quinta-feira, janeiro 10, 2013

#2 - Twin Peaks, de David Lynch


O blog é sobre filmes. Porém, quando o seriado é uma obra de arte, acho justo abrir uma exceção. Quando eu era moleque e a TV Globo passava Twin Peaks, lembro-me que todo mundo borrava os fundilhos. Os episódios da famosa e controversa produção de David Lynch eram repletos de suspense, com trilha sonora obscura e recheado de cenas surreais e personagens bizarros. Ao longo das semanas em que foi ao ar, o público tentava entender o que diabos teria acontecido à Laura Palmer, uma bela jovem que é encontrada assassinada na pacata cidade que dá nome ao título. O motivo do crime passa a ser o mistério que vai nortear a série.

Lançada no início da década de 90, Twin Peaks era muito diferente do que se produzia até então para a TV. As séries que faziam sucesso nos Estados Unidos eram, em sua maioria, sitcoms. Ou então, dramalhões com linguagem bastante realista. Seguindo a cartilha, os seriados mais rentáveis e famosos eram, justamente, aqueles que não precisavam de uma observação anterior, em ordem cronológica, para que se compreendesse o episódio seguinte e, adiante, a trama por completo. Até hoje, os seriados estadunidenses bem sucedidos são aqueles que prendem o espectador muito mais pelo carisma dos personagens e atores do que pelo conteúdo.

Com Twin Peaks o buraco era bem mais embaixo. Lynch estava anos-luz à frente de seus contemporâneos. Já possuía uma assinatura estética ímpar. Conseguiu convencer a caretona CBS a bancar sua série, escrita ao lado do companheiro de projetos Mark Frost. A proposta era tão avant garde, que o diretor começou a ter problemas com a rede de televisão. O que estreou como um produto diferenciado, gerando curiosidade, acabou sendo estranhado meses depois, culminando numa queda brutal de audiência. Alega a CBS que a história era muito confusa. Alega Lynch que os executivos que tomavam conta da grade de programação mudavam com frequência o horário de exibição, o que dificultava o necessário acompanhamento da série capítulo por capítulo. Fato é que o desfecho foi abrupto.

Lynch, já famoso nos festivais europeus, ainda que os ignorasse vez ou outra (aliás, postura que ainda mantém), resolveu lançar sua produção no Velho Continente. O mercado, ali, parecia promissor, já que o público estava a salvo dos vícios estéticos e das fórmulas estadunidenses pasteurizadas de se fazer séries televisivas. Uma rede alemã comprou Twin Peaks, que já estava quase no fim nos EUA. Pois, no dia seguinte ao anúncio da exibição do primeiro capítulo, um canal concorrente contou quem matou Laura Palmer. Resultado: mais um - inexplicável, ainda que compreensível - fracasso de audiência.

Aqui no Brasil não foi diferente. A Globo, erroneamente, passava a série a seu bel-prazer sem seguir a ordem cronológica dos 29 episódios. O máximo que conseguia era deixar uma parte de sua audiência, já impressionada com as notícias catastróficas e apocalípticas do Fantástico, ainda mais enervada antes de dormir, com medo de ter pesadelos. Na TV a cabo, o canal Viva andou reprisando a série, mas desconheço os números alcançados com a audiência.

Deixando de lado a parte executiva, é preciso falar sobre o argumento. Twin Peaks se divide em duas partes. A primeira, é sobre a morte de Laura Palmer. A identidade do assassino é revelada no episódio 17. A partir daí, vem a segunda parte, na qual Lynch explora a misteriosa floresta que cerca a cidade, com seus mitos e mistérios sobrenaturais. O protagonista da série, o agente do FBI Dale Cooper, interpretado por Kyle MacLachlan, é quem conduz as duas investigações. Com o olhar do estrangeiro, aos poucos vai absorvendo o modo de vida aparentemente pacato e provinciano dos moradores da pequena e bucólica Twin Peaks.

Não se pode falar muito sobre o roteiro, sob pena de estragar o entretenimento alheio. De acordo com entrevistas, David Lynch e Mark Frost tiveram a ideia para o argumento da série enquanto escreviam um roteiro sobre a vida de Marilyn Monroe - projeto que não foi adiante. Fato é que muitas das ideias que depois viriam a ser executadas nos filmes de Lynch foram experimentadas em Twin Peaks. Principalmente as particularidades de Cidade dos Sonhos, filme no qual a linguagem onírica - da estética do pesadelo, já presente em Eraserhead - e as referências simbolistas são levadas ao extremo, criando atmosfera e textura.

A série começa assustadoramente misteriosa. Até o episódio da resolução do assassinato de Laura Palmer, o suspense é permanente, com reviravoltas muito bem planejadas. Os planos são absolutamente magistrais, a direção de arte faz as cores saltarem aos olhos e a música de Angelo Badalamenti é de arrepiar! Logo após, Lynch deixa direção e redação a cargo de assistentes, e se afasta para filmar seu primoroso Coração Selvagem. Aí, a série dá uma caída. Inclusive, curiosa e inexplicavelmente, há um episódio dirigido por Diane Keaton, uma das atrizes mais insossas e chatas de Hollywood.

As coisas só voltam aos trilhos lá pelo episódio 22, quando o tom sobrenatural ganha força na trama. Sabendo que a série seria cancelada, Lynch volta para dirigir somente o último episódio - que é uma pequena obra-prima dentro da série. Absurdamente fantástico e refinado, sublinha o abismo que existia entre os diretores assistentes da CBS e Lynch. Um abismo profundo, muito profundo. A trama termina de forma bizarra e, inevitavelmente, deixa algumas questões em aberto.

Mais tarde, Lynch voltaria a juntar o elenco de Twin Peaks para filmar Fire walk with me, uma produção cinematográfica que mostra as últimas horas de vida de Laura Palmer - em breve, resenha dele também.

Se há muito o que falar de Twin Peaks, há muito mais o que se ver. Vá em frente!

2 comentários:

Unknown disse...

Pois é. Twin Peaks é a grande mãe de séries de mistério como Arquivo X e Lost, e minha série de TV preferida de todos os tempos. Concordo contigo que o arco subsequente à revelação do assassino de Laura Palmer tirou o trem dos trilhos e talvez tenha sido essa a principal razão do cancelamento da série. Talvez Lynch tenha (parcialmente) dado as costas em função de o terem obrigado a revelar o assassino, coisa que ele não queria fazer. O roteiro se perdeu e a natureza de alguns personagens virou do avesso de uma hora para outra. Audrey deveria ficar com Cooper, mas Mclelan (influenciado por sua namorada Lara Flyn Boyle) se recusou a aceitar que Cooper namorasse uma menor de idade. Ben Horne virou uma caricatura sem função e muitos personagens se tornaram dispensáveis à trama (talvez já o fossem anteriormente). A verdade é que sem Lynch e Mark Frost por perto e com as constantes intervenções da emissora e muita gente botando a mão, a série se desmantelou, e quando Lynch voltou era tarde. Talvez tenha sido melhor assim. A história ficou incompleta, Lynch só conmseguiu fazer um dos três filmes que pretendiam cobrir o buraco do cancelamento, mas os fãs não param de discutir e conjecturar sobre os personagens um só minuto até hoje, 20 anos depois. Não é, por exemplo, o caso de Lost, que cansou o público com 6 temporadas e teve um final pouco inspirado, preocupado demais em não decepcionar e que acabou decepcionando mesmo os que inicialmente apreciaram o fim "conservador" da série. Hoje ninguém quer mais ouvir falar de Lost, apesar do incontestável sucesso. Será que volta a Lostmania daqui a 20 anos?

Anônimo disse...

Terminei de assistir agora no Netflix. A primeira temporada é sensacional, mas a segunda já acho muito "pirada", sonhos e o sobrenatural tiram a série do caminho.

Minha opinião. Minha dica é The Killing.