sexta-feira, fevereiro 01, 2013

#7 - Eraserhead, de David Lynch


Esta resenha vai furar a fila. Quando eu comprei o single de "Gigantic", dos Pixies - minha banda favorita - me deparei com uma faixa bastante enigmática, na qual Black Francis repetia o seguinte verso: In Heaven everything is fine. O título, "In Heaven (The Lady In The Radiator Song)", fazia alusão a uma personagem de um filme que era o predileto da banda. Pouco tempo depois, fiquei sabendo que se tratava de Eraserhead, primeira produção do mestre David Lynch. Naturalmente, a curiosidade em assisti-lo veio de forma avassaladora.

Na verdade, a curiosidade foi tamanha que me levou a conferir todos os filmes do Lynch. E, pasmem, até ontem estava faltando Eraserhead na minha lista. Por quê? Sei lá. Quer dizer, talvez até saiba. Era o filme que faltava para fechar a filmografia completa dele. Ou seja, nada mais de Lynch até o próximo lançamento. O que, de certa forma, é desalentador. Pior que não poderia ter feito melhor. Assistir por último ao primeiro filme de um dos diretores mais inventivos da história do cinema foi uma experiência mais excitante e enriquecedora.

O roteiro conta a história de Henry, um sujeito que vive e trabalha num distrito industrial. De férias, vai jantar na casa dos pais de sua namorada e descobre que é pai de um bebê mutante, provavelmente vítima da poluição local. Morando em um quarto de hotel, cuja janela dá para um muro de tijolos, ele é obrigado a se casar. Em pouco tempo, sua vida se transforma em um pesadelo.

Pode-se dizer que Eraserhead é mesmo um sonho ruim, daqueles mais sinistros, capturado em película. É o primeiro exercício da linguagem onírica, de contornos esquizoides e texturas sombrias, que permeia toda a obra do diretor. Lynch trabalha com afinco sua direção de atores e leva ao extremo suas experiências cênicas. Estão ali suas predileções por números musicais, palcos acortinados, pisos com desenhos simétricos e locações claustrofóbicas.

Aqui, permito-me fazer uma comparação de Eraserhead com o universo de Samuel Beckett. O que parece ser um encadeamento de cenas sem lógica aparente é, ao seu fechamento, uma complexa trama cíclica sobre a condição humana. Há, também, elementos estéticos que remetem a Beckett. A maneira com a qual os personagens interagem é bastante semelhante à pantomima clownesca do Teatro do Absurdo. Inclusive, curiosamente, um dos objetos cênicos de Eraserhead é um esquálido e solitário arbusto - o mesmo elemento usado por Beckett para marcar a passagem de tempo em Esperando Godot.

Para aqueles que gostam de experiências estéticas marcantes, Eraserhead é obrigatório. Uma produção que tomou cinco anos da vida de David Lynch e que encantou uma penca de mestres do cinema, como Terrence Malick e John Waters, que tentaram buscar apoio financeiro. Stanley Kubrick projetou o filme para seu elenco antes das filmagens de O Iluminado. George Lucas convidou Lynch para dirigir um episódio de Guerra nas Estrelas após assistir a Eraserhead - convite que ele recusou.

Desde 1977, é uma das obras mais geniais da sétima arte.

Um comentário:

Kamila disse...

O David Lynch é um grande diretor, mas eu não entendo as viagens dele, pra ser bem sincera. Prefiro o David Lynch diretor de "História Real", numa história mais convencional.

Beijos!