sábado, abril 12, 2014

#21 - Ninfomaníaca vol. 2 (Nymphomaniac vol.2), de Lars Von Trier

Foi com certo espanto que notei o comportamento dos espectadores com o segundo volume do novo filme de Lars Von Trier, dividido em duas partes. Tanta gente reclamou de tanta coisa, que o circuito foi se fechando em pouco tempo. Assistir ao volume dois se tornou uma tarefa bastante complicada. E foi com mais espanto ainda que notei um certo provincianismo nas resenhas, tanto as midiáticas quanto as amadoras. A mais espantosa de todas que li dizia que o desfecho traz uma "reviravolta desnecessária".

Sério?

Seguindo a contação de história proposta pela protagonista, o segundo filme faz uma jornada - ou uma jorrada - mais intensa na obsessão compulsiva de Joe por aquela cosquinha gostosa chamada orgasmo. O que era para ser um mero gatilho evolutivo, que garante a procriação da espécie, se torna objeto de culto e, graças à complexidade das relações humanas, desenvolve uma série de fetiches dos mais diversos. É justamente este o ponto em que Von Trie toca - sem trocadilhos - nessa segunda parte.

Para isso, ele abandona o apuro estético da primeira parte. O que, para mim, é o único deslize, ainda que de leve, que o diretor comete. No entanto, é preciso mesmo abandonar o tom jocoso para dar argamassa ao complexo argumento proposto. E é preciso ser um mestre - de obras - para levantar o paredão de forma sólida. Por mais que se critique o filme, uma coisa é unanimidade > não há um buraquinho - uepa! - sequer em toda a saga de Joe. O roteiro é monstruosamente coeso, com seus capítulos cerzidos de forma reforçada. Inclusive, as referências aos outros filmes da trilogia aqui proposta (completa por Anticristo e Melancolia, todos com Charlotte Gainsbourg como protagonista), chamada de Trilogia da Depressão, funcionam plenamente.

Bonequinhos saindo do cinema e críticas sobre reviravoltas desnecessárias à parte, parece mesmo que dividir o filme em dois volumes fez mal ao espectador menos atento. O ápice da história é uma sequência que coloca em xeque, de uma vez por todas, o naturalismo com que o sexo é tratado no roteiro. A cena em que a ninfomaníaca reconhece em um depravado sexual sua própria natureza incontrolável, demonstrando compaixão logo em seguida, é a cereja do bolo de Von Trier - uma das passagens mais fortes dos últimos tempos, ao mesmo tempo dramática e perturbadora.

Ora, o final, esse aí que muita gente questionou e exigiu que fosse diferente, vociferando que o diretor jogou tudo na lata de lixo, fica até pequeno diante de um argumento que foi exposto com requintes de crueldade. Há, sim, uma reviravolta no final. Mas é, sim, pertinente. Trata-se de um recurso amplamente usado na literatura, mas que ainda é questionado com veemência pelo espectador cinematográfico: a saber, a morte alegórica. Em Kafka, Camus ou Sartre, para citar apenas alguns dos autores que tão bem exploraram a natureza humana, é um artifício aceito. Já no cinema, suporte no qual a grande maioria não permite uma oscilação no eixo temporal e narrativo - porque o fim precisa fazer jus ao início e ao meio -, é condenável. Vai entender...

Antes da sequência final, Von Trier parece querer se eximir da misoginia da qual foi acusado por traumatizar Björk e criar rugas em Nicole Kidman. Joe é também um nome masculino, e há aqui uma possível inversão de papéis que se transforma em uma espécie de crítica à criminalização do sexo - a mesma que reduziu o número de sessões disponíveis e que pode impedir o filme de ser lançado em Blu-ray.

Já nos créditos finais, entra uma versão assustadoramente encantadora de Charlotte Gainsbourg interpretando "Hey Joe", imortalizada por Jimi Hendrix. E aí, amigo, para bom espectador, meio refrão basta!


2 comentários:

Kamila disse...

Não assisti ao primeiro volume e nem ao segundo. Depois, confiro, mas já vi que essa segunda parte dividiu muitas opiniões, especialmente em relação ao final escolhido pelo Lars Von Trier.

Jaqueline Cunha disse...

Fui abduzida pela condução do tema, mas somente na segunda parte. E aí marcou demais em mim este filme: um nicho de preferências dentre as milhares e milhares possíveis. O que será que ativa esse estranhamento, essa importância que muitas pessoas dão para certas preferências? O fato de que todos, sem distinção, dão muita importância para o sexo - tamanho, desempenho, desinteresse, qualidade e as tais preferências... Amei o seu texto!