quinta-feira, setembro 25, 2014

#27 - Círculo de fogo (Enemy at the gates), de Jean-Jacques Annaud

Depois de ler o estupendo - e indispensável, aos entusiastas do tema - relato do jornalista Vasily Grossman sobre a Segunda Guerra Mundial - Um escritor na guerra, editado aqui no Brasil pela Objetiva -, fica difícil engolir a maioria das adaptações cinematográficas sobre esse período da História. Inclusive, aquelas com a temática dos snipers, os famosos atiradores de elite alçados ao estrelato pelo Exército Vermelho como estratégia de propaganda bélica. É aí que Círculo de fogo se situa, mas para contar a história de um atirador que não foi o que Grosman retratou.

O filme de Annaud trata da participação de Vassili Zaitsev, o escolhido pelo governo russo, na conturbada Batalha de Stalingrado - a saber, um conflito que transformou a cidade que levava o nome de Stalin em um verdadeiro inferno, onde a neve era devastadora, a fome era uma constante e lama e sangue se confundiam no solo contaminado pelos corpos em putrefação.

E aí, o que você vai ver em Círculo de fogo é um Jude Law galante, de cabelo bem penteado e falando um inglês com sotaque britânico (bom, o cara é inglês, né?), em cenas de câmera lenta, com música incidental, tomando para si a árdua tarefa de dar um fim aos soldados alemães. Até que um sniper nazista, com um inglês de sotaque estrangeiro carregado, chega para tentar botar uma bala em sua cabeça. E aí começa um jogo de gato e rato - só que monótono até o talo. Tão monótono quanto aquele capítulo do seu livro de História da sétima série sobre a Segunda Guerra Mundial.

O tal inferno descrito por Grossman passa longe.

Será que poderia ter sido diferente? Um pouco mais realista, um pouco menos romanesco? Pois dois diretores tinham como projeto filmar a Batalha de Stalingrado e seus snipers. Ninguém menos que Serguei Eisenstein e Sergio Leone. Agora, imaginemos um filme sobre snipers dirigido por Leone. E imaginemos um filme sobre Stalingrado dirigido por Eisenstein.

Jean-Jacques Annaud vai ter que me desculpar.

Vale ressaltar que, de acordo com os relatos de Grossman, havia um atirador cuja trajetória foi bastante interessante, mas que não ganhou o mesmo tratamento por conta da perseguição do governo russo ao repórter (cujos textos para o Estrela Vermelha, o jornal do exército, eram de uma imparcialidade que incomodava os chefões). Ele se chamava Anatoly Tchekhov, um adolescente que pouca experiência tinha com armas e guerras, mas que era implacável na "caça" aos alemães. Uma trajetória, talvez, mais interessante para ser retratada numa tela de cinema.

Um comentário:

Kamila Azevedo disse...

Pelo seu texto, suponho que ler o livro é bem melhor, né??? "Círculo de Fogo" é uma obra "antiga", assisti há muito tempo e mal me lembro do filme - o que é sempre um péssimo sinal.