sábado, fevereiro 16, 2013

#11 - O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho

A sessão estava completamente lotada. Os espectadores, inclusive, comiam pipoca e bebiam refrigerante. Desde a estreia no circuito brasileiro, O som ao redor é um dos filmes mais comentados por aí. Já faturou diversos prêmios no exterior, atiçando a curiosidade de um público que voltou a curtir produções nacionais. E talvez esse tenha sido o problema. Talvez as cinco pessoas que abandonaram a exibição do filme de Kleber Mendonça Filho estivessem acostumadas com o padrão televisivo que contaminou a produção cinematográfica do país. Deram mole, pois mal sabiam o que os minutos finais de projeção lhes reservaria.

A ideia de O som ao redor é, de fato, sedutora. Trata com uma poética própria a questão do crescimento urbano desordenado, inserindo ali as também desordenadas e conturbadas relações entre familiares e vizinhos. Com um tempo diferente, a câmera percorre as casas e as calçadas de uma rua no Recife, na qual prédios de arquitetura inclassificável e gosto duvidoso lutam pela paisagem. A rotina dos moradores começa a mudar quando um grupo de seguranças autônomos oferece proteção mediante pagamento de mensalidade.

Tudo vai muito bem até até certo ponto do roteiro. A parte que irritou os cinco clientes insatisfeitos é a que melhor expressa os objetivos do diretor. Aparentemente, nada acontece. No entanto, o que se percebe é o que acontece em qualquer outra vizinhança real. Ruídos comuns, ordinários e costumeiros se impregnam à narrativa a ponto de dar tons oníricos ao filme, ainda que não se apoie em uma linguagem estética mais bem planejada. Nos momentos em que o cineasta se deixa levar pelos devaneios, acerta em cheio - ou erra, diriam os tais desistentes. Há belas cenas, bons diálogos e um certo humor com piadas inteligentes.

Porém, nos minutos finais, o diretor entrega de mão beijada para um público acostumado ao romanesco e fácil o que eles tanto querem ver: um fato, um fim. E um fato completamente fútil, rasteiro, enfadonho. Esvazia toda a textura que criou anteriormente dando sentido cartesiano ao filme de forma mal ajambrada e sem graça. Por que essa opção de estruturar um argumento tão sutil?

Há quem diga que O som ao redor é uma crítica ao furor brasileiro com a nova classe média. Ou seja, era eu quem estava querendo enxergar poesia onde não havia. No entanto, isso seria, na minha opinião, reduzir o filme - que, inclusive, falharia com louvor fosse esse seu objetivo. Vai muito além, mas muito além mesmo. E há quem não enxergue esse horizonte simplesmente porque não dá tempo ao olhar, e aos ouvidos, para se deixar tomar pelo argumento.

É um filme diferente. Poderia ter sido genial.

3 comentários:

Kamila disse...

Gostei do seu texto. E estou curiosíssima em relação a esse filme, principalmente por causa das boas críticas e boa repercussão obtida, especialmente internacionalmente. Me parece ser uma experiência cinematográfica diferente e seu texto chama a atenção para um aspecto que ainda não tinha sido visto falado: o final, o fato.

Pedro Esteves disse...

Prezado Dudu, ontem li sua crítca ao filme. Mesmo dia em que enviava a minha para ser postada no Blah Cultural. Queria dizer que gostei muito da sua crítica, mas que discordo quanto a interpretação sobre o final. Por isso coloco o link da minha aqui para lhe mostra a minha visão: http://blahcultural.com/critica-de-fime-o-som-ao-redor/

Sinceramente;

Pedro Esteves disse...

Respondendo a sua análise no blahcultural.

Dudu;

Ao olharmos para o debate que o filme está causando, um ano depois de seu lançamento e dois meses depois da sua estreia no circuito nacional, podemos imaginar que ele tirou muita gente da sua zona de conforto, criou questões e deixou muita gente “boladaça”. Ou seja, se configurando como um obra de arte. Ou não? Existe muita gente que não considera arte contemporânea, pós-estruturalista, como arte, provavelmente as mesmas que não gostam do Jarmush. Se arte precisa de ousadia, então cada artista só produziu meia dúzia de trabalhos artísticos, pois desde que a primeira de suas obras é alçada a tal status, tudo que ele fizer na mesma linha não é ousado. Picasso, assim, só foi artista por pouco tempo, como Dali, Monet e o próprio Jarmush. Não sei, então se concordo com essa colocação.
A construções artísticas do Jarmush parece buscar um olhar neo-existêncialista sobre o mundo de sua época, retratando o tédio de uma geração que não se entende e não acha seu lugar no mundo. A apatia da imagem de Jarmush é uma apatia da existência. Em O Som ao Redor, o tédio não advêm de um existencialismo , mas de uma prisão historicizada, que se quer ignorar e não se quer entender. Cada um, pois, coloca-se em “seu lugar” no mundo, mesmo que não se sinta bem nele. No final, porém, esse lugar é rompido. Não vejo drama aqui, vejo movimento histórico. Há, pois, esperança de quebrarmos os grilhões da senzala, se fosse diferente, o devir sócio-histórico do filme e de nossas vidas se perderia. Abraços e até.