quarta-feira, fevereiro 26, 2014

#14 - 12 anos de escravidão (12 years a slave), de Steve McQueen

Indicado a nada menos que nove estatuetas do Oscar, o verdadeiro valor de 12 anos de escravidão passa longe da capacidade de entreter o espectador. Trata-se de um dos únicos e mais precisos relatos em primeira pessoa sobre ser um escravo. O filme do diretor britânico Steve McQueen se debruça sobre o livro de Solomon Northup, cuja veracidade já foi atestada por uma série de historiadores, para tratar um assunto amplamente visto na tela do cinema, mas poucas vezes filmado com tanta precisão.

Northup foi um negro nascido livre que vivia pacatamente no estado de Nova Iorque. Letrado, sabia tocar peças eruditas no violino, o que causava estranhamento na população estadunidense caucasiana do fim do século 19. Por isso mesmo, chama a atenção de artistas circenses, que oferecem a ele a oportunidade de excursionar com o circo e se apresentar para multidões. No entanto, Northup acaba sendo vítima de algo que se tornou comum naquela época: é sequestrado e tem sua identidade de homem livre aniquilada instantaneamente. O fato de tocar violino eleva seu preço de mercado. Acaba se tornando mais um escravo negro no sul dos EUA.

O filme mostra os 12 anos em que Northup comeu o pão que o diabo amassou nas mãos de senhores de terra incapazes de enxergar o horror da escravidão - ainda que demonstrassem compaixão em determinados momentos ou que fossem tementes a um deus que, segundo eles, não condena a posse de homens como propriedade. Apontavam, inclusive, passagens bíblicas que atestavam suas interpretações equivocadas.

Um excelente argumento. Um bom roteiro, com personagens e reviravoltas bastante interessantes. O problema no filme de McQueen é um certo exagero dramático que seus filmes anteriores, como Shame e Fome, não têm. Há muita música tristonha, uma enxurrada de frases de efeito e uma lição de moral desnecessária do personagem de Brad Pitt - que, além de herói, é nada menos que o produtor do filme. Em alguns países, inclusive, o poster de 12 anos de escravidão dá mais peso a seu personagem do que ao próprio protagonista.

Ainda assim, um bom filme. Um documento importante nesses dias atuais em que muita gente não vê nada de errado - muito pelo contrário, apoiam - em acorrentar um menor infrator negro, deixado nu, a um poste.

2 comentários:

Leela disse...

Adorei essa resenha, mas você já sabia disso. ;)

Eduardo Starling disse...

Gostei do filme, mas achei ele um tanto mal montado, sei lá...

E também o problema mais comum nos filmes de 5 anos pra cá: podia ter 30minutos a menos