quinta-feira, janeiro 02, 2014

#1 - Azul é a cor mais quente (La vie d'Adèle), de Abdellatif Kechiche

O vencedor da Palma de Ouro do ano passado é um filme tenso e, de certa forma, frio. Em Azul é a cor mais quente, o cinema francês volta a se firmar como um polo de experimentação cinematográfica - a saber, faz do sexo um exercício quase explícito para dar à narrativa um ar naturalista. Ao invés da sensualidade, abre espaço somente para a sexualidade. No caso, a homossexualidade.

O roteiro conta a história de Adèle, uma jovem de 15 anos que começa a questionar suas opções sexuais. Depois de conhecer uma mulher mais velha - e mais madura - de cabelos tingidos de azul, ela passa a se descobrir e se afirmar como mulher. Ao longo da trama, o relacionamento entre as duas tem seus altos e baixos. E aí é que o diretor Abdellatif Kechiche, um cara dado à argumentos com profundidade, acerta em cheio.

As longas cenas de sexo entre as duas moçoilas são mais tensas do que eróticas. Há gritos, suor, gemidos e até tapinhas na bunda. Muita língua, muitos dedos e aquela fome de engolir o outro. O sexo é feito com intensidade, voracidade e energia. É impressionante. Uma dessas cenas, inclusive, levou nada menos que 10 dias para ser filmada.

Esse tratamento naturalista está presente até mesmo quando as atrizes estão vestidas. Kechiche deixava a câmera ligada seguindo a atriz Adèle Exarchopoulos, homônima da protagonista, em seu dia a dia. Filmava de tudo: do ônibus a caminho do set de filmagem à soneca nos intervalos de filmagem.

O último terço do filme é intenso, cruel e niilista, um verdadeiro ensaio sobre o amor e os desdobramentos do desejo - com o agravante da imposição cultural por um modelo de conduta sexual. Nisso, o cabelo azul se faz presente marcando a todo instante uma diferença que é visível a olho nu.

Vale reiterar que Azul é a cor mais quente é um filme frio. A protagonista, seguindo a clássica escola francesa, é fria. Os cenários são frios. As cores são frias. As sequências são tão pouco preocupadas em ser quentes que, mesmo com toda a nudez, nem ao menos a pergunta de uma personagem é respondida:

"Ela também pinta os pentelhos de azul?"

Um comentário:

Kamila disse...

Estou bem ansiosa para conferir este filme, que tem sido muito bem resenhado entre os colegas.