sábado, março 02, 2013

#14 - A hora mais escura (Zero dark thirty), de Kathryn Bigelow

Eu assisti ao novo filme de Kathryn Bigelow antes da premiação do Oscar, mas só tive tempo para resenhá-lo agora, depois de Argo ter sido o grande vencedor daquela noite. Acreditei que seria esse o filme a desbancar o investimento de Steven Spielberg - como a diretora  já havia feito anteriormente, desbancando um investimento de James Cameron. E nem foi! Poderia, porque A hora mais escura guarda muitas semelhanças com Guerra ao Terror. Tanto na questão estética quanto na celeuma descabida provocada no público e na crítica.

O roteiro mostra os bastidores da missão que levou a óbito o então líder da Al-Qaeda e inimigo número um do governo estadunidense, Osama Bin Laden. Diz a cartela inicial se tratar de um filme baseado em fatos verídicos. Quem acompanhou o noticiário à época deve se lembrar como tudo se deu: dois helicópteros estadunidenses foram até uma casa, onde Judas perdeu as botas, numa região desértica do Afeganistão, para capturar Bin Laden. Um deles, inclusive, caiu no terreno baldio ao lado, uma parvalhice só, deixando exposta essa marca registrada dos EUA em confrontos bélicos. Bom, o resto você já sabe, ou não. Mataram o Bin Laden e o corpo, respeitando a doutrina islâmica, eles jogaram no mar. Tá bom, vai...

A protagonista de A hora mais escura é uma agente da CIA chamada Maya. Ela jura de pés juntos que sabe onde o barbudo malvado está entocado. Acaba travando uma guerra interna para que a tal missão saia do papel. Ao longo da projeção, vai conhecendo os meandros da guerra, acostumando-se com a moral torta e a ética obtusa que costumam imperar em regiões conflituosas.

Tem gente por aí dizendo que o filme de Bigelow é muito corajoso porque toca num assunto constrangedor para o governo dos EUA: a tortura. O filme começa com uma sessão de sofrimento físico intenso, no qual um agente estadunidense tenta extrair informações sobre uma célula terrorista. Ao mesmo tempo, na televisão, Obama diz ao povo que os Estados Unidos não praticam tortura e são completamente contra qualquer tipo de coisa parecida. O que muita gente que elogia o brio audaz e investigativo do filme esquece é que, durante os três minutos iniciais de projeção, quando ainda não há imagem alguma na tela, o espectador escuta gravações reais de gente morrendo nas torres do WTC naquele fatídico 11 de setembro. O que, inconscientemente, quiçá conscientemente nos mais emotivos, legitima qualquer cena na qual um islâmico é torturado. É o morde-e-assopra típico das produções do gênero na atualidade.

A câmera é ligeira, a fotografia é pueril, a edição é eficaz e blá blá blá. A diretora tinha, além do peso do nome, um bom orçamento para filmar A hora mais escura. Caprichou nos figurinos e nos cenários. Aproveitando a experiência militar de Guerra ao Terror, deu bastante realismo às cenas mais tensas que envolveram tiros e explosões. Nisso, ela acertou. Mesmo tendo que, segundo alega em entrevistas, correr com a produção e improvisar o tal esconderijo de Bin Laden - pois soube, com a produção já em andamento, mais detalhes sobre a operação que deu fim a essa pedra no sapato dos Estados Unidos.

Bigelow deixou o pior para o desfecho. Ou melhor, ignorou o que de pior dizem ter acontecido. Porque alegar que o corpo de Bin Laden foi jogado ao mar em respeito - leia bem, respeito - às tradições religiosas dele, é desrespeitoso demais com a comunidade internacional. Está na cara que o motivo de terem dado um chá de sumiço na caveira era um só: evitar que Bin Laden se tornasse um mártir. Portanto, ao invés de um cadáver ao mar, o que já seria demais para uma obra de ficção baseada em fatos reais, vemos a protagonista de cócoras chorando num avião, de volta para casa. A mesma mecânica de Guerra ao Terror: o protagonista entregue ao horror da guerra, mas o público aliviado com o trabalho que precisava ser feito.

Não ganhou o Oscar porque zumbis - quer dizer, iranianos - estão na moda.

2 comentários:

Kamila disse...

Bom, eu gostei bastante de "A Hora Mais Escura". Acho que é mais uma excelente parceria entre a Kathryn Bigelow e o Mark Boal. Gosto do tom documental que ela imprime aos seus filmes e acho que o roteiro dele é o ponto alto de "A Hora Mais Escura". Acredito que o filme tenta lançar novas informações sobre o mistério que é a morte de Bin Laden e pode funcionar como um registro definitivo desse que é o acontecimento mais importante dos últimos anos, para os norte-americanos, pelo menos.

Rafael Carvalho disse...

Também gosto do filme e fico meio reticente sempre que alguém tenta mostrar que o filme defende a tortura. Acho que isso é parte de uma interpretação, que nem sempre é clara em termos de intenções dos realizadores do filme. A cena de Obama falando na TV é bastante emblemática porque mais denuncia a tortura como prática repulsiva, embora todos ali dentro sabem que é feita. De qualquer forma, sendo o roteiro aqui um trabalho original, é de se louvar a pesquisa que o filme conseguiu desenvolver. E as partes finais são muito boas enquanto ação, mas muito mais realistas e cuidadosas.