terça-feira, janeiro 21, 2014

#8 - Ninfomaníaca vol. 1 (Nymphomaniac vol. 1), de Lars Von Trier

O que mais se fala por aí é que foi uma baita de uma patifaria ter dividido Ninfomaníaca, a nova provocação de Lars Von Trier, em dois volumes. O que pouca gente lembra é que estamos diante de um diretor que tem a plateia nas mãos - e gosta disso. A mim, ao que tudo indica, estamos diante de mais uma jornada que vai nos retirar da zona de conforto. E a prova disso é, justamente, o comportamento da maioria das pessoas ao ver as "cenas dos próximos capítulos" que Von Trier malandramente projeta durante os créditos finais. Todo mundo desconfortável com a situação. Todo mundo concordando que o volume 2 tem tudo para ser sinistro - o predicado que mais combina com o enfant terrible dinamarquês.

Durante o volume 1, acompanhamos os primeiros anos da vida de Joe, a tal ninfomaníaca do título. Após ser encontrada desacordada e machucada em um beco escuro por um senhor aparentemente bonzinho - será que é mesmo? -, ela conta sua história a ele em detalhes, usando sempre como ponto de partida objetos de estima do dono da casa - o que me causa um certo estranhamento e me sugere algo que pode estar por vir no próximo volume.

Não restam dúvidas de que estamos diante de uma obra diferenciada. Von Trier tem grife, assinatura, rubrica, estilo ou seja lá o que se pode chamar essa certeza de estarmos diante de um filme dele. O cara domina a montagem e tem plena consciência do que pode fazer com a linguagem cinematográfica. 

Por exemplo (vou fazer que nem ele e enumerar)...

1 - A clássica estrutura narrativa. O filme é dividido em capítulos, contado em primeira pessoa, com inserções atemporais e pequenos desvios narrativos

2 - Predominantemente, ele filma o sexo como algo chulo. Foi assim em Os idiotas, por exemplo. Foi assim em Dogville também. É assim em Ninfomaníaca. Foda-se se vai estar enquadrado na tela um pinto com fimose. Que se dane se tem um boquetinho. Nem liga se a menina cospe esperma. Não é assim mesmo?

3 - Há sequências de rara beleza, como a abertura, na qual os pingos de chuva formam sons polifônicos. Ou então, cenas geniais, na qual essa mesma polifonia é dissecada em timbres e movimentos. Há até espaço para leveza, como na hora em que a protagonista perde a virgindade.

4 - Von Trier sabe dirigir atores como ninguém. As participações de Christian Slater e Uma Thurman, apesar de curtas, são impagáveis, irretocáveis, fabulosas!

5 - A cinematografia é redonda, com diferentes câmeras atuando como distintos marcos narrativos. Câmera na mão quando é o passado, câmera estática quando é o presente.

Bom, ninguém curte um coito interrompido. E é justamente isso que esse volume 1 propõe. Lars Von Trier é ou não é o cara? Respeita o moço. Patente alta, dá aula, é bigode grosso.

Aguardemos o volume 2.

sexta-feira, janeiro 17, 2014

#7 - Antes da meia-noite (Before midnight), de Richard Linklater

A trilogia de Richard Linklater fez sucesso. Demorou 18 anos para que o diretor a fechasse - e é este o mesmo intervalo de tempo que os roteiros percorrem junto aos personagens. Em Antes da meia-noite, o casal Ethan Hawk e Julie Delpy já tem duas gêmeas, e o rapaz, agora um escritor bastante famoso, precisa rebolar para se sentir menos culpado por não dar tanta atenção ao filho do primeiro casamento. É justamente esse fato que norteia os intermináveis diálogos do filme de Linklater.

Pode até parecer que a direção é naturalista e aceita o improviso. Errado. As linhas e mais linhas de diálogos foram exaustivamente ensaiadas. Logo, é ponto para os atores, que deixam o argumento fluir de modo bastante realista. O problema é o conteúdo dessas conversas. O filme acaba virando uma espécie de reality show, mas com gente mais interessante, obviamente. Mesmo assim, com conteúdo, são quase duas horas de poucos planos e muita fala. Fala-se inglês, francês, grego... Tem gente bonita (um casal fofo), paisagens estonteantes (o filme é ambientado na Grécia), comida farta (dieta mediterrânea) etc. Durante dois terços de projeção, é só isso.

É só durante o terço final do filme, quando realmente o argumento apresentado no início é posto à prova, que a coisa fica verdadeiramente interessante. Os atores se superam, os diálogos prendem o espectador e Linklater mostra por que é um bom diretor.

Só não precisava demorar tanto para chegar nessa parte.

quarta-feira, janeiro 15, 2014

#6 - Bling Ring - A gangue de Hollywood (Bling Ring), de Sofia Coppola

Faz tempo que Sofia, a filha de Francis, não entrega um filme realmente à altura da alcunha familiar. Desta vez, a diretora leva as telas uma história real adaptada a partir de uma matéria escrita para a famosa revista Vanity Fair - uma espécie de periódico de fofoca para os bem vestidos (fashionistas, me xinguem) - sobre um grupo de jovens mimados e bem nascidos que roubava as mansões de astros de Hollywood enquanto eles estavam fora.

A ação toda era facilitada pela mídia que segue os passos dos famosos. Bastava a um dos cabeças da gangue entrar no Google para achar um website que não só indicava o endereço das vítimas, como também expunha de forma assoberbada suas agendas. Os objetos a furtar eram sempre os mesmos: joias, carros, vestidos, sapatos, relógios e qualquer outra coisa de grife.

A pergunta, Sofia Coppola, é por que cargas d'água a senhora resolveu filmar isso?

Tecnicamente, verdade seja dita, é possível perceber durante a projeção de Bling Ring que Sofia tem o que é preciso para um bom cineasta. A edição é boa, há planos bem bolados e a trilha sonora funciona. No entanto, o argumento falha bisonhamente, grotescamente, pateticamente, em apresentar uma critica ao star system hollywoodiano. A cena que tenta fazer isso, lá pros minutos finais, é constrangedora - tanto na interpretação de Emma Watson, ela mesma vítima do tal star system criticado, quanto no diálogo pífio e acadêmico que se segue.

Pra que isso, Sofia?

domingo, janeiro 12, 2014

#5 - Vovô sem vergonha (Bad grandpa), de Jeff Tremaine

Digam a verdade > vocês não teriam vergonha de ver um filme chamado Vovô sem vergonha? Mas aí eu devo alertá-los da origem do personagem - e talvez vocês mudem de ideia. Em alguns episódios de Jackass, havia uma esquete em que uma velhinha deixava todo mundo apavorado em cenas constrangedoras. Deixava um peito caído aparecendo no meio da rua, fazia gestos obscenos etc. Por trás da maquiagem, estava ninguém menos que o diretor Spike Jonze.

Eis que, pouco tempo depois, a esquete ganhou repercussão. Pensando nisso, Jonze se reuniu com  Johnny Knoxville para escrever um roteiro no qual o ator iria encarnar um velhinho tão inconveniente e tresloucado quanto a senhora daquela esquete. O resultado é esse filme, de pouco mais de uma hora e meia, cuja narrativa mistura um pouco de ficção com as já famosas "pegadinhas" no melhor estilo Jackass.

Diz o roteiro que o vovô precisa levar seu netinho - interpretado pelo excelente Jackson Nicoll - para viver com o pai, que lhe caga um balde e vive do outro lado dos Estados Unidos, depois que a mãe vai para a cadeia. Durante o percurso, são engendradas as gags que deixam de cabelo em pé transeuntes desavisados. Nota: em nenhum momento os atores deixam terceiros diante de situações perigosas, como fazem comumente entre si nos episódios de Jackass.

Nós, brasileiros, acostumados com João Kléber, Sérgio Mallandro, Gugu Liberato e afins, sabemos que tudo pode ser uma mera armação. Ainda mais quando há enquadramentos por todos os lados e os rostos das pessoas envolvidas não estão embaçados, possibilitando identificação. Pois, os produtores encontraram, durante os créditos finais, uma excelente maneira de resolver a questão, mostrando que, de fato, ninguém sabia que estava sendo filmado. Ponto para eles.

Um filme honesto. Boas risadas e uma espetacular, maravilhosa e estupenda cena final, na qual o pequeno Nicoll rouba a cena e faz uma paródia da Pequena Miss Sunshine da vida real. Uma sequência que vale pelo filme todo. É de chorar de rir!

terça-feira, janeiro 07, 2014

#4 - Eu e você (Io e te), de Bernardo Bertolucci

Podem chamar de implicância mesmo, mas Bertolucci não desce bem. E nem adianta vir com O último tango em Paris, Beleza roubada ou Sonhadores - muito menos O pequeno Buda. Não gosto da maneira como ele conta suas histórias. Não gosto do jeito que ele edita seus filmes. Não gosto de como ele dirige seus atores (e aqui, inclusive, ele desperdiça a presença de Pippo Delbono, um monstro). Mas ele sempre acerta nas trilhas sonoras.

Eu e você passou voando pelo circuito carioca. Não chamou atenção nem pelo fato de ser o mais novo filme assinado por Bertolucci em quase uma década. O roteiro fala de um jovem de 14 anos que prefere ficar trancado no porão, sozinho, ao invés de viajar para uma estação de esqui com a escola. Ele precisa passar uma semana se escondendo da mãe e dos conhecidos do bairro. Até que...

Bom, se eu escrever aqui o que acontece, o filme perde a graça, porque, além da situação que se dá logo no início da projeção, nada acontece. Nada. Não há conflitos, não há reviravoltas, não há bons diálogos, não há boas sacadas. Nada. Há, lá no começo, uma cena bizarra e deslocada na qual o garoto pergunta para a mãe se ela faria sexo com ele caso os dois fossem os únicos sobreviventes de um desastre planetário. É, Bertolucci! Assim fica difícil...

Ah, mas a trilha sonora é ótima! Tem Cure, Arcade Fire, David Bowie e Red Hot Chilli Peppers.

domingo, janeiro 05, 2014

#3 - A parte dos anjos (The angels' share), de Ken Loach

Eu sempre defendi a ideia de que todo grande diretor precisa de um filme de férias. Um descanso para as cabeças profícuas dos mestres da sétima arte. Produções despretensiosas, simples, quase bobinhas, para passar o tempo mesmo - trocando em miúdos, cinema pipoca feito para o entretenimento. Ken Loach não podia fugir da regra. Sendo assim, A parte dos anjos é o seu filme de férias.

Ambientado na Escócia, e com aquele divertido sotaque carregado, o roteiro conta a história de Rob, um sujeito que é preso após agredir brutalmente um jovem. Libertado e prestes a ser pai, ele tenta colocar a vida nos trilhos, mas precisa a todo o instante enfrentar conflitos ligados a seu passado criminoso. É quando visita uma destilaria (daí o título, que faz referência a uma pequena porção do uísque que evapora de cada barril) que descobre um dom especial. Caberá a ele decidir como usá-lo > para o bem, ou para o mal.

O filme de férias de Ken Loach é bacana. Bem construído, com boas atuações e uma pitada certa de comédia em cima de um drama que não chega nunca a cair em exagero. O diretor esquece por cerca de hora e meia de projeção seu viés político. Inclusive, o desfecho é a prova de que nada ali estava sendo levado tão a sério a ponto de lembrarmos de suas obras anteriores, cheias de profundidade.

Melhor do que muito filme sério de alguns cineastas que se levam a sério.

sábado, janeiro 04, 2014

#2 - Frances Ha, de Noah Baumbach

As comparações serão inevitáveis. Frances Ha é uma espécie de Woody Allen de calcinhas. Impossível não lembrar de Manhattan. É aquele argumento típico: gente boa tentando viver de arte, buscando resolver suas relações afetivas, em meio a bloqueios criativos e incertezas sobre o futuro. Tudo isso diante do caos convidativo e, por que não?, charmoso, de uma Nova York que se transforma em personagem coadjuvante.

O roteiro, assinado por Greta Gerwig, a protagonista, em parceria com o diretor Noah Baumbach, um cara dado a contos ambientados na Big Apple, conta a história de uma jovem que divide o apartamento com a melhor amiga desde os tempos de faculdade. Seu sonho é entrar para o corpo de uma companhia de dança. Recém-solteira, ela passa por situações inusitadas, tanto cômicas quanto dramáticas, em busca de autoafirmação.

Estão lá os padrões e as referências culturais eruditas típicas dos filmes de Allen. Tem um pouco de Proust, uma pitada de Paris, artistas desfilando em flats modernos e filósofos convidados para jantares informais. Porém, justiça seja feita, Baumbach sabe quebrar os estereótipos, fazendo com que a protagonista nunca leve tão a sério esse mundo novaiorquino que Allen tanto faz questão de enaltecer - e, cabe dizer, o enaltece para o bem e para o mal.

Não há como negar que, apesar de ser um filme debruçado e fechado na cultura novaiorquina, é muito fácil gostar de Frances Ha. Simples, despretensioso e leve. Divertido no ponto certo, sem cair em pedantismo - o que é muito fácil quando se filma Nova York em preto e branco. Gerwig se apoia em uma partitura corporal que dá leveza ao filme. Sua personagem vive um paradoxo curioso. Seus predicados não são bem os que se esperam de uma bailarina: ela é grande, desastrada, verborrágica e meio desligada.

Muito bacana, já nos segundos finais de projeção, a explicação para o título Frances Ha. Uma bela sacada que dá um ar ainda mais simpático ao filme.

quinta-feira, janeiro 02, 2014

#1 - Azul é a cor mais quente (La vie d'Adèle), de Abdellatif Kechiche

O vencedor da Palma de Ouro do ano passado é um filme tenso e, de certa forma, frio. Em Azul é a cor mais quente, o cinema francês volta a se firmar como um polo de experimentação cinematográfica - a saber, faz do sexo um exercício quase explícito para dar à narrativa um ar naturalista. Ao invés da sensualidade, abre espaço somente para a sexualidade. No caso, a homossexualidade.

O roteiro conta a história de Adèle, uma jovem de 15 anos que começa a questionar suas opções sexuais. Depois de conhecer uma mulher mais velha - e mais madura - de cabelos tingidos de azul, ela passa a se descobrir e se afirmar como mulher. Ao longo da trama, o relacionamento entre as duas tem seus altos e baixos. E aí é que o diretor Abdellatif Kechiche, um cara dado à argumentos com profundidade, acerta em cheio.

As longas cenas de sexo entre as duas moçoilas são mais tensas do que eróticas. Há gritos, suor, gemidos e até tapinhas na bunda. Muita língua, muitos dedos e aquela fome de engolir o outro. O sexo é feito com intensidade, voracidade e energia. É impressionante. Uma dessas cenas, inclusive, levou nada menos que 10 dias para ser filmada.

Esse tratamento naturalista está presente até mesmo quando as atrizes estão vestidas. Kechiche deixava a câmera ligada seguindo a atriz Adèle Exarchopoulos, homônima da protagonista, em seu dia a dia. Filmava de tudo: do ônibus a caminho do set de filmagem à soneca nos intervalos de filmagem.

O último terço do filme é intenso, cruel e niilista, um verdadeiro ensaio sobre o amor e os desdobramentos do desejo - com o agravante da imposição cultural por um modelo de conduta sexual. Nisso, o cabelo azul se faz presente marcando a todo instante uma diferença que é visível a olho nu.

Vale reiterar que Azul é a cor mais quente é um filme frio. A protagonista, seguindo a clássica escola francesa, é fria. Os cenários são frios. As cores são frias. As sequências são tão pouco preocupadas em ser quentes que, mesmo com toda a nudez, nem ao menos a pergunta de uma personagem é respondida:

"Ela também pinta os pentelhos de azul?"