áspera e dolorosamente sensual. A cena final, com os dois em plano fechado, é de nocautear qualquer um. Magnificamente executada e capaz de deixar um nó na garganta que dura por algum tempo após os créditos finais.

Que a Venezuela possa nos dar mais desses. Com ou sem regimes bonapartistas.

segunda-feira, abril 27, 2015

Cineminha com a Duda > Cada um na sua casa

Mais um texto da Maria Eduarda, essa mais nova - e bota nova nisso - colaboradora deste blog. Dessa vez, fomos assistir à nova animação da Dreamworks. Ela estava doida para conferir o filme e, depois, escrever o que achou para vocês lerem aqui. Ei-la, abaixo, a resenha.

Eu fui ao cinema ver Cada um na sua casa com o meu pai e a minha melhor amiga, Gabriela. Comi uma pipoca mega e levei balas e pirulitos. Isso é muito bom para acompanhar filmes, ainda mais porque são minhas comidas preferidas.

Agora eu vou contar como é o filme. Tinha um planeta em que viviam os boovs, e eles sempre fugiam do inimigo deles. O Oh, que era um dos boovs, era o mais engraçado e bonzinho. Eles mudam para o planeta Terra e o Oh encontra uma garota chamada Tip Tucci. Só que os boovs pegaram uma máquina e colocaram as pessoas, menos a Tip, em outro país para eles poderem morar no planeta Terra. A Tip acaba sendo separada da mãe. O Oh ajuda a Tip a procurar a mãe. Só que ele fez besteira: ele mandou um convite para sua festa e acabou mandando para todos no universo, inclusive os inimigos.

Esses são os boovs recebendo a mensagem que o Oh mandou.

A parte que eu mais gostei foi quando a Tip encontra o Oh. Ela está se escondendo dos boovs numa cabana e bota a cabeça para fora. Quando ela sai, vê o Oh e fica assustada. A parte que eu menos gostei foi quando a nave dos inimigos dos boovs anda na Terra. Era muito barulhenta. O meu personagem preferido é o Oh. Quando ele está rosa, é que gosta de uma pessoa. Quando está azul é porque está triste e quando ele está amarelo é porque está dançando. E quando ele está vermelho é porque está bravo. E quando ele está roxo é porque ele está normal. O personagem que eu menos gostei foi o boov do sinal. Ele é um boov que é um guarda de trânsito. Nem ele nem ninguém era amigo do Oh.

No final do filme eu fiz xixi por 20 horas, porque eu bebi muito suco de uva. A minha amiga Gabriela também, porque bebeu uma Coca-Cola de tamanho gigante.

Vale muito muito muito a pena ver esse filme no cinema.

terça-feira, abril 21, 2015

White zombie, de Victor Halperin

Se eu disser a vocês que o nome deste clássico do horror de 1932 em português é Zumbi - Legião dos mortos, todos vão compreender o fato de preferir, ali no título, o nome original, não é mesmo? Até mesmo pela importância de White zombie: estamos diante do que se supõe fortemente ser o primeiro filme sobre mortos-vivos da história do cinema - anterior até mesmo ao espetacular I walked with a zombie, que instaurou de uma vez por todas os zumbis como figura alegórica.

Aqui, os personagens ainda não comiam cérebro. À época, os Estados Unidos, país em que o filme foi produzido, saiam da Grande Depressão de 1929, que deixou estragos consideráveis não somente na economia, mas na organização social dos estadunidenses. O então presidente Franklin Roosevelt estava prestes a dar início ao New Deal, o plano de recuperação econômica que pretendia, no fim das contas, levantar o moral da população. O cinema serviu, inegavelmente, como uma ferramenta poderosa na mitigação da tal depressão e na disseminação do american way of life. Por isso, em, 1932, zumbis eram pobres incautos vítimas de transes provocados por magia negra - uma prática de "povos bárbaros" (leia-se sul-americanos com origens africanas) e que ia contra todos os princípios cristãos dessa nova América que precisava ser urgentemente higienizada.

Para o papel do mago de sotaque britânico que comanda um exército de zumbis em Porto Príncipe, capital do Haiti, foi escalado por módicos 800 obamas ninguém menos que Bela Lugosi, que mais tarde ficaria imortalizado como Drácula. Seus expressivos olhos esbugalhados dão vida a Murder Legendre, um sinistro habitante da ilha que, apesar de não ser insulano, usa rituais de voodoo para escravizar mentalmente seus inimigos, os quais mata antes, obviamente.

"Olhos nos olhos... Quero ver o que você faz!"

Um deles é o ricaço e excêntrico Dr. Bruner, que se apaixona por uma moça durante uma viagem a Nova York, e planeja colocá-la em transe para viver ao lado dela. Para isso, pede ajuda a Legendre. No entanto, precisa antes de mais nada se livrar do noivo da moçoila. Como? Convidando o casal para desfrutar das belezas naturais da paradisíaca ilha.

Em White zombie, a caracterização dos zumbis remete ao expressionismo alemão, que ainda era uma corrente estética europeia recente e influente. A maquiagem é pesada e o olhar, vivaz. A pantomima do morto-vivo criada por Halperin, caminhando sem controle a ponto até mesmo de cair de um desfiladeiro, seria mais tarde copiada por todas as produções do gênero (vide o comportamento dos zumbis do seriado The Walking Dead, sete décadas mais tarde).

Um excelente filme para entendermos melhor o papel narrativo desses desafortunados seres - que, mais tarde, seriam também vítimas da ganância nuclear da Guerra Fria. Mais tarde ainda, pobres coitados infectados por um vírus geneticamente modificado por temíveis armas biológicas.

Qual será a próxima hecatombe que nos transformará em zumbis?

sexta-feira, abril 17, 2015

Ida, de Pawel Pawlikowski

O vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro é diferente por vários motivos. Os estéticos, são muitos. Por exemplo, a ousadia de filmar em 3:4, o antigo formato televisivo, ao invés do tradicional 16:9. Há também a ausência completa e total de trilha sonora. No entanto, o que mais chama a atenção em Ida é a força narrativa que o filme consegue sem muito esforço.

O roteiro mostra uma noviça que, prestes a fazer o voto pelo celibato e pela reclusão para o resto da vida, vai em busca da única parente de que tem notícia. Sua tia, a quem pouco conhece, é uma juíza de raízes judaicas em um tribunal da Polônia dos anos 1960, durante o regime comunista pós-guerra. Mesmo levando vidas bastante opostas, as duas parecem ter em comum o gene da melancolia e a falta de perspectiva com os mundos que as cercam.

Para falar a verdade, nada é assim tão maravilhoso em Ida. Nem a fotografia em preto e branco, que é apenas acertada tendo em vista que o filme fala sobre tristeza. Além disso, é inverno. Ou seja, toda a Polônia está coberta de neve branca. As atuações também não são lá um destaque. Convincentes, sem dúvida. E então fica a questão: ué, mas é um filme para ser tão premiado - para quem não sabe, Ida recebeu nada menos que 67 condecorações ao redor do mundo, tirando o Oscar - assim?

É que em menos de 90 minutos - e está aí outra característica pitoresca desse filme -, Pawel Pawlikowski vai conduzindo o espectador com muita calma até um desfecho arrebatador, que vale pelo resto todo. É perturbador, daquele jeito polonês de ser perturbador.

Ida é uma Noviça Rebelde da vida real.

sábado, abril 11, 2015

Cineminha com a Duda > A Casa Monstro

Pois então! A partir de hoje, terei uma nova - e bota nova nisso - colaboradora para este pequeno e singelo blog. Maria Eduarda Moreira é o nome dela. Tem sete anos, está na segunda série e adora ler e escrever. E, obviamente, feito o pai, também curte ficar de bolete no sofá vendo um filminho. Abaixo, a sua resenha de estreia, sobre uma animação que vimos juntos.

Com as palavras, Duda. Palavras dela mesmo, de verdade.

Eu vi esse filme no meu Now. O filme é sobre um homem que tinha uma casa mostro e dos meninos que se chamavam DJ e Bocão. É assim: tinha um menino e a mãe dele viajou. E o DJ ficou um pouco com o amigo dele, que era o Bocão. O Bocão acabou jogando a bola na casa do vizinho que tinha uma casa-monstro. Só que o Bocão e o DJ não sabiam que a casa era um monstro. Aí eles foram até a casa do vizinho para pegar a bola. E quando caiu essa bola o vizinho saiu da casa e brigou com eles. Aí eles encontram uma menina chamada Jenny e ficam apaixonados e o DJ convida ela para ajudar a ver o problema da casa. Eles acabaram numa aventura monstruosa!

A parte que eu achei mais monstruosa foi a parte em que a casa virou um monstro terrível. E os personagens que eu mais gostei foram o DJ e a Jenny. Também gostei do Bocão. Todos são bons. E tem um personagem aterrorizante que é o velhinho que morava na casa. A parte que eu mais gostei foi quando os policiais foram engolidos pela casa.

Eu acho que vale a pena conhecer esse filme.

quinta-feira, abril 09, 2015

Tusk, de Kevin Smith

Posso ser rápido e rasteiro e fazer um trocadilho besta para definir o novo filme do rei dos geeks, um cara legal, Kevin Smith > Tusk é tosco. Mas é um tosco complexo. Não é qualquer tosqueira, não. É um daqueles casos que se enquadra na categoria das coisas que deixam você boquiaberto e sem saber se são boas ou ruins, mas que são certamente dignas de recomendação.

O roteiro, tosco, foi inspirado numa brincadeira que surgiu num dos episódios do podcast de Smith - que, diga-se de passagem, é um sucesso estrondoso entre os nerds do mundo todo. Após ler uma notícia verídica sobre um canadense excêntrico que oferecia hospedagem gratuita aos hóspedes que aceitassem vestir uma fantasia de morsa, o velho Kevin lançou duas hashtags no Twitter: uma delas, dizia sim para um filme fictício com o argumento baseado na tal notícia; o outro, um não. Qual delas vocês acham que ganhou?

Então, lá foi ele, Kevin Smith, o cara dos nossos filmes preferidos, tipo O balconista, Mallrats, Procura-se Amy e até Red State, fazer um filme sobre um sujeito que é sequestrado por um velho excêntrico que sonha em transformar um ser humano em uma morsa. Tosco?

Pois bem, Tusk tem lá suas semelhanças com a labuta de seu criador. O protagonista que sofre a transformação é um podcaster que publica na internet um vídeo de um moleque estranho cortando a própria perna acidentalmente. As semelhanças acabam aqui. Porque o resto é uma viagem! O vídeo faz tanto sucesso que ele vai até o Canadá entrevistar o pobre coitado desmembrado. No entanto, quando chega lá, acaba descobrindo que o garoto tirou a própria vida, motivado pela repercussão negativa do vídeo. Sem qualquer remorso, procura desesperadamente um personagem estranho que pague os 500 obamas gastos com a passagem de avião. Acaba seduzido por um anúncio no banheiro de um bar que fala sobre um marinheiro cheio de aventuras. Uma delas, envolvendo... uma morsa.

Aí, vocês já devem imaginar o que acontece. É uma espécie de Centopeia humana dirigida por um nerd. Dá para entender? A transformação do sujeito em morsa é lenta, dolorosa e angustiante - muita gritaria, muita agulha e linha, muito sangue, muita pele, muitos nacos de carne. O filme, que até o fim da primeira metade é uma comédia de humor negro com tons sombrios, se torna um híbrido de filme B com gore, com um desfecho que de tão vil e bizarro confunde a cabeça de quem aguenta a projeção até o fim (partindo de mim, isso é um baita elogio, não se enganem).

O pior, ou melhor, ou sei lá, é que Kevin Smith é um diretor de mão cheia. A fotografia do filme é ótima, sombria, fria. A montagem é bem bacana também, com sequências atemporais que vão construindo a imagem humanizada (olha aí a narrativa bacana) do protagonista para depois desconstruí-la completamente. A maquiagem é muito, muito, mas muito boa! Ou seja, a morsa humana é realmente asquerosa e dá até um certo incômodo - principalmente na cena em que ela é forçada a nadar pela primeira vez num tanque de água. Imagina aí.

No fim das contas, Tusk é como aquelas brincadeiras que acabam passando um pouco do limite: você até dá risada, mas meio cabreiro.

E eu só pensava naquela música dos Beatles!

domingo, março 22, 2015

Sniper americano (American sniper), de Clint Eastwood

Gente, o mundo está cada vez mais doido. Qual era a intenção de Clint Eastwood com esse filme? Seria uma crônica de guerra sobre um episódio recente da História? Uma homenagem póstuma para inspirar e arregimentar novos combatentes? Uma crítica ao crescimento e fortalecimento da indústria bélica? Um manifesto pacifista? - aí, não, né? Não combina com o cara. Bom, seria um alerta de utilidade pública sobre os problemas psicológicos que os soldados que retornam da guerra enfrentam? Quase isso. E o problema é justamente esse quase.

O roteiro de Sniper americano é baseado em fatos reais. Conta a história de Chris Kyle, um redneck texano que resolve se alistar no exército estadunidense depois de ver as torres gêmeas do WTC se esfarelando céu abaixo naquele fatídico dia 9 de setembro. Inflado pelo senso de patriotismo exacerbado, sua dedicação ufanista o leva a ser um dos melhores atiradores de precisão dos Estados Unidos, alçando-o ao estrelato. Sua dedicação é tamanha, que ele inclusive abre mão de estar com a família para proteger e salvaguardar o país que tanto ama.

Só que nem tudo são flores. Como a maioria dos combatentes que retornam ao seio da pátria, Kyle também sofre com disfunções psiquiátricas. Se torna um cara temperamental, explosivo, paranoico, introspectivo etc. Essa é a parte do filme em que pensamos que o velho Clint está criticando a situação em que se encontram os veteranos de guerra do seu país - e haja veterano, porque haja guerra, amigo! Mas nem... Kyle resolve que só vai abandonar a vida no front depois de cumprir uma missão movida, também, por questões pessoais: ele precisa colocar uma bala na cabeça do líder dos rebeldes iraquianos que matou seu amigo. Líder este de um grupo que mais tarde ficaria conhecido como... Estado Islâmico!

Aí vem a piração. Como a maioria dos atuais filmes desse gênero produzidos nos EUA atesta, parece que eles só conseguem fazer uma crítica às atrocidades da guerra, tanto em civis quanto em militares, depois que se passa muito tempo e a poeira da cólera se assenta. Assim como em Guerra ao terror, o que parece ser um alerta sobre os efeitos da guerra nos seres humanos acaba se transformando numa ode ao belicismo, uma justificativa para a doentia relação que os estadunidenses têm não somente com conflitos bélicos, mas com as armas de fogo. A diferença é que, se no vencedor do Oscar o protagonista volta à guerra, aqui no filme de Clint é a guerra que volta ao protagonista - uma estúpida ode ao que há de pior nesse mundo.

Conclusão, e ela pode parecer dura > Sniper americano é uma homenagem à guerra, e não ao ser humano.

sábado, março 14, 2015

A entrevista (The interview), de Evan Goldberg e Seth Rogen

Para quem não ligou o título à celeuma, A entrevista foi aquele que fez com que a Sony e a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos ficassem de cabelos em pé, alimentando um imbróglio diplomático que só não foi para frente porque a Coreia do Norte se supera em ser um país estranho, com um líder que de tão misterioso e imprevisível chega a ser caricato. Antes mesmo do lançamento do filme, um grupo de hackers invadiu o site da distribuidora e ameaçou botar pra quebrar, quebrar mesmo, toda e qualquer sala de cinema estadunidense que exibisse o dito cujo. O recado estava dado > eles ficaram bastante irritados.

Ora, ficaram boquiabertos com a ousadia de dois comediantes dos Estados Unidos em fazer um filme cujo roteiro gira em torno de uma missão secreta para assassinar Kim Jong-un - que, pasmem, fala inglês fluentemente e é um exímio conhecedor da cultura pop daquele país. Os protagonistas são dois janistroques que têm um programa sensacionalista de entrevistas na televisão. Por sorte, acabam conseguindo marcar uma exclusiva com o ditador norte-coreano em território inimigo. Logo, a CIA cresce os olhos e pede esse "favorzinho" - normal, né? - a eles, que têm a chance de se tornarem heróis.

Bom, vamos às observações. Uma sobre o papel de cada país envolvido nessa cambulhada.

Gente, A entrevista é tão bobo, tão infantiloide e tão insosso que, francamente, norte-coreanos, se ofender com isso é como levar a sério disputa de bola de gude entre alunos da quarta série do primário. Os Estados Unidos já pegaram bem mais pesado em outros filmes, com outros tantos desafetos. Inclusive, alguns deles ganhando prêmios - vejam só, norte-coreanos, prêmios! Esse aí o máximo que conseguiu foi uma discussão na web, e que não foi focada em política internacional, se limitando a uma horda de suítes nos jornais sobre o lançamento ou não lançamento do filme nos cinemas.

Já os Estados Unidos, ah, os Estados Unidos. Sempre trocam as mãos pelos pés quando o assunto é diplomacia, sempre trocam o pênis pela bunda quando o assunto é política internacional... Pois até quando o filme é uma comédia, tem lá no argumento um detalhe torto, aquela coisa que os torna meio que bundões, literalmente. A entrevista tem a sua freada na cueca: pouca gente percebeu - e aqui eximo os norte-coreanos, coitados, de culpa - que este filme despretensioso e imemorável entrou para uma minúscula lista de obras fictícias cujo mote principal é uma missão secreta para matar um líder máximo de outra nação que estivesse vivo. Hitler foi alvo de Fritz Lang em O homem que quis matar Hitler, produção de 1941, em plena Segunda Guerra Mundial. Fritz Lang e Hitler, sacou?

Fato é que A entrevista é bem sem graça. Chato pra caramba. A dupla Seth Rogen e James Franco não está tão boa como em seus trabalhos anteriores e rende poucas piadas. Não fosse a repercussão dos ataques ao website da Sony, teria sido um verdadeiro fiasco. O mais bacana do filme, justamente, está fora da tela. No fato, por exemplo, de jovens sul-coreanos planejarem comprar centenas de cópias e milhares de pendrives contendo o filme e jogar tudo em território norte-coreano do alto de um drone. Ou do fato de existir um mercado negro na Coreia do Norte que faturou uma boa grana não só vendendo o filme, mas agendando sessões clandestinas, já que é proibido assisti-lo - coitados, perderam tempo e correram risco à toa.

Muito barulho por nada.

sexta-feira, março 06, 2015

Resenha e homenagem póstuma > Jornada nas Estrelas, de Robert Wise

Faz um tempo que eu queria escrever sobre Star Trek, o filme de 1979 dirigido Robert Wise. Agora que Leonard Nimoy se foi, com certo atraso faço aqui uma resenha e uma homenagem póstuma ao ator, eterno Spock, com suas orelhas pontiagudas e sua incrível prestidigitadora forma de comunicação com civilizações extra-terrestres.

Comprei o filme nas Americanas, numa daquelas gôndolas promocionais que vendem DVDs, essas mídias fadadas ao olvido, a versão original que foi às telas de cinema. Uma produção caprichada, mas que dividiu os fãs da série televisiva que já existia desde a década de 1960. Alguns gostaram, outros odiaram. Eu não fui verdadeiramente um fã da série, apesar de acompanhá-la naquelas tardes da extinta Rede Manchete (se não me engano, ia ao ar logo após Incrível Hulk, aquela série com o Bill Bixby). Pois eu adorei.

A primeira vez que vi a versão cinematográfica de Jornada nas Estrelas eu ainda era menino, e confesso que Guerra nas Estrelas, com sua aura de aventura fantástica, me enchia mais os olhos. Aliás, essa era uma diferença fundamental entre as duas franquias. Enquanto Luke e os jedis seguiam os moldes das narrativas heroicas, no melhor estilo Joseph Campbell (vide O mito do herói), a turma da USS Enterprise seguia a linha mais científica, ousando não somente numa argumentação sustentada pela astrofísica, mas também no design de produção.

O ótimo roteiro do filme de Wise surpreende. Inclusive, por ser ele o diretor. Explico aqui > é ele o responsável por um dos filmes que mais detesto neste mundo, a saber, A Noviça Rebelde. Ok, ele dirigiu o fantástico O dia em que a Terra parou - e uma vez que Spock não sai correndo e cantando feliz da vida em nenhuma pradaria alienígena, a minha implicância com Wise fica de lado. Aqui, no primeiro longa de Jornada nas Estrelas, o já lendário capitão Kirk precisa levar a Enterprise até uma misteriosa nuvem que destrói o que encontra pela frente e, pior, está a caminho da Terra. Para isso, conta com alguns personagens da série televisiva, incluindo o diplomata estelar (predicado por minha conta) Dr. Spock.

O clima de suspense é realmente fantástico! O desfecho, quando conhecemos as reais intenções por trás da força alienígena que ameaça os humanos, é bastante criativo e suscita questões que seriam abordadas intensamente nos filmes de ficção-científica a partir de então. Os efeitos especiais são bem bacanas. Há também uma cena curiosa e emblemática que mostra um dos ícones da série televisiva, o teletransporte, dando errado.

Um excelente exemplar cinematográfico de boa ficção-científica, por mais que os fãs ardorosos da série possam ter se decepcionado.

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Selma, de Ava DuVernay

Filmes de personalidades históricas parecem estar em alta em Hollywood. Em alguns casos, isso é positivo, como acontece com Selma. Trata-se de um registro histórico que merece estar nas salas de cinema. Mais precisamente, fala sobre um momento crucial na vida e na militância de Martin Luther King Jr. - a marcha organizada de Selma, a cidade que dá nome ao filme, até Montgomery, ambas no estado do Alabama, palco de lamentáveis cenas de violência e desrespeito à população negra dos Estados Unidos. A série de protestos pacíficos tinha como objetivo garantir que os negros pudessem exercer livremente seu direito de voto.

O ponto forte do filme de Ava DuVernay é o clima de embate e suspense que percorre toda a narrativa. As cenas de conflito entre manifestantes e policiais são de tirar o fôlego e de descredenciar o ser humano como um organismo inteligente dotado de razão e sensibilidade. Uma vez que o pastor Martin Luther King Jr. pregava a resistência não violenta, seus seguidores, fossem negros ou brancos, católicos ou protestantes, ricos ou pobres, eram vítimas da covardia que tentava a todo custo dispersar as manifestações.

Outra característica interessante de Selma é mostrar os bastidores do poder, com foco na argumentação do então presidente dos Estados Unidos Lyndon B. Johnson em declarar apoio a Martin Luther King Jr., mas não exercer seu poder para garantir a correta aplicação do direito ao voto. Selma acabou chamando a atenção da mídia, atraindo holofotes de todos os cantos do país, arregimentando grande parte da sociedade civil a apoiar e exigir uma política social mais justa - um dos grandes pilares da campanha vencedora do partido democrata na época, e talvez até hoje.

As atuações estão todas em seus devidos lugares, rendendo bons momentos. Inclusive, a interpretação da apresentadora Oprah Winfrey, que segura a peteca e não a deixa cair. É ela quem assina a produção do filme ao lado de Brad Pitt, que diferentemente do que fez em outra produção sua, 12 anos de escravidão, não faz aqui nenhum papel de herói que salva o dia.

Mais que um bom filme, Selma é um filme necessário. Um justo registro sobre uma grande personalidade histórica que marcou líderes políticos e de movimentos sociais no mundo inteiro.

Mesmo se nada der certo (Begin again), de John Carney

Posso resumir em apenas uma frase esse filme, e aí nem precisaria escrever mais nada > um filme mediano de muita música merda. Mas em respeito aos meus queridos e poucos leitores eu vou adiante para espinafrar um pouco mais essa perda de tempo chamada Mesmo se nada der certo - uma comédia romântica que tem apenas um mérito. Falaremos dele adiante. Por enquanto, o linchamento.

Logo nos primeiros minutos de projeção, a primeira música, os primeiros acordes menores, o primeiro lamento e eu já pensei cá com meus botões: nossa, parece aquela banda horrível, Maroon 5. Desconhecedor assíduo da música popularesca estadunidense - sou do tipo que confunde Nicki Minaj com Kylie Minogue (que é australiana) e não sabe a grafia correta de Beyoncé (tive que pesquisar no Google) -, foi só mais tarde que descobri que um dos protagonistas, ora, vejam só, é o vocalista da dita banda. Soubesse desde o início, teria me poupado de assistir ao filme.

Para piorar, Mesmo se nada der certo tem um dos atores mais insossos da atualidade, mesmo com a cara de bonachão simpático. Mark Ruffalo é fraco, muito fraco. E aqui está bem fraquinho, coitado. Faz par não romântico, mas cheio de tensão sexual, com a boa atriz Keira Knightley, cuja personagem, coitada, mais parece um fiapo de Madalena-arrependida, chata demais. No roteiro, os dois planejam dar a volta por cima. Ela, esquecer o pé na bunda do Maroon 5 e gravar um disco com suas composições próprias. Ele, dar a volta por cima no mercado fonográfico e provar ao ex-sócio que ainda pode produzir um artista de sucesso.

Ei, mas você não falou que tinha um mérito? - perguntam.

Tem. E lembrei de outros enquanto escrevia aqui. O bacana é que o argumento tem lá uma crítica ao star system do mundo da música. Questiona o que é o sucesso, para que serve uma composição, qual é o valor de um disco etc. De maneira meio torta, mas questiona. Outro ponto forte é o coadjuvante James Corden, responsável por uma cena interessante na qual, durante uma festa, desafia as pessoas a não se entregar e dançar uma determinada música. Dá vontade de fazer a brincadeira na próxima festa em que eu estiver presente. E, por último, é preciso admitir, o filme não acaba com o clichê máximo do gênero, o que o salva de ser uma catástrofe total e o mantém na linha da hombridade.

Ou seja, um filme mediano de música merda.

domingo, fevereiro 22, 2015

Eu já estou aqui vendo o Oscar!

E vocês?


A teoria de tudo (The Theory of Everything), de James Marsh

Não se deixe enganar > A teoria de tudo é um filme sobre a relação - linda, diga-se de passagem - entre Stephen Hawking e sua companheira, Jane. O roteiro é uma adaptação do livro dela, que conta em detalhes os momentos, tanto os felizes quanto os difíceis, que ambos passaram juntos. E que não deixam de ser, como a obra do maior cosmólogo vivo do nosso tempo, inspiradores.

O filme também tem como foco a evolução da doença de Hawking, bem como o modo como ele a supera, já que seu cérebro não é afetado - ufa, hein humanidade? Mostra, inclusive, como foi desacreditado pelos médicos, que lhe deram apenas dois anos de vida. Atualmente, ele já passa dos 70...

Comparando A teoria de tudo ao filme do outro gênio britânico, resenhado aí embaixo, trata-se de uma obra mais bem acabada. A edição é melhor, a fotografia é melhor, o figurino é melhor, a direção de arte (que agora se chama design de produção, seguindo a onda) é melhor. Mas o roteiro fica um pouco aquém. Monstruosa mesmo, arrebatadora, impecável, e podia ficar aqui escrevendo uma centena de adjetivos e ainda assim seria pouco, é a atuação de Eddie Redmayne no papel principal. Aliás, parece que direção de atores é um ponto forte do até então desconhecido, ao menos a mim, James Marsh - dele, conheço apenas o bom documentário O Equilibrista. O elenco inteiro rende e não se deixa ser ofuscado pela opulência da interpretação de Redmayne.

Por ser entusiasta do assunto e leitor de Hawking, confesso que esperava um pouco mais de ciência e bem menos melodrama. No entanto, tenho que admitir que, mesmo com cenas bastante dramáticas, A teoria de tudo foge de forma elegante dos clichês comuns a esse gênero de filme, as famosas biografias de fundo romântico.

O jogo da imitação (The Imitation Game), de Morten Tyldum

Quando eu era criança, sempre ouvia meu pai contar a história de Alan Turing. Estamos falando daqueles tempos do monitor verde e preto, de DOS, de disquete Verbatim. Lá na casa dele, todas as senhas dos diversos serviços no computador tinham a ver com o matemático britânico. Era uma espécie de homenagem, reconhecimento, honra ao mérito. Já dizia meu progenitor, um especialista à época dele em computação e programação, que se não fosse o Turing, a gente não teria um computador em casa. Mais tarde, falou a mesma coisa sobre o notebook. Depois, mais tarde ainda, sobre o iPhone. E até hoje ele continua repetindo isso, não sem razão.

Por isso, já estava mesmo na hora das grandes plateias no mundo inteiro conhecerem a interessantíssima, ainda que lamentavelmente triste, história de Turing. Apesar de alguns exageros do roteiro, e de algum atraso na ideia de se fazer um filme sobre sua vida, O jogo da imitação é uma justa homenagem ao sujeito que conseguiu abreviar a Segunda Guerra Mundial quebrando o código das comunicações criptografadas do exército nazista - mas que foi exposto à humilhação pública por ser homossexual.

Atenção para possíveis spoilers adiante! Se bem que, vamos combinar, biografia não tem spoiler porra nenhuma, né?

O que o filme conta é que após a guerra Turing se envolveu com um garoto de programa que roubou sua casa. Inevitavelmente, as investigações acabaram levando os policiais a descobrir sua sexualidade. Acusado de depravação simplesmente por ser gay, o que era crime naquela época, ele foi processado. No entanto, uma vez que era notoriamente um herói de guerra, foi-lhe dada a opção de fazer um tratamento hormonal para castrar seus desejos sexuais. Cansado e com graves sequelas, ele não aguentou a pressão e acabou cometendo suicídio.

Porém...

O que o filme não conta é que Turing foi expulso da marinha britânica por ser gay, e não dispensado por causa do fim da guerra. Pior ainda, foi impedido de continuar suas pesquisas mesmo após o desenvolvimento, que também não aparece no filme, de seu primeiro grande computador, pai de todas as máquinas digitais, o Colossus. Outro ponto divergente ressaltado por quem realmente conhece a vida de Turing (aka meu pai) é que seu temperamento era calmo e amigável, muito diferente do retratado pelo roteiro.

Dissemelhanças à parte, o enredo é bastante interessante, envolvendo no mesmo caldo o suspense da guerra, a beleza da matemática e o absurdo da homofobia. A interpretação de Benedict Cumberbatch, ainda que talvez descolada da realidade, é perfeita. É, no fim das contas, o que dá ritmo e charme ao filme. Digno de premiação.

Birdman, de Alejandro González Iñárritu

Filmes com metalinguagem são difíceis de se fazer e de agradar. Para piorar, eu tenho um pé bem atrás com o Iñarritu, cuja estrutura narrativa costuma se repetir a cada novo trabalho. Por isso, as expectativas não eram das maiores com Birdman - apesar do cartaz prometer catapultar a carreira de Michael Keaton para o estrelato pós-ostracismo, como já foi feito com tanta gente em Hollywood (olha cheirinho de Oscar aí). Porém, preciso tirar o chapéu para Iñarritu > que filme bacana!

Acompanhamos a história de um ator que monta um espetáculo dramático na Broadway como último esforço para se livrar do estigma da personagem que lhe rendeu os louros da fama no passado, mas que ainda insiste em lhe fazer companhia - inclusive, na forma de uma presença esquizofrênica. Qualquer semelhança com a carreira de Keaton, o Batman mais criticado da franquia do super-herói, não é mera coincidência e só adiciona ainda mais conteúdo à metalinguagem proposta.

De forma voyeurística, somos testemunhas dos ensaios para a grande estreia. Para dar andamento ao projeto que pode mudar a sua vida, Riggan, o protagonista do filme e da peça dentro do filme, conta com uma atriz que realiza seu sonho de pisar na Broadway e um ator de métodos hiper-realistas. Não bastasse a ótima direção de elenco, com a brilhante Emma Stone e o sempre surpreendente Edward Norton (além das luxuosas presenças da bela Naomi Watts e do polivalente Zach Galifianakis), a montagem do filme é fantástica.

A câmera passeia pelos bastidores em closes extremos. A entrada e saída dos atores de cena não respeita a cronologia cinematográfica, e sim a teatral: não importa se um ator está declamando sua fala, a câmera se volta a ele em um momento aleatório, do mesmo jeito que o olhar se comporta no teatro. A metalinguagem se reforça aqui com o jogo de câmera virando o jogo de cena.

Mais impressionante ainda, e o grande trunfo de Birdman, é o casamento da linguagem cinematográfica com a metalinguagem. Iñárritu acerta em cheio ao dar ao drama contornos irreais, confundindo seu espectador a todo momento sobre o que é real e o que é imaginário. Vale destacar também a trilha sonora, que entra na proposta da metalinguagem uma vez que é executada somente por um baterista (olha aí, galera do Whiplash), artista de rua, que se torna vez em quando personagem.

Um filmaço! O primeiro que realmente gosto do Iñárritu.

sábado, fevereiro 21, 2015

Whiplash, de Damien Chazelle

Não entendo tanto assim de jazz. Gosto muito, mas não sou dos mais estudiosos, o que nunca me impediu de ouvir discos de Miles Davis, John Coltrane, Thelonious Monk e Charlie Parker. Também nunca estudei música a ponto de ser especialista. Fiz lá minhas aulas de violão no Centro Musical Antonio Adolfo, mas era plenamente consciente das minhas limitações. Aliás, nunca toquei jazz - meu negócio era o rock de garagem, com minha guitarra distorcida a serviço do barulho. No entanto, acho que a minha paixão por música me permite definir Whiplash - e escrevo isso de forma lamuriosa - como a vitória da técnica sobre a sensibilidade.

O roteiro é simples: um jovem de 19 anos que quer se tornar o próximo Buddy Rich entra para a banda do conservatório de música. Lá, é desafiado por um professor que usa métodos nada tradicionais para levar seus pupilos ao limite. Só assim, alega, será possível surgir um novo Bird - a saber, o apelido de Charlie Parker. O grande desafio surge quando ele precisa tocar uma música (que dá nome ao filme) cujo tempo é bastante complexo - a saber novamente, 7/8. O garoto sua, sangra, tem ataque de pelanca e persegue isso como se fosse a coisa mais importante da sua vida.

Não há dúvidas de que se trata de um filme interessante em sua forma. As cenas musicais são muito bem filmadas, a trilha sonora, obviamente, é bem bacana e os atores estão fantásticos, em grande parte porque conhecem realmente os instrumentos que manipulam. Além disso, outro fato que torna Whiplash simpático é que ele é o concorrente ao Oscar de Melhor Filme com orçamento mais humilde da história da premiação. Um típico filme independente no meio de grandalhões com orçamentos astronômicos.

O problema é, repito, a vitória da técnica sobre a sensibilidade. É assim que se encara o mundo da música? Não é possível que o sucesso profissional de um músico amador seja proporcional ao número de vitórias em concursos musicais. Não é possível que tocar um duplo suingue em 7/8 o mais rápido possível faça dele um músico diferenciado. Mas é o que o argumento sublinha durante todo o filme, com duas cenas que reforçam a exaltação da técnica. A primeira é quando um jogador de futebol americano, tratado pelo roteiro como um janistroques, faz uma pergunta pertinente que é totalmente ignorada durante o filme todo: como é possível reconhecer o mérito de forma justa num concurso musical? A outra, patética, é quando o protagonista se senta diante da bateria e, sem a partitura, não consegue tocar a música. E o improviso? Não é o jazz também sobre isso? Usar a sua técnica, conseguida com muito suor e dedicação, para improvisar?

O desfecho é um cruel ato final de sadomasoquismo, fetiche que rasteja pelos cantos do filme todo, tanto na relação aluno x professor, quanto filho x pai, namorado x namorada etc. Uma demonstração enfadonha e inócua do virtuosismo, da técnica, passando por cima da sensibilidade como um rolo compressor.


quinta-feira, fevereiro 19, 2015

Boyhood, de Richard Linklater

Eu fiz isso de propósito > deixei a resenha de Boyhood vir exatamente depois - e acima - da de Interestelar. E o motivo é exemplar. Richard Linklater é exatamente o oposto, a antítese, o inverso, o antagônico do que é Christopher Nolan. Um diretor que faz filmes simples, mas com uma profundidade que é assustadoramente humana. Um sujeito que deixa a complexidade restrita ao desafio de seu ofício como cineasta, e não como traquinagem narrativa. Não me deixam mentir a quantidade exuberante de atores de Slacker, a fotografia cartunesca de Waking life, a perfeita ambientação de Jovens, loucos e rebeldes e o improviso verborrágico dos diálogos de Antes do amanhecer e cia. - só para citar alguns.

Em Boyhood a ousadia foi filmar por mais de uma década, no período da entressafra, os mesmos atores - a partir de um roteiro que acompanha o protagonista dos 6 aos 18 anos. O resultado é magnífico: uma história tão humana, com uma linguagem tão acessível, que é impossível não ser absorvido logo no começo da projeção. Trata-se de um belo epítome sobre crescer, sobre acreditar no futuro, sobre se colocar diante da vida e respeitar o lugar do outro - ainda que este outro seja o seu filho. Pois é, quem é pai tem uma fruição ainda mais intensa do belíssimo argumento de Linklater.

E aí, o roteiro em si pouco importa, porque a ideia está sempre lá, em cada fotograma, em cada enquadramento, em cada ação. Inclusive, nada de tão complexo acontece. Não há reviravoltas intensas ou pontuais. É a vida seguindo seu rumo. A dos atores, a do diretor, a minha, a sua, a do vizinho, a do tio da cunhada da sua prima. É o tempo como personagem inexorável, se distanciando do tratamento de grandeza matemática que é tanto explorada em Interestelar, mas que parece não dá em lugar nenhum no filme de Nolan.

Ainda tem o selo de qualidade Linklater. Direção de atores primorosa, com um belíssimo elenco - incluindo os mais velhos, Patricia Arquette e Ethan Hawke, cujo envelhecimento não é tão perceptível assim. Fotografia bem cuidada, com aquela luz que banha as reminiscências infantis. Diálogos em seus devidos lugares, com certa dose de improviso que os torna prováveis de serem reais. A cenografia que sabe tirar proveito dos fatos cronológicos, sem precisar fazer esforço para criar marcos temporais.

Ah, e um desfecho dos mais singelos que coroa o esforço de Linklater em fazer um filme que talvez seja o mais perto que o cinema já tenha chegado em tentar responder o que faz a vida ter sentido - bem diferente de perguntar qual é o sentido da vida, né Nolan?

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Interestelar (Interstellar), de Christopher Nolan

Sou da opinião que Christopher Nolan é um diretor com uma mania irritante: a de complicar o que já é bem complexo. Seus filmes têm roteiros que dão um nó na narrativa para depois tentar puxar uma pontinha frouxa e salvar o argumento. Mas aí, quando a gente vê, já é tarde demais e o nó não tem mais como ser desfeito. É nessa hora, sempre lá para os vinte minutos finais, que a corda dele fica com um nó na altura do pescoço. E como ele se livra disso? Com a tesoura do clichê.

Em Interestelar é assim. O argumento é primoroso! Bem cuidado, bem amarrado e bem crível - o que já é 80% de sucesso para um bom filme de ficção-científica. Tanto que a gente até esquece essa babaquice midiática de que esse foi o filme mais longo já rodado em IMAX. Roteiros que trabalham em cima de hipóteses plausíveis costumam prender a atenção do espectador mais desacostumado com teorias científicas, até mesmo quando se trata de física quântica, um assunto muito comentado, mas muito pouco compreendido.

Nolan faz certinho. Explica as entrelinhas das equações físicas, apresenta seus personagens com bastante calma e coloca em discussão questões existenciais, envolvendo o espectador num cenário futurista não muito distante e bastante possível no qual a humanidade enfrenta uma praga agrária. Além da escassez de comida no mundo inteiro, a atmosfera da Terra sofre com tempestades de poeira, ficando com níveis muito baixos de oxigênio e sentenciando os humanos à morte lenta.

É aí que entra o protagonista Cooper, um ex-piloto da NASA que aceita fazer parte de um projeto secreto, já que a agência espacial, em si, também se torna uma organização secreta: enviar expedições através de um buraco de minhoca (a saber, uma ainda hipotética dobra no tecido do espaço-tempo que possibilitaria percorrer distâncias inimagináveis em pouquíssimo tempo) que aparece misteriosamente perto de Saturno. Daí, já do outro lado do buraco, duas hipóteses: mandar um sinal de volta quando achar um planeta habitável ou começar uma colônia espacial para dar continuidade à raça humana. E adeus, planeta Terra.

Diz aí, que baita argumento, hein!?

Como entusiasta do assunto, as primeiras horas de filme foram intensas para mim. E acredito que para a maioria dos espectadores. Tem lá uma referência a 2001, uma odisseia no espaço meio esquisita, que não combina nada com o diretor, mas o ritmo é bacana. Até o momento em que Nolan, depois de 400 reviravoltas das mais complexas, mas que a gente até aguenta, se vê num beco sem saída. E aí resolve abandonar as especulações científicas e inventa de botar na jogada um buraco negro... Pronto, está dado o ensejo para criar umas sequências desastrosas, inundadas de sentimentalismo barato e com um desfecho terrível que deixa, obviamente, algumas questões em aberto.

Ô mania chata de complicar as coisas.