quarta-feira, fevereiro 20, 2013

#13 - Argo, de Ben Affleck


Nos filmes de Hollywood, os Estados Unidos sempre salvam o mundo. Em Argo, o filme que marca a estreia de Ben Affleck acumulando funções - galã e diretor - o negócio ficou mais patriótico ainda. Hollywood salva os Estados Unidos que salvam o mundo. E, apesar da sinopse indicar que trata-se de um drama, não se deixe enganar. Argo é um filme de terror. Ou melhor, um filme de terrorismo. Quer a prova? Substitua os iranianos por zumbis. É a mesma coisa.

O roteiro, cuja cartela inicial indica ser baseado em fatos reais, dá conta de um imbróglio diplomático que se transformou em um impasse político e, logo após, em um drama pessoal. Em 1979, depois da revolução islâmica que alçou ao poder o aiatolá Khomein, iranianos invadiram a embaixada dos EUA em Teerã para forçar o governo estadunidense a mandar de volta o ex-ditador, playboy e torturador Mohammad Reza Pahlavi, o xá deposto que ganhou asilo nas terras do Tio Sam. Cinco funcionários da embaixada conseguiram fugir, mas foram incansavelmente procurados pelo governo iraniano. Aí, a CIA entrou em ação para resgatá-los. O plano era mandar um agente até lá fingindo ser o produtor de um filme de ficção-científica, intitulado Argo. Os estadunidenses em perigo, abrigados na casa de um embaixador canadense, seriam membros da equipe técnica. E aí entrou Hollywood, que bancou toda a ideia, mesmo com o governo estadunidense achando tudo uma maluquice.

As cenas de invasão da embaixada são dignas dos melhores filmes de zumbis já produzidos. Há iranianos por tudo que é lado. Eles escalam muros, quebram vidraças, derrubam portas, arrancam grades, entram pelo porão. São incontroláveis, maltrapilhos, gritam palavras ininteligíveis. Como os mortos-vivos, são uma massa coletiva sem individualidade. E assim é o filme todo: um climão de suspense no qual iranianos estão à espreita. A diferença é que não comem cérebro. Se bem que não seria estranho se Hollywood, apoiada na islamofobia que toma conta dos Estados Unidos, propagasse por aí que a religião muçulmana preconiza a ingestão de massa cefálica.

Ok, tecnicamente o filme é bom. Fotografia, direção de arte, figurinos etc. Até a edição funciona. O que preocupa é a onda de produções que constroem uma imagem obtusa do mundo islâmico, tornando o cinema estadunidense, novamente, uma máquina de propaganda política, exatamente como foi feito durante a Guerra Fria, quando os russos eram a bola da vez. O que é o discurso da vitória de Rocky, que treinava socando carniça de boi, sobre o frio e temível Drago, que treinava tomando injeção de anabolizante num laboratório, em plena URSS, sob aplausos de Gorbachev?

Tem que ver isso aí...

Obs.: escrevi um artigo sobre os zumbis de Argo no blog do meu grande amigo Felipe "Bocão" Demier, o Convergência. Lá, a linguagem é outra, mais acadêmica, menos referencial. Quem quiser conferir, clique aqui!

2 comentários:

Kamila disse...

"Argo" marca a consagração definitiva de Ben Affleck como diretor. É, sem dúvida, um grande filme, que acerta no foco do roteiro escrito por Chris Terrio. Mas, acho que existem obras melhores no Oscar 2013... Acredito que o boom de "Argo" veio muito por causa do carisma dos envolvidos no filme, notadamente o próprio Ben Affleck e o produtor George Clooney.

Rafael Carvalho disse...

Muito interessante essa correlação com os filmes de zumbi. No fundo, o filme é mais um thriller político coreto, sem grandes atrativos que justifiquem assim uma recepção tão calorosa por parte de muitos. É clássico, segue as estrutura do cinema maniqueísta hollywoodiano e continua vendendo os EUA como os grandes heróis, só aqui em doses mais "realistas". Como disse um crítico por aí, quem venceu o Oscar mesmo foi a CIA.