terça-feira, setembro 30, 2014

#28 - Tudo por um furo (Anchorman 2 - The Legend Continues), de Adam McKay

Taí um filme que deveria entrar na ementa de todos os cursos de Jornalismo. Veja bem o que escrevi. Por mais que soe como um disparate, é a mais pura verdade. E repito, aqui dando nome aos bois: Tudo por um furo, uma comédia estadunidense paspalhona, deveria entrar na ementa de todos os cursos de Jornalismo ao redor do mundo. Motivo? Porque a maioria de nós, jornalistas, é incapaz de criticar com razão e serenidade o jornalismo que pratica, quiçá fazer uma autocrítica contundente.

O filme é a continuação de O Âncora - A Lenda de Ron Burgundy, outra bobeira sem tamanho, mas que rende boas risadas - em grande parte por conta do elenco, que tem Will Ferrell, Paul Rudd e Steve Carell como os jornalistas tresloucados, amorais e de índole duvidosa. O que a franquia fez, desde o primeiro filme, foi tirar proveito desse famoso estereótipo que inunda produções de outros gêneros. Acreditem, já vi até filme erótico com jornalista inescrupuloso.

Pois bem, eu trabalhei com jornalismo televisivo por cerca de oito anos (entre idas e vindas) na maior rede de televisão do país. E o que o filme faz com brilhantismo, que funciona melhor do que qualquer piada, é mostrar como o tal jornalismo de hard news, que "não desliga nunca", se apoia num discurso sensacionalista pobre, raso, vazio e supérfluo. Todos os clichês dessa seara são sumariamente desnudados e devidamente esculachados.

Ao longo da projeção, as piadas estão lá, em seus devidos lugares. São boas, funcionam. As caracterizações também são bacanas. Afinal, os caras têm o timing da comédia. A cena na qual Ferrell faz seu pequeno aquecimento vocálico durante a escalada de notícias, momento tenso num estúdio de telejornal, é impagável. O roteiro mostra como a ideia de um canal com notícias 24 horas por dia soava patética na década de 70. E como, numa sociedade em que formadores de opinião têm opiniões canhestras, a falta de pauta rende audiência. O ápice dessa mixórdia toda é a sequência que demonstra como a primeira perseguição a um carro fugitivo foi cunhada.

Talvez quem tenha vivido a época em que a Veja tinha algum resquício de credibilidade, em que o Jornal do Brasil era o abrigo dos vanguardistas e em que âncoras de telejornais não eram pautados por interesses de lideranças religiosas vá entender o que quero dizer quando afirmo que o filme tem lá sua importância.

Saudades do jornalismo. Saudades da linguagem referencial Saudades da apuração.

4 comentários:

Kamila Azevedo disse...

O bom jornalismo, feito com seriedade e, principalmente, responsabilidade, faz falta. Não quero crer que isso é uma utopia. Me recuso a crer nessa possibilidade. Tendo dito isso, achei seu texto muito curioso, até mesmo porque não assisti ainda nem à "O Âncora", por achar que fosse um verdadeiro besteirol. Mas, seu texto me fez ver o outro lado: é necessário rir de si mesmo e Deus sabe o quanto o jornalismo precisa disso.

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luiz Mendes Junior disse...

PAREM AS MÁQUINAS!!!!

Twin Peaks vai voltar!!!

http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2014/10/criada-por-david-lynch-serie-twin-peaks-vai-ganhar-novos-episodios.html

http://variety.com/2014/tv/news/twin-peaks-revival-to-air-on-showtime-in-2016-1201322329/

https://www.youtube.com/watch?v=nNHsA4WIFvc

Kahlil Appel disse...

To louco pra ver esse filme. Gosto bastante do primeiro!

http://filme-do-dia.blogspot.com.br/