quinta-feira, fevereiro 27, 2014

#15 - Trapaça (American hustler), de David O. Russel

É fácil definir Trapaça em apenas uma palavra: trapaça! É que eu detesto roteiros que abusam de reviravoltas para terminar fazendo pouco caso da inteligência do espectador. É isso que uma penca de sucessos hollywoodianos faz, é isso que Trapaça faz. Ludibria o público a todo instante para provocar aquela cara de espanto nos mais incautos - porque, convenhamos, dado o argumento do filme, e até seu título em português, é meio óbvio o que esperar.

Espia: o roteiro conta a história de um malandro que aplica pequenos golpes. Ao conhecer uma parceira tão malandra quanto ele, começam a ampliar os negócios. São descobertos pela polícia e acabam sendo forçados por um agente do FBI, cujos métodos são nada convencionais, a ajudar nas investigações e prisões dos peixes grandes de New Jersey.

Particularmente, nunca fui fã da direção de David O. Russel - para não ser tão radical, gosto muito de Huckabees. Mas se tem uma coisa que o cara sabe fazer é dirigir seus atores. Tiro o meu chapéu para ele. O mais bacana de Trapaça é ver os atores brilhando em interpretações irretocáveis. Christian Bale é um monstro na tela! Absolutamente entregue ao personagem. Amy Adams, toda trabalhada no decotão, abandona aquela cara de Madalena arrependida e arranca suspiros no papel de fêmea fatal. Para fechar o trio, Bradley Cooper, com bobes no cabelo, deixa de lado a aura de galã e arrebenta como o paladino da justiça.

Bem dirigido o filme é. Entretenimento, é também. Mas essa coisa de trapaça com reviravoltas, definitivamente, não funciona comigo.

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

#14 - 12 anos de escravidão (12 years a slave), de Steve McQueen

Indicado a nada menos que nove estatuetas do Oscar, o verdadeiro valor de 12 anos de escravidão passa longe da capacidade de entreter o espectador. Trata-se de um dos únicos e mais precisos relatos em primeira pessoa sobre ser um escravo. O filme do diretor britânico Steve McQueen se debruça sobre o livro de Solomon Northup, cuja veracidade já foi atestada por uma série de historiadores, para tratar um assunto amplamente visto na tela do cinema, mas poucas vezes filmado com tanta precisão.

Northup foi um negro nascido livre que vivia pacatamente no estado de Nova Iorque. Letrado, sabia tocar peças eruditas no violino, o que causava estranhamento na população estadunidense caucasiana do fim do século 19. Por isso mesmo, chama a atenção de artistas circenses, que oferecem a ele a oportunidade de excursionar com o circo e se apresentar para multidões. No entanto, Northup acaba sendo vítima de algo que se tornou comum naquela época: é sequestrado e tem sua identidade de homem livre aniquilada instantaneamente. O fato de tocar violino eleva seu preço de mercado. Acaba se tornando mais um escravo negro no sul dos EUA.

O filme mostra os 12 anos em que Northup comeu o pão que o diabo amassou nas mãos de senhores de terra incapazes de enxergar o horror da escravidão - ainda que demonstrassem compaixão em determinados momentos ou que fossem tementes a um deus que, segundo eles, não condena a posse de homens como propriedade. Apontavam, inclusive, passagens bíblicas que atestavam suas interpretações equivocadas.

Um excelente argumento. Um bom roteiro, com personagens e reviravoltas bastante interessantes. O problema no filme de McQueen é um certo exagero dramático que seus filmes anteriores, como Shame e Fome, não têm. Há muita música tristonha, uma enxurrada de frases de efeito e uma lição de moral desnecessária do personagem de Brad Pitt - que, além de herói, é nada menos que o produtor do filme. Em alguns países, inclusive, o poster de 12 anos de escravidão dá mais peso a seu personagem do que ao próprio protagonista.

Ainda assim, um bom filme. Um documento importante nesses dias atuais em que muita gente não vê nada de errado - muito pelo contrário, apoiam - em acorrentar um menor infrator negro, deixado nu, a um poste.

domingo, fevereiro 23, 2014

#13 - A hospedeira (The host), de Andrew Niccol

Pense num filme ruim pra caramba. A hospedeira é muito pior. Abriram o sinal do Telecine aqui em casa, o que significa, em certa medida, afirmar que abriram as portas do limbo cinematográfico, uma vez que para cada filme bom, outros 49 toscos são comprados e precisam ser exibidos. É assim que funciona o comércio televisivo de filmes.

A sinopse é até promissora. Uma raça (perdoe-me Lévi-Strauss, mas aqui usa-se o conceito interplanetariamente) de alienígenas chega a Terra para colonizá-la ocupando seus corpos. Eles têm como objetivo uma cultura de paz, mas no entanto substituem a consciência das pessoas, tornando-as inócuas. Por isso, são chamados de almas. Acontece que alguns humanos conseguem resistir a essa ocupação mental. Um deles é a protagonista, que convence a "alma" que comanda seu corpo a fugir e buscar abrigo na pequena resistência terráquea que se esconde no deserto.

Ficção-científica? Porra nenhuma, não se enganem! O resultado é constrangedor. Na verdade, A hospedeira é uma história de amor das mais cafonas - adaptada de um livro da mesma autora da série Crepúsculo, o que aos mais desavisados já serve de alerta. Nada funciona na adaptação para a tela grande. O roteiro tem crateras, e não buracos. A ação é inverossímil e os atores, em interpretações pífias, contribuem para o fracasso geral. A voz da protagonista em off, brigando com sua hospedeira para tomar determinadas atitudes, é um artifício que beira o patético.

O triângulo amoroso - quase quadrilátero - proposto pelo roteiro, aproveitando o fato de duas almas habitarem o mesmo corpo de uma mulher, são infantiloides e rasas. O desfecho é ridículo e previsível. Um filme completamente desnecessário, que vai fazer com que você perca quase duas horas que poderiam ter sido gastas de uma forma mais produtiva.

Evite.

quinta-feira, fevereiro 20, 2014

#12 - Nebraska, de Alexander Payne

Há muitas similaridades entre Nebraska e Paris, Texas - este, um dos meus filmes prediletos de todos os tempos. Talvez, por isso, tenha ficado completamente encantado com a produção dirigida por Alexander Payne - que não é lá um Wim Wenders, mas tem acertado nos últimos anos. Ao contar uma história que tem no título sua própria terra natal, ele empresta ao roteiro suas próprias lembranças para falar de como as reminiscências são tão indissociáveis do nosso caráter, daquilo que fomos e no que nos transformamos.

Assim como em Paris, Texas, o filme de Payne tem início com um homem desorientado caminhando pelo acostamento de uma rodovia. No caso, em Montana. Woody Grant é um senhor afetado pela senilidade que, ao receber pelo correio uma propaganda enganosa sobre um prêmio lotérico, insiste em ir até o Nebraska buscá-lo. A cidade fica a aproximadamente 2 mil quilômetros de distância de sua casa. Comovido pela obstinação do pai, mesmo sabendo que o prêmio não passa de uma armação, um de seus filhos resolve fazer a viagem de carro, na esperança de passar um tempo sozinho com o pai e tentar contornar os transtornos que sua condição causam a toda a família.

No longo caminho, a cada parada, Woody vai reencontrando seu passado, enquanto seu filho vai montando as peças de um quebra-cabeça que, ao final, vai dar a real dimensão sobre quem foi seu pai e como seus laços familiares e sociais foram construídos. Nebraska revela seu protagonista da mesma forma que Paris, Texas - lentamente, dolorosamente, paulatinamente. O que parecia ser uma simples história de um homem com a memória afetada pela idade se transforma em um complexo mosaico sobre como as tais memórias podem afetar as pessoas profundamente.

A trilha sonora de Nebraska, composta por Mark Orton, é linda! E contribui para reforçar o tratamento dramático que Payne planejou para o roteiro - da mesma forma que Ry Cooder foi preciso e indispensável para Wim Wenders ao compor uma das trilhas sonoras mais bonitas da história do cinema.

E mais: direção de atores perfeita, atuações impecáveis, fotografia em preto e branco, uma montagem caprichada... Enfim, um filmaço!

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

#11 - Ela (Her), de Spike Jonze

Faça um inventário sobre o que levar a uma ilha deserta. Duvido que algum dispositivo eletrônico de comunicação não estará entre os primeiros itens lembrados. Seria medo de não poder interagir com as pessoas que também têm medo de não poder interagir? O que a gente não percebe é que já vivemos em ilhotas, e justamente por conta daquilo que seria o primeiro item de nossos inventários.

Atualmente é assim: transeuntes de olhos vidrados em seus smartphones. As cavidades auriculares ocupadas por fones de ouvido. Em reuniões, mesas de bar, festas, jantares etc., privilegia-se o conforto da vida digital. Faltava alguém transformar essa tendência em argumento para cinema, tratando com certo lirismo essa condição humana que insiste em evitar o confronto da vida real. Ela é um filme doído sobre a solidão, sobre um certo escapismo diante das relações humanas tão complexas, tão diversas, tão cansativas. Vai muito além de uma história de amor, como sugere o cartaz.

Ninguém melhor que Spike Jonze, um cara que não tem medo de arriscar, para aplicar a linguagem cinematográfica ao tema. Seu belíssimo roteiro, ambientado em um futuro próximo, no qual as pessoas permanecem conectadas o tempo inteiro, conta a história de um homem que, após terminar um relacionamento, adquire um sistema operacional baseado em inteligência artificial. Opta por um OS feminino. Samantha, ela, assim chamada, tem sua própria personalidade, sendo capaz de tomar decisões e demonstrar reações a certas emoções. Em pouco tempo, a relação entre os dois cresce e se solidifica, puxando a reboque uma série de questionamentos pertinentes.

Se Denise está chamando, um filme subvalorizado de 1995, época em que as salas de bate-papo começavam a surgir, falava sobre a comodidade de usar o ambiente virtual para se proteger das cobranças e riscos das relações de carne e osso, Ela dá um passo à frente e reafirma a questão existencial envolvida na aparente comunhão, e consequente solidão, que a tecnologia pode oferecer. A solidão, inclusive, é mais um personagem inumano no filme de Jonze. Está presente em quase todos os planos, principalmente naqueles ambientados no apartamento do protagonista.

Joaquin Phoenix brilha no papel do protagonista, em uma atuação digna de ser premiada. Scarlett Johansson consegue, apenas com a voz, dar vida ao sistema operacional, o que só aumenta uma certa sensação de angústia no espectador, que também experimenta sua existência através de um espectro proporcionado pela tecnologia proposta pelo roteiro. A direção de arte, perfeita, ajuda bastante a dar ao futuro uma cara de presente assimilado, sem carros voadores, sem cores vibrantes, sem móveis com design futurista - o foco é, de fato, a tecnologia e seus desdobramentos.

Vale ressaltar também a belíssima trilha sonora do Arcade Fire, além da abertura ao som de "Off you", dos Breeders, cuja belíssima letra fala justamente sobre ilhotas onde as pessoas preferem se isolar para evitar a fadiga e o desgaste da vida em terra firme:

I've laid this island sun a thousand times
I'm on it but I'm going strange
This island's chills and shell cover me
With winded rock and skies I've yet to see.

A cena final é uma das mais bonitas dos últimos tempos, quando o homem consegue, sem aparelhos eletrônicos, ignorar os inventários para atravessar o deserto que pode ser a existência humana. Uma pequena pérola da sétima arte, a ser lembrada por muitas gerações. 

Parabéns, Jonze! O Oscar está chamando.

domingo, fevereiro 09, 2014

#10 - Arraste-me para o inferno (Drag me to hell), de Sam Raimi

Perdi a conta de quantas vezes eu vi Arraste-me para o inferno, mas sempre perdendo uma boa parte do filme por pegá-lo já na metade ou por ter de deixá-lo antes do fim - e é por isso que não assino canais de filmes a cabo, já que detesto assistir a filmes em doses homeopáticas. Domingão, nada para fazer, e pego o filme no começo na TV. Dessa vez fui até o fim - aliás, que fim!

Sam Raimi é figura querida entre os fãs do gênero. Tudo começou com A morte do demônio, de 1981. Um filme de baixo orçamento absurdamente bem feito, completamente diferente de tudo que havia sido feito até então. Era eletrizante, ousado, ligeiro, com doses certeiras de humor e sem tratar o espectador como um idiota inundando a tela com clichês. Seguiram-se outros dois filmes da franquia, então intitulados Uma noite alucinante. Duas pérolas que só confirmavam o talento de Raimi.

Em Arraste-me para o inferno, ele conta a história de uma jovem que tenta a todo custo ganhar uma promoção no banco em que trabalha. Ao negar a negociação de uma hipoteca a uma velha senhora cigana, sua vida se transforma num inferno. É vítima de uma maldição que, para ser quebrada, vai exigir muitos sacrifícios.

O filme tem tudo o que os fãs do gênero adoram: sustos, reviravoltas, cenas grotescas, humor de gosto duvidoso etc. Com alguns extras que só um grande diretor pode oferecer: edição certeira, montagem ligeira, tomadas de câmera bem estudadas, planos bem bolados e uma direção de atores realmente eficaz. Estão lá, também, vários elementos e inúmeras referências de sua franquia de maior sucesso.

É cinema de horror-entretenimento de melhor qualidade, como poucos sabem fazer.

sábado, fevereiro 08, 2014

#9 - Os amantes passageiros (Los amantes pasajeros), de Pedro Almodóvar

Não ouso aqui dizer que Os amantes passageiros é um filme de férias de Almodóvar. Está mais para uma volta ao que o cineasta espanhol fazia no início de carreira, que foi o bastante para chamar a atenção de espectadores do mundo inteiro. Aqui, ele se permite exercitar seu lado imaginativo sem buscar reflexões ou propor temáticas complexas. É o mais puro exercício de entretenimento cômico. Bons tempos, hein Almodóvar?

Desde Carne trêmula, Almodóvar não fazia um filme leve, engraçado do início ao fim. De Kika para baixo, sua filmografia era tipicamente, digamos, espanhola - uma espécie de Carlos Saura kitsch. Suas primeiras obras tinham as cores que saltavam aos olhos, os diálogos verborrágicos, os trejeitos exagerados e as indumentárias excêntricas. E sempre aquele senso de humor ácido, sarcástico, caótico. O cineasta ganhou os festivais,  ganhou o mundo, ganhou admiradores e passou por um profundo amadurecimento cinematográfico. As cores, os diálogos, os trejeitos e as indumentárias ainda estavam lá. O que mudou foi a forma de agrupá-los. Ou seja, a montagem ficou mais sóbria, mais artística, com um argumento objetivo.

Aqui, ele dispensa os roteiros bem engendrados, mas não abre mão de contar uma história bastante divertida (e no fim das contas, cinema é um dos melhores suportes para se contar uma história). Um grupo de pessoas a bordo de um avião, cujo trem de pouso está danificado, precisa lidar com a incerteza de seu futuro: será que o avião vai pousar em segurança? Haverá feridos? Quem conseguirá escapar? Para piorar - ou melhorar - uma das passageiras é vidente. É pano para manga, e Almodóvar sabe costurá-lo como ninguém. Destaque para o elenco, fantástico, com participações especiais de dois atores que sempre ajudaram o diretor a dar passos à frente na carreira: Penélope Cruz e Antonio Banderas.

É perfeitamente compreensível que muita gente que curta o trabalho de Almodóvar não tenha gostado do filme. Provavelmente, se acostumaram a um cineasta mais denso. Estar diante de um trabalho que tem as características típicas da primeira fase, se assim pudermos definir o período de tempo que vai até Kika, pode causar um certo estranhamento. Afinal, estavam todos acostumados a ficar comentando suas obras durante a semana toda, dada a complexidade dos argumentos de Carne Trêmula em diante.

Mas há também quem enxergue em Os amantes passageiros um momento no qual as reminiscências de uma grande mente criativa transbordem de forma arrebatadora. Sempre afirmei, aqui, que Almodóvar pagou um preço, ainda que não muito caro, por sua maturidade cinematográfica. Ganhou respeito e profundidade, mas perdeu um pouco da espontaneidade e da ousadia estética, aquelas descompromissadas com o métier artístico.

Talvez Os amantes passageiros cause menos frisson porque o mundo mudou bastante desde 1993. Homossexualidade, drogas e sexo espalhafatoso já não são assuntos tão espinhentos. Mas provou que uma coisa continua a mesma: o talento de Almodóvar continua latente, mesmo quando ele se permite ser maravilhosamente superficial.