quarta-feira, fevereiro 19, 2014

#11 - Ela (Her), de Spike Jonze

Faça um inventário sobre o que levar a uma ilha deserta. Duvido que algum dispositivo eletrônico de comunicação não estará entre os primeiros itens lembrados. Seria medo de não poder interagir com as pessoas que também têm medo de não poder interagir? O que a gente não percebe é que já vivemos em ilhotas, e justamente por conta daquilo que seria o primeiro item de nossos inventários.

Atualmente é assim: transeuntes de olhos vidrados em seus smartphones. As cavidades auriculares ocupadas por fones de ouvido. Em reuniões, mesas de bar, festas, jantares etc., privilegia-se o conforto da vida digital. Faltava alguém transformar essa tendência em argumento para cinema, tratando com certo lirismo essa condição humana que insiste em evitar o confronto da vida real. Ela é um filme doído sobre a solidão, sobre um certo escapismo diante das relações humanas tão complexas, tão diversas, tão cansativas. Vai muito além de uma história de amor, como sugere o cartaz.

Ninguém melhor que Spike Jonze, um cara que não tem medo de arriscar, para aplicar a linguagem cinematográfica ao tema. Seu belíssimo roteiro, ambientado em um futuro próximo, no qual as pessoas permanecem conectadas o tempo inteiro, conta a história de um homem que, após terminar um relacionamento, adquire um sistema operacional baseado em inteligência artificial. Opta por um OS feminino. Samantha, ela, assim chamada, tem sua própria personalidade, sendo capaz de tomar decisões e demonstrar reações a certas emoções. Em pouco tempo, a relação entre os dois cresce e se solidifica, puxando a reboque uma série de questionamentos pertinentes.

Se Denise está chamando, um filme subvalorizado de 1995, época em que as salas de bate-papo começavam a surgir, falava sobre a comodidade de usar o ambiente virtual para se proteger das cobranças e riscos das relações de carne e osso, Ela dá um passo à frente e reafirma a questão existencial envolvida na aparente comunhão, e consequente solidão, que a tecnologia pode oferecer. A solidão, inclusive, é mais um personagem inumano no filme de Jonze. Está presente em quase todos os planos, principalmente naqueles ambientados no apartamento do protagonista.

Joaquin Phoenix brilha no papel do protagonista, em uma atuação digna de ser premiada. Scarlett Johansson consegue, apenas com a voz, dar vida ao sistema operacional, o que só aumenta uma certa sensação de angústia no espectador, que também experimenta sua existência através de um espectro proporcionado pela tecnologia proposta pelo roteiro. A direção de arte, perfeita, ajuda bastante a dar ao futuro uma cara de presente assimilado, sem carros voadores, sem cores vibrantes, sem móveis com design futurista - o foco é, de fato, a tecnologia e seus desdobramentos.

Vale ressaltar também a belíssima trilha sonora do Arcade Fire, além da abertura ao som de "Off you", dos Breeders, cuja belíssima letra fala justamente sobre ilhotas onde as pessoas preferem se isolar para evitar a fadiga e o desgaste da vida em terra firme:

I've laid this island sun a thousand times
I'm on it but I'm going strange
This island's chills and shell cover me
With winded rock and skies I've yet to see.

A cena final é uma das mais bonitas dos últimos tempos, quando o homem consegue, sem aparelhos eletrônicos, ignorar os inventários para atravessar o deserto que pode ser a existência humana. Uma pequena pérola da sétima arte, a ser lembrada por muitas gerações. 

Parabéns, Jonze! O Oscar está chamando.

2 comentários:

Kamila disse...

Estou ansiosa para conferir este filme. Adorei sua resenha crítica, Dudu!

Luciano Andrade disse...

Eu gostaria de comentar logo depois de ver pois os neuronios estao aquecidos de opiniao....mas apenas agora li e agora comento do meu celular da minha ilhota q permite teclar de qualquer lugar. Otimo filme volto em breve para comentar do meu computador