terça-feira, setembro 30, 2014

#28 - Tudo por um furo (Anchorman 2 - The Legend Continues), de Adam McKay

Taí um filme que deveria entrar na ementa de todos os cursos de Jornalismo. Veja bem o que escrevi. Por mais que soe como um disparate, é a mais pura verdade. E repito, aqui dando nome aos bois: Tudo por um furo, uma comédia estadunidense paspalhona, deveria entrar na ementa de todos os cursos de Jornalismo ao redor do mundo. Motivo? Porque a maioria de nós, jornalistas, é incapaz de criticar com razão e serenidade o jornalismo que pratica, quiçá fazer uma autocrítica contundente.

O filme é a continuação de O Âncora - A Lenda de Ron Burgundy, outra bobeira sem tamanho, mas que rende boas risadas - em grande parte por conta do elenco, que tem Will Ferrell, Paul Rudd e Steve Carell como os jornalistas tresloucados, amorais e de índole duvidosa. O que a franquia fez, desde o primeiro filme, foi tirar proveito desse famoso estereótipo que inunda produções de outros gêneros. Acreditem, já vi até filme erótico com jornalista inescrupuloso.

Pois bem, eu trabalhei com jornalismo televisivo por cerca de oito anos (entre idas e vindas) na maior rede de televisão do país. E o que o filme faz com brilhantismo, que funciona melhor do que qualquer piada, é mostrar como o tal jornalismo de hard news, que "não desliga nunca", se apoia num discurso sensacionalista pobre, raso, vazio e supérfluo. Todos os clichês dessa seara são sumariamente desnudados e devidamente esculachados.

Ao longo da projeção, as piadas estão lá, em seus devidos lugares. São boas, funcionam. As caracterizações também são bacanas. Afinal, os caras têm o timing da comédia. A cena na qual Ferrell faz seu pequeno aquecimento vocálico durante a escalada de notícias, momento tenso num estúdio de telejornal, é impagável. O roteiro mostra como a ideia de um canal com notícias 24 horas por dia soava patética na década de 70. E como, numa sociedade em que formadores de opinião têm opiniões canhestras, a falta de pauta rende audiência. O ápice dessa mixórdia toda é a sequência que demonstra como a primeira perseguição a um carro fugitivo foi cunhada.

Talvez quem tenha vivido a época em que a Veja tinha algum resquício de credibilidade, em que o Jornal do Brasil era o abrigo dos vanguardistas e em que âncoras de telejornais não eram pautados por interesses de lideranças religiosas vá entender o que quero dizer quando afirmo que o filme tem lá sua importância.

Saudades do jornalismo. Saudades da linguagem referencial Saudades da apuração.

quinta-feira, setembro 25, 2014

#27 - Círculo de fogo (Enemy at the gates), de Jean-Jacques Annaud

Depois de ler o estupendo - e indispensável, aos entusiastas do tema - relato do jornalista Vasily Grossman sobre a Segunda Guerra Mundial - Um escritor na guerra, editado aqui no Brasil pela Objetiva -, fica difícil engolir a maioria das adaptações cinematográficas sobre esse período da História. Inclusive, aquelas com a temática dos snipers, os famosos atiradores de elite alçados ao estrelato pelo Exército Vermelho como estratégia de propaganda bélica. É aí que Círculo de fogo se situa, mas para contar a história de um atirador que não foi o que Grosman retratou.

O filme de Annaud trata da participação de Vassili Zaitsev, o escolhido pelo governo russo, na conturbada Batalha de Stalingrado - a saber, um conflito que transformou a cidade que levava o nome de Stalin em um verdadeiro inferno, onde a neve era devastadora, a fome era uma constante e lama e sangue se confundiam no solo contaminado pelos corpos em putrefação.

E aí, o que você vai ver em Círculo de fogo é um Jude Law galante, de cabelo bem penteado e falando um inglês com sotaque britânico (bom, o cara é inglês, né?), em cenas de câmera lenta, com música incidental, tomando para si a árdua tarefa de dar um fim aos soldados alemães. Até que um sniper nazista, com um inglês de sotaque estrangeiro carregado, chega para tentar botar uma bala em sua cabeça. E aí começa um jogo de gato e rato - só que monótono até o talo. Tão monótono quanto aquele capítulo do seu livro de História da sétima série sobre a Segunda Guerra Mundial.

O tal inferno descrito por Grossman passa longe.

Será que poderia ter sido diferente? Um pouco mais realista, um pouco menos romanesco? Pois dois diretores tinham como projeto filmar a Batalha de Stalingrado e seus snipers. Ninguém menos que Serguei Eisenstein e Sergio Leone. Agora, imaginemos um filme sobre snipers dirigido por Leone. E imaginemos um filme sobre Stalingrado dirigido por Eisenstein.

Jean-Jacques Annaud vai ter que me desculpar.

Vale ressaltar que, de acordo com os relatos de Grossman, havia um atirador cuja trajetória foi bastante interessante, mas que não ganhou o mesmo tratamento por conta da perseguição do governo russo ao repórter (cujos textos para o Estrela Vermelha, o jornal do exército, eram de uma imparcialidade que incomodava os chefões). Ele se chamava Anatoly Tchekhov, um adolescente que pouca experiência tinha com armas e guerras, mas que era implacável na "caça" aos alemães. Uma trajetória, talvez, mais interessante para ser retratada numa tela de cinema.

domingo, agosto 31, 2014

#26 - Tentativa de abertura (Essai d'ouverture), de Luc Moullet

A Nouvelle Vague alçou ao estrelato realizadores consistentes, como Godard, Truffaut, Resnais e Chabrol. Um dos membros dessa turma, no entanto, saiu pela tangente e transformou seu trabalho em algo mais experimental, quase um outro tipo de vanguarda. Luc Moullet, talvez sem ter consciência disso, flertava com o que mais tarde seria solidificado e rotulado como videoarte (para poder caber dentro de uma caixinha). Além de diretor, Moullet sempre foi ensaísta e crítico bastante influente, com dezenas de textos não só sobre a estética, mas também sobre a técnica cinematográfica.

Seus filmes, sem a pretensão de atingir os circuitos comerciais, trazem um humor ácido e ousado que faz pouco caso da sociedade de consumo - inclusive, da sociedade que consome o cinema como mero produto. Seu trabalho mais famoso, Brigitte e Brigitte, de 1966,  mostra a dura vida de duas estudantes universitárias da Sorbonne, criticando o culto ao luxo francês e o contrastando com uma miséria, econômica e intelectual, que é varrida para debaixo do tapete. Em Anatomia de uma relação, Moullet faz um pseudo-documentário sobre seus problemas sexuais com sua esposa. Catracas, um curta que fez estardalhaço nos cinemas parisienses no início da década de 80, ensina uma técnica quase artística para adentrar o metrô sem um bilhete.

Desconhecido no Brasil, e escrevo isso com um lamento profundo, um de seus curtas mais bacanas é, sem dúvida, Tentativa de abertura. Durante cerca de 15 minutos, Moullet tenta achar a técnica ideal para abrir uma garrafa de Coca-Cola - uma daquelas da época em que as tampas eram feitas de um alumínio perigoso. Tenta de tudo, do convencional ao surreal. Reflete o cineasta, em determinado momento, exausto pela força aplicada na garrafa:

"Se os homens adoram o álcool, mulheres e crianças preferem Coca-Cola. Mas elas só podem ser abertas por homens. Contradição?"

O lugar da obra de Moullet desafia as tais caixinhas. Nos cinemas, nos museus, nas prateleiras? Profícuo, seu cinema continua entretendo e desafiando todo mundo a pensar um pouco mais sobre o que é a linguagem cinematográfica e quais as suas possibilidades. Um cinema de arte completamente diferente do que o cinema de arte normalmente é.

E como eu sou bonzinho, taí o curta em duas partes! Quer dizer, mais ou menos bonzinho, porque não tem legenda. Mas elas estão disponíveis por aí para serem baixadas. Divirtam-se!


                                          



quarta-feira, agosto 27, 2014

#25 - O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel), de Wes Anderson

Indiscutivelmente, goste você ou não do trabalho do cara, Wes Anderson tem grife. Seus filmes são  inconfundíveis - tanto no aspecto estético, quanto na estrutura narrativa. Aqui, a opinião é de alguém que gosta, e muito, do que ele faz. É um sujeito que sabe, como poucos, usar a linguagem cinematográfica para contar boas histórias.

O fabuloso (na melhor acepção da palavra) roteiro conta a história de ascensão e queda do hotel que dá nome ao filme, o Grande Hotel Budapeste. Quem descreve suas reminiscências sobre o lugar é Moustafa, ex-gerente do local, que começou sua carreira no ramo hoteleiro como handyman sob tutela do então chefão M. Gustave, magistralmente interpretado por Ralph Fiennes.

Novamente, as cores e as texturas saltam aos olhos. Um primor a direção de arte, um absurdo a cenografia, uma formosura a trilha sonora e uma graça o figurino.

- Ah, mas você não disse que cinema é contar história? Isso aí é tudo técnico... - dirão os mais enfastiados.

Pois, tire tudo isso e ainda há, escancarada na tela, uma história cativante, criativa, cheia de detalhes pitorescos e repleta de fantasia. Sem lições de moral, sem clichês, sem concessões a investidores. É cinema puro e aplicado, livre. Além disso, o nível de, digamos, "acabamento humano", é digno de nota > personagens inverossímeis, que ganham corpo por interpretações dedicadas e pela direção de atores perfeita de Anderson.

Uma experiência. E em sua essência, é pra isso que serve o cinema, entende?

#24 - Blackfish, de Gabriela Cowperthwaite

Em 1977, muitas crianças ficaram definitivamente com medo de entrar no mar para dar um mergulho. Também, pudera: não bastasse o Tubarão de Spielberg, ganhava as telas mais um clássico do gênero, Orca - a baleia assassina. A produção de baixo orçamento elevou ao status de predador voraz o mamífero, que passou a ser um animal admirado pelos humanos.

O resultado disso foi a criação de parques temáticos onde o bicho era exibido, colocando os visitantes diante de uma espécie de experiência aterrorizante e maravilhosa. Era possível treinar as baleias - vislumbraram alguns ditos especialistas no assunto. Não demorou muito e, na Califórnia, surgiu o primeiro parque no qual uma orca era exibida. E não demorou muito, também, para que o primeiro ataque ao treinador acontecesse - uma vez que as consequências do cativeiro foram ignoradas.

Anos após o acidente, mesmo sob avisos, o então recém-aberto Sea World resolveu comprar a "baleia assassina" para ser a pareadora dos animais de seu parque. Sob a alegação de que o cativeiro é necessário para preservar a espécie e aproximar o homem do animal, os show continuam até hoje. No entanto, agora, e há pouco tempo, sem a interação física entre treinador e baleia.

Blackfish, indicado ao Oscar de Melhor Documentário, investiga e questiona a necessidade dos shows com baleias, e mostra como é difícil transpor a barreira cultural que foi solidificada pela indústria do entretenimento. O material de apoio é bastante rico. Você vai ver cenas reais e angustiantes de treinadores sendo atacados pelas baleias, estressadas pelo cativeiro e por suas péssimas condições de infraestrutura. Além disso, biólogos e ex-treinadores dão seus testemunhos - a favor e contra o Sea World.

Você vai pensar duas vezes antes de aplaudir uma baleia pulando numa piscina diante de uma arquibancada cheia.

sábado, julho 19, 2014

#23 - Rambo IV, de Sylvester Stallone

Mais um filme do Rambo - sim, eu vi. Décadas após o lançamento do primeiro filme da franquia, Stallone voltou à direção e à roteirização para contar o que aconteceu com o ex-combatente de guerra rebelde que já desertou, lutou junto aos afegãos (os mesmos que anos mais tarde organizaram o Talibã e atacaram os EUA - só que aí, na vida real) e que agora vive perto de um dos países mais pobres do mundo, Myanmar, outrora conhecido como Burma.

Neste filme, um John Rambo no auge de seus 60 e tantos anos, mas forte que nem um cavalo (vocês se lembram daqueles anabolizantes com os quais ele foi preso num aeroporto na Austrália? Pelo visto funcionam mesmo), vive feito um ermitão na selva tailandesa, sob a fama de ser um homem violento, frio e calculista, sem medo de correr riscos. A tranquilidade do local é quebrada pela chegada de um grupo de missionários religiosos que quer ir até Myanmar levar a palavra de deus aos moradores do local, assolados por uma guerra civil. Depois de muito cu doce, Rambo aceita levá-los, mas só porque fica apaixonado por uma das missionárias - obviamente, uma loura estonteante.

Bom, a história se desenvolve na pegada de sempre. Os missionários, que querem paz e por isso são tratados pelo roteiro de Stallone como um bando de panacas, acabam sendo capturados pelos homens maus, maus mesmo, que falam uma língua estranha e são indistinguíveis uns dos outros por usarem a mesma roupa e o mesmo corte de cabelo. O líder dos homens maus é tão mau, que é também um pederasta que abusa de meninos incautos.

A única coisa bacana do filme de Stallone é que ele parece ter cagado um balde para as críticas que sabia que iria receber. O que se vê na tela é uma carnificina sem tamanho. São 90 minutos de tiroteios, explosões, facadas e mutilações, filmadas de uma forma que não se viu nos outros filmes da franquia.

Fica a pergunta: será que Stallone vai ter coragem de lançar um Rambo V?

E os afegãos...


quinta-feira, maio 01, 2014

#22 - Only lovers left alive, de Jim Jarmusch


É fantástico para alguém que adora cinema poder conferir um filme novo de um dos seus diretores prediletos. No meu caso, Jim Jarmusch está no top 3. Em Only lovers left alive ele mantém a aura underground que o consagrou como um grande realizador do cenário independente - a mesma que ainda faz com que muita gente classifique seus filmes como produções excêntricas, numa demonstração de reducionismo que dá força ao esvaziamento do cinema como suporte para contar boas histórias, tratando-o meramente como aporte para gerar lucro. Ainda bem que Jarmusch não liga para isso.

Aqui,ele conta a história de um casal de vampiros que vaga pela Terra há alguns séculos, e que se adapta ao meio em que vive de forma a não causar nenhum dano aos humanos. Adam - ou, simplesmente, Adão - é um virtuoso músico recluso de Detroit, colecionador de guitarras raras e apreciador do rock, mesmo tendo conhecido grandes compositores. Eve - ou, simplesmente, Eva -, interpretada de forma irretocável pela monstruosa Tilda Swinton, é uma misteriosa e elegante mulher que perambula pelos becos históricos de Tânger, no Marrocos. A relação dos dois com os humanos, e entre eles mesmos, é posta em xeque quando percebem que a humanidade caminha para a barbárie.

Jarmusch sempre alegou que a beleza da vida está nos pequenos detalhes, e não nos grandes acontecimentos. Isto posto, o espectador acostumado com a linguagem narrativa do diretor vai se deliciar, justamente, com o delicado tratamento que o roteiro recebe. É um filme para ser apreciado, e não apenas visto. Cenários, atuações, montagem, fotografia e trilha sonora são impecáveis, e somam à experiência.

Destaque para a cena em que eles assistem, atônitos, ao videoclipe de "Soul Dracula" - uma sequência que deixa às claras o estilo e a grife incomparáveis de Jarmusch.



sábado, abril 12, 2014

#21 - Ninfomaníaca vol. 2 (Nymphomaniac vol.2), de Lars Von Trier

Foi com certo espanto que notei o comportamento dos espectadores com o segundo volume do novo filme de Lars Von Trier, dividido em duas partes. Tanta gente reclamou de tanta coisa, que o circuito foi se fechando em pouco tempo. Assistir ao volume dois se tornou uma tarefa bastante complicada. E foi com mais espanto ainda que notei um certo provincianismo nas resenhas, tanto as midiáticas quanto as amadoras. A mais espantosa de todas que li dizia que o desfecho traz uma "reviravolta desnecessária".

Sério?

Seguindo a contação de história proposta pela protagonista, o segundo filme faz uma jornada - ou uma jorrada - mais intensa na obsessão compulsiva de Joe por aquela cosquinha gostosa chamada orgasmo. O que era para ser um mero gatilho evolutivo, que garante a procriação da espécie, se torna objeto de culto e, graças à complexidade das relações humanas, desenvolve uma série de fetiches dos mais diversos. É justamente este o ponto em que Von Trie toca - sem trocadilhos - nessa segunda parte.

Para isso, ele abandona o apuro estético da primeira parte. O que, para mim, é o único deslize, ainda que de leve, que o diretor comete. No entanto, é preciso mesmo abandonar o tom jocoso para dar argamassa ao complexo argumento proposto. E é preciso ser um mestre - de obras - para levantar o paredão de forma sólida. Por mais que se critique o filme, uma coisa é unanimidade > não há um buraquinho - uepa! - sequer em toda a saga de Joe. O roteiro é monstruosamente coeso, com seus capítulos cerzidos de forma reforçada. Inclusive, as referências aos outros filmes da trilogia aqui proposta (completa por Anticristo e Melancolia, todos com Charlotte Gainsbourg como protagonista), chamada de Trilogia da Depressão, funcionam plenamente.

Bonequinhos saindo do cinema e críticas sobre reviravoltas desnecessárias à parte, parece mesmo que dividir o filme em dois volumes fez mal ao espectador menos atento. O ápice da história é uma sequência que coloca em xeque, de uma vez por todas, o naturalismo com que o sexo é tratado no roteiro. A cena em que a ninfomaníaca reconhece em um depravado sexual sua própria natureza incontrolável, demonstrando compaixão logo em seguida, é a cereja do bolo de Von Trier - uma das passagens mais fortes dos últimos tempos, ao mesmo tempo dramática e perturbadora.

Ora, o final, esse aí que muita gente questionou e exigiu que fosse diferente, vociferando que o diretor jogou tudo na lata de lixo, fica até pequeno diante de um argumento que foi exposto com requintes de crueldade. Há, sim, uma reviravolta no final. Mas é, sim, pertinente. Trata-se de um recurso amplamente usado na literatura, mas que ainda é questionado com veemência pelo espectador cinematográfico: a saber, a morte alegórica. Em Kafka, Camus ou Sartre, para citar apenas alguns dos autores que tão bem exploraram a natureza humana, é um artifício aceito. Já no cinema, suporte no qual a grande maioria não permite uma oscilação no eixo temporal e narrativo - porque o fim precisa fazer jus ao início e ao meio -, é condenável. Vai entender...

Antes da sequência final, Von Trier parece querer se eximir da misoginia da qual foi acusado por traumatizar Björk e criar rugas em Nicole Kidman. Joe é também um nome masculino, e há aqui uma possível inversão de papéis que se transforma em uma espécie de crítica à criminalização do sexo - a mesma que reduziu o número de sessões disponíveis e que pode impedir o filme de ser lançado em Blu-ray.

Já nos créditos finais, entra uma versão assustadoramente encantadora de Charlotte Gainsbourg interpretando "Hey Joe", imortalizada por Jimi Hendrix. E aí, amigo, para bom espectador, meio refrão basta!


segunda-feira, março 31, 2014

#20 - O capital (Le capital), de Costa-Gavras

Um filme de Costa-Gavras é sempre um frescor para um circuito entupido de porcaria com viés político torto. Não importa se você é liberal ou conservador, de esquerda ou de direita, republicano ou democrata - há que saber fundamentar seu argumento para, depois, poder levá-lo ao cinema de modo contundente. Pouca gente faz isso tão bem como o diretor grego, que já brindou espectadores com histórias fantásticas cujos panos de fundo eram abertamente políticos.

Aqui, nenhuma referência direta ao livro homônimo de Karl Marx. Já indiretamente, várias. Costa-Gavras trata do capital especulativo que vem minando, há anos, a cambaleante economia europeia, cada vez mais apoiada em um modelo importado dos EUA, que por sua vez se apoia em gigantescos fundos de investimento. Dá para fazer uma listinha de quem já quebrou (a cara e o sistema econômico) por causa disso > Finlândia, Irlanda, Portugal, Espanha e a pátria do diretor, a Grécia, para citar os mais emblemáticos.

Marc Tourneuil é diretor de um importante banco francês. Quando é alçado à presidência da instituição, se vê no meio de uma armadilha que vai permitir que um grupo de investidores vorazes dos EUA adquira o banco a preço de banana durante uma oferta primária de ações na Bolsa. Em meio à negociação de bônus por demissões em massa, ele percebe que seu traseiro está na reta, e tenta a qualquer custo se salvar, por mais que tenha que mandar às favas qualquer resquício de humanismo.

Como não podia deixar de ser, já que trata-se de Costa-Gavras, o roteiro tem coesão e ritmo. Diálogos, direção de atores e tudo o mais estão no lugar certo, na dose certa, na hora certa. O capital é um excelente thriller, sem cacoetes ou forçação de barra, que mantém o espectador de olhos grudados na tela até o desfecho.

Mais um acerto do velho Gavras!

#19 - Uma aventura Lego (The Lego movie), de Phil Lord e Christopher Miller

Lego sempre fez parte da minha infância. Décadas atrás, quando o produto ainda não era encontrado com facilidade por aqui, meu avô sempre trazia as famosas peças coloridas de montar de suas viagens ao exterior. Posso dizer que cresci montando Lego. E o meu prazer não era brincar, mas sim destruir tudo logo após ter passado horas empilhando pecinhas. O bacana de Uma aventura Lego é que, apesar de ser um filme infantil, trata justamente dessa questão.

O roteiro fala sobre um boneco de Lego que luta contra um malvado líder que quer fazer com que todas as pessoas na cidade do Lego fiquem paradas, imóveis - como se não houvesse espaço para a criatividade, para destruir tudo e montar de novo. O tal vilão tem uma arma potente que só pode ser parada com um estranho objeto, que vai parar nas mãos do boneco bonzinho.

Spoiler de filme infantil vale, né?

A sacada do roteiro é ótima! De repente, a animação dá lugar a realidade. O bacana é justamente a analogia > o boneco é uma criança e o vilão, seu pai. É a história de um menino cheio de criatividade, mas que não pode mexer no Lego do pai, que levou anos montando uma super cidade e agora usa uma arma, ou melhor, uma cola especial, para que nenhuma peça saia do lugar. O artefato que pode parar tudo isso? Ora, é óbvio...

Eu me identifiquei. Com a criança, mas me identifiquei!

quinta-feira, março 13, 2014

#18 - Philomena, de Stephen Frears

Stephen Frears é macaco velho, calejado, experiente. E querido também - dirigiu Alta Fidelidade! Mas parece que ele não soube escapar da armadilha que os filmes baseados em histórias reais escondem em seus promissores roteiros. Já comentei anteriormente aqui, reitero > é preciso muito cuidado e talento para que o argumento não dê mais peso ao protagonista do que ao fato em si, sob pena de tornar o filme uma mera biografia.

O argumento de Philomena é tenebroso, macabro, lúgubre. Porra, é uma denúncia e tanto. Freiras de um orfanato negociavam a adoção dos bebês de suas internas sem o consentimento das mesmas. Temos aí um assunto cabeludo para ser desenvolvido. No entanto, por conta do tratamento do roteiro - e, obviamente, o talento indiscutível da protagonista - o filme é só Judi Dench. Seu companheiro de cenas, convenhamos, não ajuda muito. Trata-se de um estereótipo ridículo de jornalista interpretado pelo respeitável Steve Coogan. Seu personagem é arrogante e vaidoso, daqueles que põem o pé na porta para não tê-la batida na cara, achacam as pessoas com ironias e exercitam um pretensioso faro jornalístico do tipo detetive particular de pulp fiction.

Está lá a denúncia, sim. Rasa, meio amedrontada de seguir adiante e com os holofotes completamente voltados para a tal Philomena que dá nome ao filme. Uma opção de Frears, é verdade. Porém, e justamente por isso, o que faz valer o ingresso é somente Judi Dench.

Sessão da tarde. Dado o diretor, podia ter sido um filmão.

sexta-feira, março 07, 2014

#17 - Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club), de Jean-Marc Vallée

Mais um concorrente ao Oscar de Melhor Filme com roteiro baseado em fatos reais, o que se destaca em Clube de Compras Dallas é, de fato, o que foi premiado. O filme de Jean-Marc Vallée seria apenas mais um não fossem as monstruosas atuações de Matthew McConaughey e Jared Leto.

O bom roteiro conta a história de Ron Woodroof, um cowboy misógino, machista e preconceituoso que contrai AIDS em plena década de 80, época em que havia pouca informação sobre a doença, equivocadamente associada apenas às práticas homossexuais. Sentenciado a 30 dias de vida, o protagonista começa a procurar tratamentos que lhe garantam mais alguns meses. Acaba travando uma batalha contra o sistema imposto pela indústria farmacêutica - que controla não apenas a distribuição de medicamentos, mas também regula e proíbe substâncias que podem ser usadas para melhorar a qualidade de vida de soropositivos no mundo inteiro.

O roteiro acerta quando coloca  o foco em cima dessa espécie de denúncia sobre o cartel da indústria farmacêutica. Para driblar as restrições da justiça, Woodroof fundou um clube no qual não se comprava diretamente as tais substâncias "proibidas", conseguidas em partes mais remotas do mundo, pelas mãos de médicos que ousavam arriscar suas carreiras. Ao invés disso, pagava-se uma mensalidade apenas para ter acesso às mesmas, o que ficou conhecido como clube de compras, um fenômeno que se espalhou por todo o território estadunidense.

Por mais que o argumento não se aprofunde na questão mercadológica, uma vez que o foco precisa estar quase sempre ajustado no protagonista quando se adapta uma história real (daí meu problema com as ditas histórias reais), vale como alerta para a vida completamente remediada que levamos hoje em dia, com drogas controladas e doenças inventadas.

Matthew McConaughey perdeu 17 kg para fazer o filme. Jared Leto ia ao mercado travestido de seu personagem. Diz aí se não vale o confere? Stanislavski ficaria orgulhoso!

sábado, março 01, 2014

#16 - Holocausto canibal (Cannibal holocaust), de Ruggero Deodato

Muito antes do sucesso estrondoso de filmes como Bruxa de Blair e Rec, o diretor italiano Ruggero Deodato inaugurava, em 1984, esta linguagem cinematográfica que mistura o ficcional com o documental. Foi ele quem, pela primeira vez, colocou enormes pulgas atrás das orelhas de milhares de espectadores ao anunciar que encontrara imagens reais filmadas por um grupo de quatro antropólogos dados como desaparecidos após uma expedição à floresta amazônica. Os mesmos teriam sido devorados por uma tribo de canibais.

Logo, Holocausto Canibal ficou conhecido, semanas antes de seu lançamento, como o primeiro snuff movie (filmes underground em que as mortes de seres humanos são reais) a entrar em cartaz na história do cinema. Inicialmente, a tática deu certo. A primeira semana de exibição foi, do ponto de vista comercial, um sucesso. O problema é que a celeuma foi tamanha, que chamou a atenção das autoridades locais. Resultado: o filme foi banido e Deodato foi preso por acobertar assassinatos reais. Para piorar, uma cláusula dos contratos dos quatro protagonistas ordenava que os mesmos sumissem por um ano.

A violência e o realismo de Holocausto canibal são tão fortes, que Deodato só foi liberado depois que seus atores foram localizados e se apresentaram à corte italiana, em carne e osso, sãos e salvos. Impressiona mais ainda o fato de ser uma produção de baixo orçamento e realizada, de fato, no meio da floresta amazônica - o que rendeu à equipe alguns perrengues. Para uma cena na qual uma índia adúltera é violentada e espancada até a morte, Deodato não conseguiu convencer nenhuma candidata. Teve que apelar para sua camareira, que como não tinha cor nem cara de indígena, aparece toda coberta de lama. Em outra cena, na qual um antropólogo toma banho no rio, nu, ao lado de índias bem salientes, o diretor teve que gastar uns trocados com prostitutas de uma casa de tolerância de uma cidadezinha próxima.

O roteiro, genial, se divide em duas partes. A primeira, mostra um professor que vai atrás do tal grupo de quatro antropólogos. É ele quem consegue localizar não somente os corpos, mas também os filmes que testemunham a "barbárie" dos povos canibais. A segunda parte, exaltada até mesmo por Sergio Leone, mestre dos westerns, são as imagens propriamente ditas sendo analisadas por especialistas que desejam tornar o filme uma produção comercial. Além do rigor estilístico, com a câmera na mão e cortes ligeiros para dar agilidade e veracidade à narrativa, entra em cena um certo debate sobre o que é o processo civilizatório, qual é o verdadeiro objeto de estudo da antropologia e que povo é realmente bárbaro.

É preciso ter estômago para assistir a Holocausto canibal. Não é um filme para qualquer um. Se as impressionantes cenas de violência são falsas, as sequências nas quais animais são mortos são verdadeiras - e perturbadoras! Apesar de ser comum às tribos locais caçar e comer qualquer bicho da floresta, Deodato alegou, anos mais tarde, ter se arrependido de editar essas cenas com tanto detalhamento.

A quem puder embarcar nessa experiência cinematográfica extrema, eu digo sem hesitar: um filmaço!

quinta-feira, fevereiro 27, 2014

#15 - Trapaça (American hustler), de David O. Russel

É fácil definir Trapaça em apenas uma palavra: trapaça! É que eu detesto roteiros que abusam de reviravoltas para terminar fazendo pouco caso da inteligência do espectador. É isso que uma penca de sucessos hollywoodianos faz, é isso que Trapaça faz. Ludibria o público a todo instante para provocar aquela cara de espanto nos mais incautos - porque, convenhamos, dado o argumento do filme, e até seu título em português, é meio óbvio o que esperar.

Espia: o roteiro conta a história de um malandro que aplica pequenos golpes. Ao conhecer uma parceira tão malandra quanto ele, começam a ampliar os negócios. São descobertos pela polícia e acabam sendo forçados por um agente do FBI, cujos métodos são nada convencionais, a ajudar nas investigações e prisões dos peixes grandes de New Jersey.

Particularmente, nunca fui fã da direção de David O. Russel - para não ser tão radical, gosto muito de Huckabees. Mas se tem uma coisa que o cara sabe fazer é dirigir seus atores. Tiro o meu chapéu para ele. O mais bacana de Trapaça é ver os atores brilhando em interpretações irretocáveis. Christian Bale é um monstro na tela! Absolutamente entregue ao personagem. Amy Adams, toda trabalhada no decotão, abandona aquela cara de Madalena arrependida e arranca suspiros no papel de fêmea fatal. Para fechar o trio, Bradley Cooper, com bobes no cabelo, deixa de lado a aura de galã e arrebenta como o paladino da justiça.

Bem dirigido o filme é. Entretenimento, é também. Mas essa coisa de trapaça com reviravoltas, definitivamente, não funciona comigo.

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

#14 - 12 anos de escravidão (12 years a slave), de Steve McQueen

Indicado a nada menos que nove estatuetas do Oscar, o verdadeiro valor de 12 anos de escravidão passa longe da capacidade de entreter o espectador. Trata-se de um dos únicos e mais precisos relatos em primeira pessoa sobre ser um escravo. O filme do diretor britânico Steve McQueen se debruça sobre o livro de Solomon Northup, cuja veracidade já foi atestada por uma série de historiadores, para tratar um assunto amplamente visto na tela do cinema, mas poucas vezes filmado com tanta precisão.

Northup foi um negro nascido livre que vivia pacatamente no estado de Nova Iorque. Letrado, sabia tocar peças eruditas no violino, o que causava estranhamento na população estadunidense caucasiana do fim do século 19. Por isso mesmo, chama a atenção de artistas circenses, que oferecem a ele a oportunidade de excursionar com o circo e se apresentar para multidões. No entanto, Northup acaba sendo vítima de algo que se tornou comum naquela época: é sequestrado e tem sua identidade de homem livre aniquilada instantaneamente. O fato de tocar violino eleva seu preço de mercado. Acaba se tornando mais um escravo negro no sul dos EUA.

O filme mostra os 12 anos em que Northup comeu o pão que o diabo amassou nas mãos de senhores de terra incapazes de enxergar o horror da escravidão - ainda que demonstrassem compaixão em determinados momentos ou que fossem tementes a um deus que, segundo eles, não condena a posse de homens como propriedade. Apontavam, inclusive, passagens bíblicas que atestavam suas interpretações equivocadas.

Um excelente argumento. Um bom roteiro, com personagens e reviravoltas bastante interessantes. O problema no filme de McQueen é um certo exagero dramático que seus filmes anteriores, como Shame e Fome, não têm. Há muita música tristonha, uma enxurrada de frases de efeito e uma lição de moral desnecessária do personagem de Brad Pitt - que, além de herói, é nada menos que o produtor do filme. Em alguns países, inclusive, o poster de 12 anos de escravidão dá mais peso a seu personagem do que ao próprio protagonista.

Ainda assim, um bom filme. Um documento importante nesses dias atuais em que muita gente não vê nada de errado - muito pelo contrário, apoiam - em acorrentar um menor infrator negro, deixado nu, a um poste.

domingo, fevereiro 23, 2014

#13 - A hospedeira (The host), de Andrew Niccol

Pense num filme ruim pra caramba. A hospedeira é muito pior. Abriram o sinal do Telecine aqui em casa, o que significa, em certa medida, afirmar que abriram as portas do limbo cinematográfico, uma vez que para cada filme bom, outros 49 toscos são comprados e precisam ser exibidos. É assim que funciona o comércio televisivo de filmes.

A sinopse é até promissora. Uma raça (perdoe-me Lévi-Strauss, mas aqui usa-se o conceito interplanetariamente) de alienígenas chega a Terra para colonizá-la ocupando seus corpos. Eles têm como objetivo uma cultura de paz, mas no entanto substituem a consciência das pessoas, tornando-as inócuas. Por isso, são chamados de almas. Acontece que alguns humanos conseguem resistir a essa ocupação mental. Um deles é a protagonista, que convence a "alma" que comanda seu corpo a fugir e buscar abrigo na pequena resistência terráquea que se esconde no deserto.

Ficção-científica? Porra nenhuma, não se enganem! O resultado é constrangedor. Na verdade, A hospedeira é uma história de amor das mais cafonas - adaptada de um livro da mesma autora da série Crepúsculo, o que aos mais desavisados já serve de alerta. Nada funciona na adaptação para a tela grande. O roteiro tem crateras, e não buracos. A ação é inverossímil e os atores, em interpretações pífias, contribuem para o fracasso geral. A voz da protagonista em off, brigando com sua hospedeira para tomar determinadas atitudes, é um artifício que beira o patético.

O triângulo amoroso - quase quadrilátero - proposto pelo roteiro, aproveitando o fato de duas almas habitarem o mesmo corpo de uma mulher, são infantiloides e rasas. O desfecho é ridículo e previsível. Um filme completamente desnecessário, que vai fazer com que você perca quase duas horas que poderiam ter sido gastas de uma forma mais produtiva.

Evite.

quinta-feira, fevereiro 20, 2014

#12 - Nebraska, de Alexander Payne

Há muitas similaridades entre Nebraska e Paris, Texas - este, um dos meus filmes prediletos de todos os tempos. Talvez, por isso, tenha ficado completamente encantado com a produção dirigida por Alexander Payne - que não é lá um Wim Wenders, mas tem acertado nos últimos anos. Ao contar uma história que tem no título sua própria terra natal, ele empresta ao roteiro suas próprias lembranças para falar de como as reminiscências são tão indissociáveis do nosso caráter, daquilo que fomos e no que nos transformamos.

Assim como em Paris, Texas, o filme de Payne tem início com um homem desorientado caminhando pelo acostamento de uma rodovia. No caso, em Montana. Woody Grant é um senhor afetado pela senilidade que, ao receber pelo correio uma propaganda enganosa sobre um prêmio lotérico, insiste em ir até o Nebraska buscá-lo. A cidade fica a aproximadamente 2 mil quilômetros de distância de sua casa. Comovido pela obstinação do pai, mesmo sabendo que o prêmio não passa de uma armação, um de seus filhos resolve fazer a viagem de carro, na esperança de passar um tempo sozinho com o pai e tentar contornar os transtornos que sua condição causam a toda a família.

No longo caminho, a cada parada, Woody vai reencontrando seu passado, enquanto seu filho vai montando as peças de um quebra-cabeça que, ao final, vai dar a real dimensão sobre quem foi seu pai e como seus laços familiares e sociais foram construídos. Nebraska revela seu protagonista da mesma forma que Paris, Texas - lentamente, dolorosamente, paulatinamente. O que parecia ser uma simples história de um homem com a memória afetada pela idade se transforma em um complexo mosaico sobre como as tais memórias podem afetar as pessoas profundamente.

A trilha sonora de Nebraska, composta por Mark Orton, é linda! E contribui para reforçar o tratamento dramático que Payne planejou para o roteiro - da mesma forma que Ry Cooder foi preciso e indispensável para Wim Wenders ao compor uma das trilhas sonoras mais bonitas da história do cinema.

E mais: direção de atores perfeita, atuações impecáveis, fotografia em preto e branco, uma montagem caprichada... Enfim, um filmaço!

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

#11 - Ela (Her), de Spike Jonze

Faça um inventário sobre o que levar a uma ilha deserta. Duvido que algum dispositivo eletrônico de comunicação não estará entre os primeiros itens lembrados. Seria medo de não poder interagir com as pessoas que também têm medo de não poder interagir? O que a gente não percebe é que já vivemos em ilhotas, e justamente por conta daquilo que seria o primeiro item de nossos inventários.

Atualmente é assim: transeuntes de olhos vidrados em seus smartphones. As cavidades auriculares ocupadas por fones de ouvido. Em reuniões, mesas de bar, festas, jantares etc., privilegia-se o conforto da vida digital. Faltava alguém transformar essa tendência em argumento para cinema, tratando com certo lirismo essa condição humana que insiste em evitar o confronto da vida real. Ela é um filme doído sobre a solidão, sobre um certo escapismo diante das relações humanas tão complexas, tão diversas, tão cansativas. Vai muito além de uma história de amor, como sugere o cartaz.

Ninguém melhor que Spike Jonze, um cara que não tem medo de arriscar, para aplicar a linguagem cinematográfica ao tema. Seu belíssimo roteiro, ambientado em um futuro próximo, no qual as pessoas permanecem conectadas o tempo inteiro, conta a história de um homem que, após terminar um relacionamento, adquire um sistema operacional baseado em inteligência artificial. Opta por um OS feminino. Samantha, ela, assim chamada, tem sua própria personalidade, sendo capaz de tomar decisões e demonstrar reações a certas emoções. Em pouco tempo, a relação entre os dois cresce e se solidifica, puxando a reboque uma série de questionamentos pertinentes.

Se Denise está chamando, um filme subvalorizado de 1995, época em que as salas de bate-papo começavam a surgir, falava sobre a comodidade de usar o ambiente virtual para se proteger das cobranças e riscos das relações de carne e osso, Ela dá um passo à frente e reafirma a questão existencial envolvida na aparente comunhão, e consequente solidão, que a tecnologia pode oferecer. A solidão, inclusive, é mais um personagem inumano no filme de Jonze. Está presente em quase todos os planos, principalmente naqueles ambientados no apartamento do protagonista.

Joaquin Phoenix brilha no papel do protagonista, em uma atuação digna de ser premiada. Scarlett Johansson consegue, apenas com a voz, dar vida ao sistema operacional, o que só aumenta uma certa sensação de angústia no espectador, que também experimenta sua existência através de um espectro proporcionado pela tecnologia proposta pelo roteiro. A direção de arte, perfeita, ajuda bastante a dar ao futuro uma cara de presente assimilado, sem carros voadores, sem cores vibrantes, sem móveis com design futurista - o foco é, de fato, a tecnologia e seus desdobramentos.

Vale ressaltar também a belíssima trilha sonora do Arcade Fire, além da abertura ao som de "Off you", dos Breeders, cuja belíssima letra fala justamente sobre ilhotas onde as pessoas preferem se isolar para evitar a fadiga e o desgaste da vida em terra firme:

I've laid this island sun a thousand times
I'm on it but I'm going strange
This island's chills and shell cover me
With winded rock and skies I've yet to see.

A cena final é uma das mais bonitas dos últimos tempos, quando o homem consegue, sem aparelhos eletrônicos, ignorar os inventários para atravessar o deserto que pode ser a existência humana. Uma pequena pérola da sétima arte, a ser lembrada por muitas gerações. 

Parabéns, Jonze! O Oscar está chamando.

domingo, fevereiro 09, 2014

#10 - Arraste-me para o inferno (Drag me to hell), de Sam Raimi

Perdi a conta de quantas vezes eu vi Arraste-me para o inferno, mas sempre perdendo uma boa parte do filme por pegá-lo já na metade ou por ter de deixá-lo antes do fim - e é por isso que não assino canais de filmes a cabo, já que detesto assistir a filmes em doses homeopáticas. Domingão, nada para fazer, e pego o filme no começo na TV. Dessa vez fui até o fim - aliás, que fim!

Sam Raimi é figura querida entre os fãs do gênero. Tudo começou com A morte do demônio, de 1981. Um filme de baixo orçamento absurdamente bem feito, completamente diferente de tudo que havia sido feito até então. Era eletrizante, ousado, ligeiro, com doses certeiras de humor e sem tratar o espectador como um idiota inundando a tela com clichês. Seguiram-se outros dois filmes da franquia, então intitulados Uma noite alucinante. Duas pérolas que só confirmavam o talento de Raimi.

Em Arraste-me para o inferno, ele conta a história de uma jovem que tenta a todo custo ganhar uma promoção no banco em que trabalha. Ao negar a negociação de uma hipoteca a uma velha senhora cigana, sua vida se transforma num inferno. É vítima de uma maldição que, para ser quebrada, vai exigir muitos sacrifícios.

O filme tem tudo o que os fãs do gênero adoram: sustos, reviravoltas, cenas grotescas, humor de gosto duvidoso etc. Com alguns extras que só um grande diretor pode oferecer: edição certeira, montagem ligeira, tomadas de câmera bem estudadas, planos bem bolados e uma direção de atores realmente eficaz. Estão lá, também, vários elementos e inúmeras referências de sua franquia de maior sucesso.

É cinema de horror-entretenimento de melhor qualidade, como poucos sabem fazer.

sábado, fevereiro 08, 2014

#9 - Os amantes passageiros (Los amantes pasajeros), de Pedro Almodóvar

Não ouso aqui dizer que Os amantes passageiros é um filme de férias de Almodóvar. Está mais para uma volta ao que o cineasta espanhol fazia no início de carreira, que foi o bastante para chamar a atenção de espectadores do mundo inteiro. Aqui, ele se permite exercitar seu lado imaginativo sem buscar reflexões ou propor temáticas complexas. É o mais puro exercício de entretenimento cômico. Bons tempos, hein Almodóvar?

Desde Carne trêmula, Almodóvar não fazia um filme leve, engraçado do início ao fim. De Kika para baixo, sua filmografia era tipicamente, digamos, espanhola - uma espécie de Carlos Saura kitsch. Suas primeiras obras tinham as cores que saltavam aos olhos, os diálogos verborrágicos, os trejeitos exagerados e as indumentárias excêntricas. E sempre aquele senso de humor ácido, sarcástico, caótico. O cineasta ganhou os festivais,  ganhou o mundo, ganhou admiradores e passou por um profundo amadurecimento cinematográfico. As cores, os diálogos, os trejeitos e as indumentárias ainda estavam lá. O que mudou foi a forma de agrupá-los. Ou seja, a montagem ficou mais sóbria, mais artística, com um argumento objetivo.

Aqui, ele dispensa os roteiros bem engendrados, mas não abre mão de contar uma história bastante divertida (e no fim das contas, cinema é um dos melhores suportes para se contar uma história). Um grupo de pessoas a bordo de um avião, cujo trem de pouso está danificado, precisa lidar com a incerteza de seu futuro: será que o avião vai pousar em segurança? Haverá feridos? Quem conseguirá escapar? Para piorar - ou melhorar - uma das passageiras é vidente. É pano para manga, e Almodóvar sabe costurá-lo como ninguém. Destaque para o elenco, fantástico, com participações especiais de dois atores que sempre ajudaram o diretor a dar passos à frente na carreira: Penélope Cruz e Antonio Banderas.

É perfeitamente compreensível que muita gente que curta o trabalho de Almodóvar não tenha gostado do filme. Provavelmente, se acostumaram a um cineasta mais denso. Estar diante de um trabalho que tem as características típicas da primeira fase, se assim pudermos definir o período de tempo que vai até Kika, pode causar um certo estranhamento. Afinal, estavam todos acostumados a ficar comentando suas obras durante a semana toda, dada a complexidade dos argumentos de Carne Trêmula em diante.

Mas há também quem enxergue em Os amantes passageiros um momento no qual as reminiscências de uma grande mente criativa transbordem de forma arrebatadora. Sempre afirmei, aqui, que Almodóvar pagou um preço, ainda que não muito caro, por sua maturidade cinematográfica. Ganhou respeito e profundidade, mas perdeu um pouco da espontaneidade e da ousadia estética, aquelas descompromissadas com o métier artístico.

Talvez Os amantes passageiros cause menos frisson porque o mundo mudou bastante desde 1993. Homossexualidade, drogas e sexo espalhafatoso já não são assuntos tão espinhentos. Mas provou que uma coisa continua a mesma: o talento de Almodóvar continua latente, mesmo quando ele se permite ser maravilhosamente superficial.

terça-feira, janeiro 21, 2014

#8 - Ninfomaníaca vol. 1 (Nymphomaniac vol. 1), de Lars Von Trier

O que mais se fala por aí é que foi uma baita de uma patifaria ter dividido Ninfomaníaca, a nova provocação de Lars Von Trier, em dois volumes. O que pouca gente lembra é que estamos diante de um diretor que tem a plateia nas mãos - e gosta disso. A mim, ao que tudo indica, estamos diante de mais uma jornada que vai nos retirar da zona de conforto. E a prova disso é, justamente, o comportamento da maioria das pessoas ao ver as "cenas dos próximos capítulos" que Von Trier malandramente projeta durante os créditos finais. Todo mundo desconfortável com a situação. Todo mundo concordando que o volume 2 tem tudo para ser sinistro - o predicado que mais combina com o enfant terrible dinamarquês.

Durante o volume 1, acompanhamos os primeiros anos da vida de Joe, a tal ninfomaníaca do título. Após ser encontrada desacordada e machucada em um beco escuro por um senhor aparentemente bonzinho - será que é mesmo? -, ela conta sua história a ele em detalhes, usando sempre como ponto de partida objetos de estima do dono da casa - o que me causa um certo estranhamento e me sugere algo que pode estar por vir no próximo volume.

Não restam dúvidas de que estamos diante de uma obra diferenciada. Von Trier tem grife, assinatura, rubrica, estilo ou seja lá o que se pode chamar essa certeza de estarmos diante de um filme dele. O cara domina a montagem e tem plena consciência do que pode fazer com a linguagem cinematográfica. 

Por exemplo (vou fazer que nem ele e enumerar)...

1 - A clássica estrutura narrativa. O filme é dividido em capítulos, contado em primeira pessoa, com inserções atemporais e pequenos desvios narrativos

2 - Predominantemente, ele filma o sexo como algo chulo. Foi assim em Os idiotas, por exemplo. Foi assim em Dogville também. É assim em Ninfomaníaca. Foda-se se vai estar enquadrado na tela um pinto com fimose. Que se dane se tem um boquetinho. Nem liga se a menina cospe esperma. Não é assim mesmo?

3 - Há sequências de rara beleza, como a abertura, na qual os pingos de chuva formam sons polifônicos. Ou então, cenas geniais, na qual essa mesma polifonia é dissecada em timbres e movimentos. Há até espaço para leveza, como na hora em que a protagonista perde a virgindade.

4 - Von Trier sabe dirigir atores como ninguém. As participações de Christian Slater e Uma Thurman, apesar de curtas, são impagáveis, irretocáveis, fabulosas!

5 - A cinematografia é redonda, com diferentes câmeras atuando como distintos marcos narrativos. Câmera na mão quando é o passado, câmera estática quando é o presente.

Bom, ninguém curte um coito interrompido. E é justamente isso que esse volume 1 propõe. Lars Von Trier é ou não é o cara? Respeita o moço. Patente alta, dá aula, é bigode grosso.

Aguardemos o volume 2.

sexta-feira, janeiro 17, 2014

#7 - Antes da meia-noite (Before midnight), de Richard Linklater

A trilogia de Richard Linklater fez sucesso. Demorou 18 anos para que o diretor a fechasse - e é este o mesmo intervalo de tempo que os roteiros percorrem junto aos personagens. Em Antes da meia-noite, o casal Ethan Hawk e Julie Delpy já tem duas gêmeas, e o rapaz, agora um escritor bastante famoso, precisa rebolar para se sentir menos culpado por não dar tanta atenção ao filho do primeiro casamento. É justamente esse fato que norteia os intermináveis diálogos do filme de Linklater.

Pode até parecer que a direção é naturalista e aceita o improviso. Errado. As linhas e mais linhas de diálogos foram exaustivamente ensaiadas. Logo, é ponto para os atores, que deixam o argumento fluir de modo bastante realista. O problema é o conteúdo dessas conversas. O filme acaba virando uma espécie de reality show, mas com gente mais interessante, obviamente. Mesmo assim, com conteúdo, são quase duas horas de poucos planos e muita fala. Fala-se inglês, francês, grego... Tem gente bonita (um casal fofo), paisagens estonteantes (o filme é ambientado na Grécia), comida farta (dieta mediterrânea) etc. Durante dois terços de projeção, é só isso.

É só durante o terço final do filme, quando realmente o argumento apresentado no início é posto à prova, que a coisa fica verdadeiramente interessante. Os atores se superam, os diálogos prendem o espectador e Linklater mostra por que é um bom diretor.

Só não precisava demorar tanto para chegar nessa parte.

quarta-feira, janeiro 15, 2014

#6 - Bling Ring - A gangue de Hollywood (Bling Ring), de Sofia Coppola

Faz tempo que Sofia, a filha de Francis, não entrega um filme realmente à altura da alcunha familiar. Desta vez, a diretora leva as telas uma história real adaptada a partir de uma matéria escrita para a famosa revista Vanity Fair - uma espécie de periódico de fofoca para os bem vestidos (fashionistas, me xinguem) - sobre um grupo de jovens mimados e bem nascidos que roubava as mansões de astros de Hollywood enquanto eles estavam fora.

A ação toda era facilitada pela mídia que segue os passos dos famosos. Bastava a um dos cabeças da gangue entrar no Google para achar um website que não só indicava o endereço das vítimas, como também expunha de forma assoberbada suas agendas. Os objetos a furtar eram sempre os mesmos: joias, carros, vestidos, sapatos, relógios e qualquer outra coisa de grife.

A pergunta, Sofia Coppola, é por que cargas d'água a senhora resolveu filmar isso?

Tecnicamente, verdade seja dita, é possível perceber durante a projeção de Bling Ring que Sofia tem o que é preciso para um bom cineasta. A edição é boa, há planos bem bolados e a trilha sonora funciona. No entanto, o argumento falha bisonhamente, grotescamente, pateticamente, em apresentar uma critica ao star system hollywoodiano. A cena que tenta fazer isso, lá pros minutos finais, é constrangedora - tanto na interpretação de Emma Watson, ela mesma vítima do tal star system criticado, quanto no diálogo pífio e acadêmico que se segue.

Pra que isso, Sofia?

domingo, janeiro 12, 2014

#5 - Vovô sem vergonha (Bad grandpa), de Jeff Tremaine

Digam a verdade > vocês não teriam vergonha de ver um filme chamado Vovô sem vergonha? Mas aí eu devo alertá-los da origem do personagem - e talvez vocês mudem de ideia. Em alguns episódios de Jackass, havia uma esquete em que uma velhinha deixava todo mundo apavorado em cenas constrangedoras. Deixava um peito caído aparecendo no meio da rua, fazia gestos obscenos etc. Por trás da maquiagem, estava ninguém menos que o diretor Spike Jonze.

Eis que, pouco tempo depois, a esquete ganhou repercussão. Pensando nisso, Jonze se reuniu com  Johnny Knoxville para escrever um roteiro no qual o ator iria encarnar um velhinho tão inconveniente e tresloucado quanto a senhora daquela esquete. O resultado é esse filme, de pouco mais de uma hora e meia, cuja narrativa mistura um pouco de ficção com as já famosas "pegadinhas" no melhor estilo Jackass.

Diz o roteiro que o vovô precisa levar seu netinho - interpretado pelo excelente Jackson Nicoll - para viver com o pai, que lhe caga um balde e vive do outro lado dos Estados Unidos, depois que a mãe vai para a cadeia. Durante o percurso, são engendradas as gags que deixam de cabelo em pé transeuntes desavisados. Nota: em nenhum momento os atores deixam terceiros diante de situações perigosas, como fazem comumente entre si nos episódios de Jackass.

Nós, brasileiros, acostumados com João Kléber, Sérgio Mallandro, Gugu Liberato e afins, sabemos que tudo pode ser uma mera armação. Ainda mais quando há enquadramentos por todos os lados e os rostos das pessoas envolvidas não estão embaçados, possibilitando identificação. Pois, os produtores encontraram, durante os créditos finais, uma excelente maneira de resolver a questão, mostrando que, de fato, ninguém sabia que estava sendo filmado. Ponto para eles.

Um filme honesto. Boas risadas e uma espetacular, maravilhosa e estupenda cena final, na qual o pequeno Nicoll rouba a cena e faz uma paródia da Pequena Miss Sunshine da vida real. Uma sequência que vale pelo filme todo. É de chorar de rir!

terça-feira, janeiro 07, 2014

#4 - Eu e você (Io e te), de Bernardo Bertolucci

Podem chamar de implicância mesmo, mas Bertolucci não desce bem. E nem adianta vir com O último tango em Paris, Beleza roubada ou Sonhadores - muito menos O pequeno Buda. Não gosto da maneira como ele conta suas histórias. Não gosto do jeito que ele edita seus filmes. Não gosto de como ele dirige seus atores (e aqui, inclusive, ele desperdiça a presença de Pippo Delbono, um monstro). Mas ele sempre acerta nas trilhas sonoras.

Eu e você passou voando pelo circuito carioca. Não chamou atenção nem pelo fato de ser o mais novo filme assinado por Bertolucci em quase uma década. O roteiro fala de um jovem de 14 anos que prefere ficar trancado no porão, sozinho, ao invés de viajar para uma estação de esqui com a escola. Ele precisa passar uma semana se escondendo da mãe e dos conhecidos do bairro. Até que...

Bom, se eu escrever aqui o que acontece, o filme perde a graça, porque, além da situação que se dá logo no início da projeção, nada acontece. Nada. Não há conflitos, não há reviravoltas, não há bons diálogos, não há boas sacadas. Nada. Há, lá no começo, uma cena bizarra e deslocada na qual o garoto pergunta para a mãe se ela faria sexo com ele caso os dois fossem os únicos sobreviventes de um desastre planetário. É, Bertolucci! Assim fica difícil...

Ah, mas a trilha sonora é ótima! Tem Cure, Arcade Fire, David Bowie e Red Hot Chilli Peppers.

domingo, janeiro 05, 2014

#3 - A parte dos anjos (The angels' share), de Ken Loach

Eu sempre defendi a ideia de que todo grande diretor precisa de um filme de férias. Um descanso para as cabeças profícuas dos mestres da sétima arte. Produções despretensiosas, simples, quase bobinhas, para passar o tempo mesmo - trocando em miúdos, cinema pipoca feito para o entretenimento. Ken Loach não podia fugir da regra. Sendo assim, A parte dos anjos é o seu filme de férias.

Ambientado na Escócia, e com aquele divertido sotaque carregado, o roteiro conta a história de Rob, um sujeito que é preso após agredir brutalmente um jovem. Libertado e prestes a ser pai, ele tenta colocar a vida nos trilhos, mas precisa a todo o instante enfrentar conflitos ligados a seu passado criminoso. É quando visita uma destilaria (daí o título, que faz referência a uma pequena porção do uísque que evapora de cada barril) que descobre um dom especial. Caberá a ele decidir como usá-lo > para o bem, ou para o mal.

O filme de férias de Ken Loach é bacana. Bem construído, com boas atuações e uma pitada certa de comédia em cima de um drama que não chega nunca a cair em exagero. O diretor esquece por cerca de hora e meia de projeção seu viés político. Inclusive, o desfecho é a prova de que nada ali estava sendo levado tão a sério a ponto de lembrarmos de suas obras anteriores, cheias de profundidade.

Melhor do que muito filme sério de alguns cineastas que se levam a sério.

sábado, janeiro 04, 2014

#2 - Frances Ha, de Noah Baumbach

As comparações serão inevitáveis. Frances Ha é uma espécie de Woody Allen de calcinhas. Impossível não lembrar de Manhattan. É aquele argumento típico: gente boa tentando viver de arte, buscando resolver suas relações afetivas, em meio a bloqueios criativos e incertezas sobre o futuro. Tudo isso diante do caos convidativo e, por que não?, charmoso, de uma Nova York que se transforma em personagem coadjuvante.

O roteiro, assinado por Greta Gerwig, a protagonista, em parceria com o diretor Noah Baumbach, um cara dado a contos ambientados na Big Apple, conta a história de uma jovem que divide o apartamento com a melhor amiga desde os tempos de faculdade. Seu sonho é entrar para o corpo de uma companhia de dança. Recém-solteira, ela passa por situações inusitadas, tanto cômicas quanto dramáticas, em busca de autoafirmação.

Estão lá os padrões e as referências culturais eruditas típicas dos filmes de Allen. Tem um pouco de Proust, uma pitada de Paris, artistas desfilando em flats modernos e filósofos convidados para jantares informais. Porém, justiça seja feita, Baumbach sabe quebrar os estereótipos, fazendo com que a protagonista nunca leve tão a sério esse mundo novaiorquino que Allen tanto faz questão de enaltecer - e, cabe dizer, o enaltece para o bem e para o mal.

Não há como negar que, apesar de ser um filme debruçado e fechado na cultura novaiorquina, é muito fácil gostar de Frances Ha. Simples, despretensioso e leve. Divertido no ponto certo, sem cair em pedantismo - o que é muito fácil quando se filma Nova York em preto e branco. Gerwig se apoia em uma partitura corporal que dá leveza ao filme. Sua personagem vive um paradoxo curioso. Seus predicados não são bem os que se esperam de uma bailarina: ela é grande, desastrada, verborrágica e meio desligada.

Muito bacana, já nos segundos finais de projeção, a explicação para o título Frances Ha. Uma bela sacada que dá um ar ainda mais simpático ao filme.

quinta-feira, janeiro 02, 2014

#1 - Azul é a cor mais quente (La vie d'Adèle), de Abdellatif Kechiche

O vencedor da Palma de Ouro do ano passado é um filme tenso e, de certa forma, frio. Em Azul é a cor mais quente, o cinema francês volta a se firmar como um polo de experimentação cinematográfica - a saber, faz do sexo um exercício quase explícito para dar à narrativa um ar naturalista. Ao invés da sensualidade, abre espaço somente para a sexualidade. No caso, a homossexualidade.

O roteiro conta a história de Adèle, uma jovem de 15 anos que começa a questionar suas opções sexuais. Depois de conhecer uma mulher mais velha - e mais madura - de cabelos tingidos de azul, ela passa a se descobrir e se afirmar como mulher. Ao longo da trama, o relacionamento entre as duas tem seus altos e baixos. E aí é que o diretor Abdellatif Kechiche, um cara dado à argumentos com profundidade, acerta em cheio.

As longas cenas de sexo entre as duas moçoilas são mais tensas do que eróticas. Há gritos, suor, gemidos e até tapinhas na bunda. Muita língua, muitos dedos e aquela fome de engolir o outro. O sexo é feito com intensidade, voracidade e energia. É impressionante. Uma dessas cenas, inclusive, levou nada menos que 10 dias para ser filmada.

Esse tratamento naturalista está presente até mesmo quando as atrizes estão vestidas. Kechiche deixava a câmera ligada seguindo a atriz Adèle Exarchopoulos, homônima da protagonista, em seu dia a dia. Filmava de tudo: do ônibus a caminho do set de filmagem à soneca nos intervalos de filmagem.

O último terço do filme é intenso, cruel e niilista, um verdadeiro ensaio sobre o amor e os desdobramentos do desejo - com o agravante da imposição cultural por um modelo de conduta sexual. Nisso, o cabelo azul se faz presente marcando a todo instante uma diferença que é visível a olho nu.

Vale reiterar que Azul é a cor mais quente é um filme frio. A protagonista, seguindo a clássica escola francesa, é fria. Os cenários são frios. As cores são frias. As sequências são tão pouco preocupadas em ser quentes que, mesmo com toda a nudez, nem ao menos a pergunta de uma personagem é respondida:

"Ela também pinta os pentelhos de azul?"