sábado, fevereiro 08, 2014

#9 - Os amantes passageiros (Los amantes pasajeros), de Pedro Almodóvar

Não ouso aqui dizer que Os amantes passageiros é um filme de férias de Almodóvar. Está mais para uma volta ao que o cineasta espanhol fazia no início de carreira, que foi o bastante para chamar a atenção de espectadores do mundo inteiro. Aqui, ele se permite exercitar seu lado imaginativo sem buscar reflexões ou propor temáticas complexas. É o mais puro exercício de entretenimento cômico. Bons tempos, hein Almodóvar?

Desde Carne trêmula, Almodóvar não fazia um filme leve, engraçado do início ao fim. De Kika para baixo, sua filmografia era tipicamente, digamos, espanhola - uma espécie de Carlos Saura kitsch. Suas primeiras obras tinham as cores que saltavam aos olhos, os diálogos verborrágicos, os trejeitos exagerados e as indumentárias excêntricas. E sempre aquele senso de humor ácido, sarcástico, caótico. O cineasta ganhou os festivais,  ganhou o mundo, ganhou admiradores e passou por um profundo amadurecimento cinematográfico. As cores, os diálogos, os trejeitos e as indumentárias ainda estavam lá. O que mudou foi a forma de agrupá-los. Ou seja, a montagem ficou mais sóbria, mais artística, com um argumento objetivo.

Aqui, ele dispensa os roteiros bem engendrados, mas não abre mão de contar uma história bastante divertida (e no fim das contas, cinema é um dos melhores suportes para se contar uma história). Um grupo de pessoas a bordo de um avião, cujo trem de pouso está danificado, precisa lidar com a incerteza de seu futuro: será que o avião vai pousar em segurança? Haverá feridos? Quem conseguirá escapar? Para piorar - ou melhorar - uma das passageiras é vidente. É pano para manga, e Almodóvar sabe costurá-lo como ninguém. Destaque para o elenco, fantástico, com participações especiais de dois atores que sempre ajudaram o diretor a dar passos à frente na carreira: Penélope Cruz e Antonio Banderas.

É perfeitamente compreensível que muita gente que curta o trabalho de Almodóvar não tenha gostado do filme. Provavelmente, se acostumaram a um cineasta mais denso. Estar diante de um trabalho que tem as características típicas da primeira fase, se assim pudermos definir o período de tempo que vai até Kika, pode causar um certo estranhamento. Afinal, estavam todos acostumados a ficar comentando suas obras durante a semana toda, dada a complexidade dos argumentos de Carne Trêmula em diante.

Mas há também quem enxergue em Os amantes passageiros um momento no qual as reminiscências de uma grande mente criativa transbordem de forma arrebatadora. Sempre afirmei, aqui, que Almodóvar pagou um preço, ainda que não muito caro, por sua maturidade cinematográfica. Ganhou respeito e profundidade, mas perdeu um pouco da espontaneidade e da ousadia estética, aquelas descompromissadas com o métier artístico.

Talvez Os amantes passageiros cause menos frisson porque o mundo mudou bastante desde 1993. Homossexualidade, drogas e sexo espalhafatoso já não são assuntos tão espinhentos. Mas provou que uma coisa continua a mesma: o talento de Almodóvar continua latente, mesmo quando ele se permite ser maravilhosamente superficial.

Um comentário:

Daniel disse...

Eduardo, lançamos um curso sobre os filmes de Almodóvar agora, falamos sobre a maioria das obras deles em dois grandes temas que são a mescla de gêneros e a imitação.

Se quiser dar uma olhada entra no link:


http://www.descola.org/curso/7/olhar-do-diretor-Almodovar

abs