terça-feira, janeiro 08, 2013

#1 - Iracema - uma transa amazônica, de Jorge Bodanzky

Olha eu aqui de novo! Depois de receber o carinho de muitos leitores - de alguns que eu desconhecia frequentar esse sítio, inclusive - resolvi que ano novo, fôlego novo. E, para começar com o pé direito, um clássico do cinema nacional, que muitas vezes é vítima do trocadilho infame do título. Muito tarado vai parar aqui por conta do Google. No entanto, não podemos nos deixar enganar: Iracema - uma transa amazônica é um dos filmes mais importantes da história audiovisual no Brasil. 

O filme - que mostra o encontro de Tião Brasil Grande, um caminhoneiro em busca de dinheiro na região Norte, e Iracema, uma jovem que sai de casa para tentar a sorte pela estrada e acaba virando prostituta - influenciou de forma definitiva o cinema brasileiro. Por diversos motivos.

Em primeiro lugar, foi filmado em uma época de ditadura pavorosa, em pleno governo de Emílio Garrastazu Médici. Sofreu bastante com a censura, que só o liberou para exibição no Brasil em 1981, anos depois de sua produção, em 1976, quando foi finalizado na Alemanha. Antes mesmo de ganhar o circuito brasileiro, venceu prêmios no mundo inteiro. Durante cinco anos, ficou restrito a sessões clandestinas em cineclubes.

Depois, é preciso destacar a linguagem usada por Jorge Bodanzky, quase um Jean Rouch brasileiro, misturando ficção e cinedocumentário para levar à plateia uma espécie de denúncia. A saber, o que acontecia ao redor da famosa rodovia Transamazônica, a obra megalomaníaca, praticamente inviável, que era a promessa de progresso em um governo que investia pesado em propaganda política. Era a época dos motes ufanistas, como "Brasil, ame-o ou deixe-o".  De forma contundente, a câmera deixa explícita uma série de ocorrências na região, como exploração sexual (sacou o trocadilho agora?), trabalho escravo, pedofilia, negligência dos poderes públicos etc.

Outro ponto surpreendente é a direção de atores. Com a participação irrepreensível de Paulo César Pereio, já um bad boy do cinema brasileiro à época, as ações são conduzidas sem roteiro, de forma experimental, buscando o improviso que vai servir de antítese à realidade. A protagonista, interpretada por Edna de Cássia, é, ela mesma, tautológica como o argumento pede. É jovem, ingênua, inexperiente, mas absurdamente expressiva. Confundem-se em todas as cenas.

Um punhado de sequências inesquecíveis, uma direção de atores até então impensável, um documento histórico travestido de ficção e um argumento corajoso. Só por isso já valeria o confere. Mas é muito mais que isso. É cinema feito com envolvimento. Citando Rouch novamente, é quase etnográfico.

Fantástico!

Um comentário:

Anônimo disse...

eu assistir esse filme eu torcia que iracema ficase com tiao no final , mais tiao nao mudou o destino da moça que pena eu espera que la tivesse um final feliz do lado dele