domingo, agosto 31, 2014

#26 - Tentativa de abertura (Essai d'ouverture), de Luc Moullet

A Nouvelle Vague alçou ao estrelato realizadores consistentes, como Godard, Truffaut, Resnais e Chabrol. Um dos membros dessa turma, no entanto, saiu pela tangente e transformou seu trabalho em algo mais experimental, quase um outro tipo de vanguarda. Luc Moullet, talvez sem ter consciência disso, flertava com o que mais tarde seria solidificado e rotulado como videoarte (para poder caber dentro de uma caixinha). Além de diretor, Moullet sempre foi ensaísta e crítico bastante influente, com dezenas de textos não só sobre a estética, mas também sobre a técnica cinematográfica.

Seus filmes, sem a pretensão de atingir os circuitos comerciais, trazem um humor ácido e ousado que faz pouco caso da sociedade de consumo - inclusive, da sociedade que consome o cinema como mero produto. Seu trabalho mais famoso, Brigitte e Brigitte, de 1966,  mostra a dura vida de duas estudantes universitárias da Sorbonne, criticando o culto ao luxo francês e o contrastando com uma miséria, econômica e intelectual, que é varrida para debaixo do tapete. Em Anatomia de uma relação, Moullet faz um pseudo-documentário sobre seus problemas sexuais com sua esposa. Catracas, um curta que fez estardalhaço nos cinemas parisienses no início da década de 80, ensina uma técnica quase artística para adentrar o metrô sem um bilhete.

Desconhecido no Brasil, e escrevo isso com um lamento profundo, um de seus curtas mais bacanas é, sem dúvida, Tentativa de abertura. Durante cerca de 15 minutos, Moullet tenta achar a técnica ideal para abrir uma garrafa de Coca-Cola - uma daquelas da época em que as tampas eram feitas de um alumínio perigoso. Tenta de tudo, do convencional ao surreal. Reflete o cineasta, em determinado momento, exausto pela força aplicada na garrafa:

"Se os homens adoram o álcool, mulheres e crianças preferem Coca-Cola. Mas elas só podem ser abertas por homens. Contradição?"

O lugar da obra de Moullet desafia as tais caixinhas. Nos cinemas, nos museus, nas prateleiras? Profícuo, seu cinema continua entretendo e desafiando todo mundo a pensar um pouco mais sobre o que é a linguagem cinematográfica e quais as suas possibilidades. Um cinema de arte completamente diferente do que o cinema de arte normalmente é.

E como eu sou bonzinho, taí o curta em duas partes! Quer dizer, mais ou menos bonzinho, porque não tem legenda. Mas elas estão disponíveis por aí para serem baixadas. Divirtam-se!


                                          



quarta-feira, agosto 27, 2014

#25 - O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel), de Wes Anderson

Indiscutivelmente, goste você ou não do trabalho do cara, Wes Anderson tem grife. Seus filmes são  inconfundíveis - tanto no aspecto estético, quanto na estrutura narrativa. Aqui, a opinião é de alguém que gosta, e muito, do que ele faz. É um sujeito que sabe, como poucos, usar a linguagem cinematográfica para contar boas histórias.

O fabuloso (na melhor acepção da palavra) roteiro conta a história de ascensão e queda do hotel que dá nome ao filme, o Grande Hotel Budapeste. Quem descreve suas reminiscências sobre o lugar é Moustafa, ex-gerente do local, que começou sua carreira no ramo hoteleiro como handyman sob tutela do então chefão M. Gustave, magistralmente interpretado por Ralph Fiennes.

Novamente, as cores e as texturas saltam aos olhos. Um primor a direção de arte, um absurdo a cenografia, uma formosura a trilha sonora e uma graça o figurino.

- Ah, mas você não disse que cinema é contar história? Isso aí é tudo técnico... - dirão os mais enfastiados.

Pois, tire tudo isso e ainda há, escancarada na tela, uma história cativante, criativa, cheia de detalhes pitorescos e repleta de fantasia. Sem lições de moral, sem clichês, sem concessões a investidores. É cinema puro e aplicado, livre. Além disso, o nível de, digamos, "acabamento humano", é digno de nota > personagens inverossímeis, que ganham corpo por interpretações dedicadas e pela direção de atores perfeita de Anderson.

Uma experiência. E em sua essência, é pra isso que serve o cinema, entende?

#24 - Blackfish, de Gabriela Cowperthwaite

Em 1977, muitas crianças ficaram definitivamente com medo de entrar no mar para dar um mergulho. Também, pudera: não bastasse o Tubarão de Spielberg, ganhava as telas mais um clássico do gênero, Orca - a baleia assassina. A produção de baixo orçamento elevou ao status de predador voraz o mamífero, que passou a ser um animal admirado pelos humanos.

O resultado disso foi a criação de parques temáticos onde o bicho era exibido, colocando os visitantes diante de uma espécie de experiência aterrorizante e maravilhosa. Era possível treinar as baleias - vislumbraram alguns ditos especialistas no assunto. Não demorou muito e, na Califórnia, surgiu o primeiro parque no qual uma orca era exibida. E não demorou muito, também, para que o primeiro ataque ao treinador acontecesse - uma vez que as consequências do cativeiro foram ignoradas.

Anos após o acidente, mesmo sob avisos, o então recém-aberto Sea World resolveu comprar a "baleia assassina" para ser a pareadora dos animais de seu parque. Sob a alegação de que o cativeiro é necessário para preservar a espécie e aproximar o homem do animal, os show continuam até hoje. No entanto, agora, e há pouco tempo, sem a interação física entre treinador e baleia.

Blackfish, indicado ao Oscar de Melhor Documentário, investiga e questiona a necessidade dos shows com baleias, e mostra como é difícil transpor a barreira cultural que foi solidificada pela indústria do entretenimento. O material de apoio é bastante rico. Você vai ver cenas reais e angustiantes de treinadores sendo atacados pelas baleias, estressadas pelo cativeiro e por suas péssimas condições de infraestrutura. Além disso, biólogos e ex-treinadores dão seus testemunhos - a favor e contra o Sea World.

Você vai pensar duas vezes antes de aplaudir uma baleia pulando numa piscina diante de uma arquibancada cheia.