segunda-feira, março 31, 2014

#20 - O capital (Le capital), de Costa-Gavras

Um filme de Costa-Gavras é sempre um frescor para um circuito entupido de porcaria com viés político torto. Não importa se você é liberal ou conservador, de esquerda ou de direita, republicano ou democrata - há que saber fundamentar seu argumento para, depois, poder levá-lo ao cinema de modo contundente. Pouca gente faz isso tão bem como o diretor grego, que já brindou espectadores com histórias fantásticas cujos panos de fundo eram abertamente políticos.

Aqui, nenhuma referência direta ao livro homônimo de Karl Marx. Já indiretamente, várias. Costa-Gavras trata do capital especulativo que vem minando, há anos, a cambaleante economia europeia, cada vez mais apoiada em um modelo importado dos EUA, que por sua vez se apoia em gigantescos fundos de investimento. Dá para fazer uma listinha de quem já quebrou (a cara e o sistema econômico) por causa disso > Finlândia, Irlanda, Portugal, Espanha e a pátria do diretor, a Grécia, para citar os mais emblemáticos.

Marc Tourneuil é diretor de um importante banco francês. Quando é alçado à presidência da instituição, se vê no meio de uma armadilha que vai permitir que um grupo de investidores vorazes dos EUA adquira o banco a preço de banana durante uma oferta primária de ações na Bolsa. Em meio à negociação de bônus por demissões em massa, ele percebe que seu traseiro está na reta, e tenta a qualquer custo se salvar, por mais que tenha que mandar às favas qualquer resquício de humanismo.

Como não podia deixar de ser, já que trata-se de Costa-Gavras, o roteiro tem coesão e ritmo. Diálogos, direção de atores e tudo o mais estão no lugar certo, na dose certa, na hora certa. O capital é um excelente thriller, sem cacoetes ou forçação de barra, que mantém o espectador de olhos grudados na tela até o desfecho.

Mais um acerto do velho Gavras!

#19 - Uma aventura Lego (The Lego movie), de Phil Lord e Christopher Miller

Lego sempre fez parte da minha infância. Décadas atrás, quando o produto ainda não era encontrado com facilidade por aqui, meu avô sempre trazia as famosas peças coloridas de montar de suas viagens ao exterior. Posso dizer que cresci montando Lego. E o meu prazer não era brincar, mas sim destruir tudo logo após ter passado horas empilhando pecinhas. O bacana de Uma aventura Lego é que, apesar de ser um filme infantil, trata justamente dessa questão.

O roteiro fala sobre um boneco de Lego que luta contra um malvado líder que quer fazer com que todas as pessoas na cidade do Lego fiquem paradas, imóveis - como se não houvesse espaço para a criatividade, para destruir tudo e montar de novo. O tal vilão tem uma arma potente que só pode ser parada com um estranho objeto, que vai parar nas mãos do boneco bonzinho.

Spoiler de filme infantil vale, né?

A sacada do roteiro é ótima! De repente, a animação dá lugar a realidade. O bacana é justamente a analogia > o boneco é uma criança e o vilão, seu pai. É a história de um menino cheio de criatividade, mas que não pode mexer no Lego do pai, que levou anos montando uma super cidade e agora usa uma arma, ou melhor, uma cola especial, para que nenhuma peça saia do lugar. O artefato que pode parar tudo isso? Ora, é óbvio...

Eu me identifiquei. Com a criança, mas me identifiquei!

quinta-feira, março 13, 2014

#18 - Philomena, de Stephen Frears

Stephen Frears é macaco velho, calejado, experiente. E querido também - dirigiu Alta Fidelidade! Mas parece que ele não soube escapar da armadilha que os filmes baseados em histórias reais escondem em seus promissores roteiros. Já comentei anteriormente aqui, reitero > é preciso muito cuidado e talento para que o argumento não dê mais peso ao protagonista do que ao fato em si, sob pena de tornar o filme uma mera biografia.

O argumento de Philomena é tenebroso, macabro, lúgubre. Porra, é uma denúncia e tanto. Freiras de um orfanato negociavam a adoção dos bebês de suas internas sem o consentimento das mesmas. Temos aí um assunto cabeludo para ser desenvolvido. No entanto, por conta do tratamento do roteiro - e, obviamente, o talento indiscutível da protagonista - o filme é só Judi Dench. Seu companheiro de cenas, convenhamos, não ajuda muito. Trata-se de um estereótipo ridículo de jornalista interpretado pelo respeitável Steve Coogan. Seu personagem é arrogante e vaidoso, daqueles que põem o pé na porta para não tê-la batida na cara, achacam as pessoas com ironias e exercitam um pretensioso faro jornalístico do tipo detetive particular de pulp fiction.

Está lá a denúncia, sim. Rasa, meio amedrontada de seguir adiante e com os holofotes completamente voltados para a tal Philomena que dá nome ao filme. Uma opção de Frears, é verdade. Porém, e justamente por isso, o que faz valer o ingresso é somente Judi Dench.

Sessão da tarde. Dado o diretor, podia ter sido um filmão.

sexta-feira, março 07, 2014

#17 - Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club), de Jean-Marc Vallée

Mais um concorrente ao Oscar de Melhor Filme com roteiro baseado em fatos reais, o que se destaca em Clube de Compras Dallas é, de fato, o que foi premiado. O filme de Jean-Marc Vallée seria apenas mais um não fossem as monstruosas atuações de Matthew McConaughey e Jared Leto.

O bom roteiro conta a história de Ron Woodroof, um cowboy misógino, machista e preconceituoso que contrai AIDS em plena década de 80, época em que havia pouca informação sobre a doença, equivocadamente associada apenas às práticas homossexuais. Sentenciado a 30 dias de vida, o protagonista começa a procurar tratamentos que lhe garantam mais alguns meses. Acaba travando uma batalha contra o sistema imposto pela indústria farmacêutica - que controla não apenas a distribuição de medicamentos, mas também regula e proíbe substâncias que podem ser usadas para melhorar a qualidade de vida de soropositivos no mundo inteiro.

O roteiro acerta quando coloca  o foco em cima dessa espécie de denúncia sobre o cartel da indústria farmacêutica. Para driblar as restrições da justiça, Woodroof fundou um clube no qual não se comprava diretamente as tais substâncias "proibidas", conseguidas em partes mais remotas do mundo, pelas mãos de médicos que ousavam arriscar suas carreiras. Ao invés disso, pagava-se uma mensalidade apenas para ter acesso às mesmas, o que ficou conhecido como clube de compras, um fenômeno que se espalhou por todo o território estadunidense.

Por mais que o argumento não se aprofunde na questão mercadológica, uma vez que o foco precisa estar quase sempre ajustado no protagonista quando se adapta uma história real (daí meu problema com as ditas histórias reais), vale como alerta para a vida completamente remediada que levamos hoje em dia, com drogas controladas e doenças inventadas.

Matthew McConaughey perdeu 17 kg para fazer o filme. Jared Leto ia ao mercado travestido de seu personagem. Diz aí se não vale o confere? Stanislavski ficaria orgulhoso!

sábado, março 01, 2014

#16 - Holocausto canibal (Cannibal holocaust), de Ruggero Deodato

Muito antes do sucesso estrondoso de filmes como Bruxa de Blair e Rec, o diretor italiano Ruggero Deodato inaugurava, em 1984, esta linguagem cinematográfica que mistura o ficcional com o documental. Foi ele quem, pela primeira vez, colocou enormes pulgas atrás das orelhas de milhares de espectadores ao anunciar que encontrara imagens reais filmadas por um grupo de quatro antropólogos dados como desaparecidos após uma expedição à floresta amazônica. Os mesmos teriam sido devorados por uma tribo de canibais.

Logo, Holocausto Canibal ficou conhecido, semanas antes de seu lançamento, como o primeiro snuff movie (filmes underground em que as mortes de seres humanos são reais) a entrar em cartaz na história do cinema. Inicialmente, a tática deu certo. A primeira semana de exibição foi, do ponto de vista comercial, um sucesso. O problema é que a celeuma foi tamanha, que chamou a atenção das autoridades locais. Resultado: o filme foi banido e Deodato foi preso por acobertar assassinatos reais. Para piorar, uma cláusula dos contratos dos quatro protagonistas ordenava que os mesmos sumissem por um ano.

A violência e o realismo de Holocausto canibal são tão fortes, que Deodato só foi liberado depois que seus atores foram localizados e se apresentaram à corte italiana, em carne e osso, sãos e salvos. Impressiona mais ainda o fato de ser uma produção de baixo orçamento e realizada, de fato, no meio da floresta amazônica - o que rendeu à equipe alguns perrengues. Para uma cena na qual uma índia adúltera é violentada e espancada até a morte, Deodato não conseguiu convencer nenhuma candidata. Teve que apelar para sua camareira, que como não tinha cor nem cara de indígena, aparece toda coberta de lama. Em outra cena, na qual um antropólogo toma banho no rio, nu, ao lado de índias bem salientes, o diretor teve que gastar uns trocados com prostitutas de uma casa de tolerância de uma cidadezinha próxima.

O roteiro, genial, se divide em duas partes. A primeira, mostra um professor que vai atrás do tal grupo de quatro antropólogos. É ele quem consegue localizar não somente os corpos, mas também os filmes que testemunham a "barbárie" dos povos canibais. A segunda parte, exaltada até mesmo por Sergio Leone, mestre dos westerns, são as imagens propriamente ditas sendo analisadas por especialistas que desejam tornar o filme uma produção comercial. Além do rigor estilístico, com a câmera na mão e cortes ligeiros para dar agilidade e veracidade à narrativa, entra em cena um certo debate sobre o que é o processo civilizatório, qual é o verdadeiro objeto de estudo da antropologia e que povo é realmente bárbaro.

É preciso ter estômago para assistir a Holocausto canibal. Não é um filme para qualquer um. Se as impressionantes cenas de violência são falsas, as sequências nas quais animais são mortos são verdadeiras - e perturbadoras! Apesar de ser comum às tribos locais caçar e comer qualquer bicho da floresta, Deodato alegou, anos mais tarde, ter se arrependido de editar essas cenas com tanto detalhamento.

A quem puder embarcar nessa experiência cinematográfica extrema, eu digo sem hesitar: um filmaço!