sábado, março 01, 2014

#16 - Holocausto canibal (Cannibal holocaust), de Ruggero Deodato

Muito antes do sucesso estrondoso de filmes como Bruxa de Blair e Rec, o diretor italiano Ruggero Deodato inaugurava, em 1984, esta linguagem cinematográfica que mistura o ficcional com o documental. Foi ele quem, pela primeira vez, colocou enormes pulgas atrás das orelhas de milhares de espectadores ao anunciar que encontrara imagens reais filmadas por um grupo de quatro antropólogos dados como desaparecidos após uma expedição à floresta amazônica. Os mesmos teriam sido devorados por uma tribo de canibais.

Logo, Holocausto Canibal ficou conhecido, semanas antes de seu lançamento, como o primeiro snuff movie (filmes underground em que as mortes de seres humanos são reais) a entrar em cartaz na história do cinema. Inicialmente, a tática deu certo. A primeira semana de exibição foi, do ponto de vista comercial, um sucesso. O problema é que a celeuma foi tamanha, que chamou a atenção das autoridades locais. Resultado: o filme foi banido e Deodato foi preso por acobertar assassinatos reais. Para piorar, uma cláusula dos contratos dos quatro protagonistas ordenava que os mesmos sumissem por um ano.

A violência e o realismo de Holocausto canibal são tão fortes, que Deodato só foi liberado depois que seus atores foram localizados e se apresentaram à corte italiana, em carne e osso, sãos e salvos. Impressiona mais ainda o fato de ser uma produção de baixo orçamento e realizada, de fato, no meio da floresta amazônica - o que rendeu à equipe alguns perrengues. Para uma cena na qual uma índia adúltera é violentada e espancada até a morte, Deodato não conseguiu convencer nenhuma candidata. Teve que apelar para sua camareira, que como não tinha cor nem cara de indígena, aparece toda coberta de lama. Em outra cena, na qual um antropólogo toma banho no rio, nu, ao lado de índias bem salientes, o diretor teve que gastar uns trocados com prostitutas de uma casa de tolerância de uma cidadezinha próxima.

O roteiro, genial, se divide em duas partes. A primeira, mostra um professor que vai atrás do tal grupo de quatro antropólogos. É ele quem consegue localizar não somente os corpos, mas também os filmes que testemunham a "barbárie" dos povos canibais. A segunda parte, exaltada até mesmo por Sergio Leone, mestre dos westerns, são as imagens propriamente ditas sendo analisadas por especialistas que desejam tornar o filme uma produção comercial. Além do rigor estilístico, com a câmera na mão e cortes ligeiros para dar agilidade e veracidade à narrativa, entra em cena um certo debate sobre o que é o processo civilizatório, qual é o verdadeiro objeto de estudo da antropologia e que povo é realmente bárbaro.

É preciso ter estômago para assistir a Holocausto canibal. Não é um filme para qualquer um. Se as impressionantes cenas de violência são falsas, as sequências nas quais animais são mortos são verdadeiras - e perturbadoras! Apesar de ser comum às tribos locais caçar e comer qualquer bicho da floresta, Deodato alegou, anos mais tarde, ter se arrependido de editar essas cenas com tanto detalhamento.

A quem puder embarcar nessa experiência cinematográfica extrema, eu digo sem hesitar: um filmaço!

2 comentários:

Kamila disse...

Esses filmes são a sua cara, Dudu, mas não fazem muito o meu estilo.

Kamila disse...

Esses filmes são a sua cara, Dudu, mas não fazem muito o meu estilo.