quarta-feira, janeiro 30, 2013

#6 - Inquietos (Restless), de Gus Van Sant


É o tipo de filme que eu evito já pela sinopse > durante um velório, uma jovem com um tumor no cérebro conhece um garoto que frequenta funerais de desconhecidos. Impossível não lembrar daqueles dramalhões terríveis da Sessão da Tarde e do Supercine sobre histórias reais de dor seguidas de superação ou resignação. A diferença, aqui, e que teve um peso enorme na minha decisão de ver o filme, é a direção de Gus Van Sant, sujeito pouco afeito aos clichês romanescos que tanto inundam os olhos e os roteiros do gênero dramático.

Pois bem, é dessa relação improvável que parte o argumento de Inquietos. O garoto tenta aprender a lidar com a vida, e a garota precisa aprender a lidar com a morte. Essa troca de experiências leva os dois a tentar compreender questões nada simples que envolvem amor, família, religião etc. Ou seja, era muito fácil cair na tragédia.

O casal protagonista é absolutamente fantástico. Van Sant abandona o estilo liberal para delinear metodicamente sua direção de atores. Arranca atuações emocionantes sem ser piegas. Henry Hopper e Mia Wasikowska convencem o espectador a compartilhar das angústias que ambos vivem.

No fim das contas - ou melhor, da projeção - fica uma espécie de admiração ao diretor por permitir a quem não curte dramalhões exagerados poder mergulhar de forma satisfatória num argumento que permeia questões caras a todos nós. O desfecho é lindo. Simples, comovente e sem lágrimas a granel.

Fica o meu agradecimento ao Van Sant. Obrigado, cara.

domingo, janeiro 20, 2013

#5 - Casa de mi padre, de Matt Piedmont

Mais um filme dirigido por um roteirista do Saturday Night Live. Provavelmente, Casa de mi padre nem vai ganhar o circuito brasileiro. Foi lançado lá fora, mas não deu muito certo. Talvez exista mesmo uma resistência para produções do tipo. Trata-se de uma comédia que brinca com os clichês das produções mexicanas de baixo orçamento, brincadeira que Robert Rodriguez fez com certo êxito. Acontece que o público de Rodriguez é bem diferente do público do SNL.

O roteiro é uma besteira tremenda, como deveria ser mesmo. Um sujeito nascido e criado num rancho mexicano vê a honra de sua família ameaçada depois que seu irmão, o mais querido pelo pai, volta da Cidade do México anunciando que vai se casar com uma sedutora e misteriosa mulher. Will Ferrell, que é um cara engraçado, é a grande estrela do filme, interpretando o tal rancheiro boboca e sentimentalista que percebe algo de errado com o casamento. Gael García Bernal faz ponta de luxo como um narcotraficante.

O grande barato de Casa de mi padre, que é a brincadeira com a estética do exagero dramático, pode - e deve - passar despercebido para a maioria. Há cenários falsos, erros de continuidade, efeitos toscos e falhas propositais na montagem. O filme é falado em um espanhol pífio, já que Ferrell e seus compatriotas não têm qualquer familiaridade com o idioma. De resto, é entrar no clima.

Duvido que agrade muita gente...

domingo, janeiro 13, 2013

#4 - Dog Soldiers, de Neil Marshall

Minha querida amiga Ju Herkenhoff havia me emprestado Dog Soldiers há muito tempo - muito tempo mesmo! Acho que o DVD adornou minha prateleira por uns três anos. Eu sempre prometia a ela que ia ver, mas não via. Dizia ela ser um bom filme sobre lobisomens. Enrolei o quanto pude, até o dia em que ela esteve aqui em casa e ameaçou levá-lo de volta para sua prateleira. A pressão funcionou. Finalmente assisti ao dito cujo - mas contrariado, pois queria ver um filme do Alain Resnais...

Foi difícil dizer a ela que trata-se de uma das produções mais mal feitas e mal acabadas que eu já vi. Tecnicamente é tão estapafúrdio, que fica difícil levá-lo na brincadeira, ainda que o roteiro seja inventivo. Conta a história de um grupo de militares britânicos que vai parar numa floresta escocesa para um treinamento de rotina. No entanto, as manobras de guerra que eram para ser de mentirinha acabam se tornando esforços para fugir da morte. Pior, para escapar de famintos lobisomens.

A montagem é uma piada, deixando o suspense totalmente em segundo plano. Não há sustos, dada a ineficiência e a lentidão da edição. Os atores são todos péssimos e os diálogos são pavorosos. As tais criaturas sobrenaturais mais parecem monstros carnavalescos saídos de um seriado japonês. As referências bacanas acabam prejudicadas pela ineficácia da direção. Como, por exemplo, o roteiro ser ambientado numa noite de lua cheia em que a Inglaterra, país de origem da produção, bateu a Alemanha por 5 a 1 em uma importante partida de futebol.

No entanto, verdade seja dita: há pelo menos duas cenas antológicas! Na primeira, um sargento coloca para dentro do abdome suas próprias tripas, expostas após um ataque de lobisomem. Na outra, um soldado sai na porrada, como um lutador de boxe, à base de esquivas e jabs, com uma das criaturas. Pena que a ousadia e o absurdo dessas sequências não se repitam ao longo da projeção.

Permita-me a conclusão, Ju: chato demais!

sábado, janeiro 12, 2013

#3 - Vizinhos imediatos de 3º grau (The Watch), de Akiva Schaffer

Pelo elenco, valia a pena: Ben Stiller, Vince Vaughn, Seth Rogen e a estrela maior, que também é a que não está no firmamento, Richard Ayoade - o Moss de The IT Crowd, o melhor seriado do mundo. Já pelo roteiro, nem tanto. Ainda que seja dirigido por um roteirista do Saturday Night Live, Vizinhos imediatos de 3º grau (um dos piores títulos em português da história recente) é aquele filme bobamente sério, do tipo que não ousa tanto para não passar de uma linha imaginária cartografada pelo mercado cinematográfico. E quando um filme é bobamente sério ao invés de ser seriamente bobo, não costuma me agradar.

A história se passa em um pequeno bairro do subúrbio estadunidense. Quando uma série de estranhos assassinatos toma conta do lugar, diante da ineficácia da polícia local, o quarteto supracitado se une e forma um esquadrão de vigília comunitária. Como o título sugere, logo eles se veem diante de alienígenas que ameaçam destruir a Terra.

Vá lá, há sequências divertidas. Poucas, mas elas existem. Os diálogos, que podiam ser bem trabalhados dado o talento dos atores para o improviso, são pífios. O desfecho é realmente o pior, mas nada muito diferente do que acontece com o resto das comédias bobamente sérias - inclusive das que fazem sucesso na bilheteria. Essa, provavelmente, vai passar despercebida.

 Pobre Ayoade... Não precisava.

quinta-feira, janeiro 10, 2013

#2 - Twin Peaks, de David Lynch


O blog é sobre filmes. Porém, quando o seriado é uma obra de arte, acho justo abrir uma exceção. Quando eu era moleque e a TV Globo passava Twin Peaks, lembro-me que todo mundo borrava os fundilhos. Os episódios da famosa e controversa produção de David Lynch eram repletos de suspense, com trilha sonora obscura e recheado de cenas surreais e personagens bizarros. Ao longo das semanas em que foi ao ar, o público tentava entender o que diabos teria acontecido à Laura Palmer, uma bela jovem que é encontrada assassinada na pacata cidade que dá nome ao título. O motivo do crime passa a ser o mistério que vai nortear a série.

Lançada no início da década de 90, Twin Peaks era muito diferente do que se produzia até então para a TV. As séries que faziam sucesso nos Estados Unidos eram, em sua maioria, sitcoms. Ou então, dramalhões com linguagem bastante realista. Seguindo a cartilha, os seriados mais rentáveis e famosos eram, justamente, aqueles que não precisavam de uma observação anterior, em ordem cronológica, para que se compreendesse o episódio seguinte e, adiante, a trama por completo. Até hoje, os seriados estadunidenses bem sucedidos são aqueles que prendem o espectador muito mais pelo carisma dos personagens e atores do que pelo conteúdo.

Com Twin Peaks o buraco era bem mais embaixo. Lynch estava anos-luz à frente de seus contemporâneos. Já possuía uma assinatura estética ímpar. Conseguiu convencer a caretona CBS a bancar sua série, escrita ao lado do companheiro de projetos Mark Frost. A proposta era tão avant garde, que o diretor começou a ter problemas com a rede de televisão. O que estreou como um produto diferenciado, gerando curiosidade, acabou sendo estranhado meses depois, culminando numa queda brutal de audiência. Alega a CBS que a história era muito confusa. Alega Lynch que os executivos que tomavam conta da grade de programação mudavam com frequência o horário de exibição, o que dificultava o necessário acompanhamento da série capítulo por capítulo. Fato é que o desfecho foi abrupto.

Lynch, já famoso nos festivais europeus, ainda que os ignorasse vez ou outra (aliás, postura que ainda mantém), resolveu lançar sua produção no Velho Continente. O mercado, ali, parecia promissor, já que o público estava a salvo dos vícios estéticos e das fórmulas estadunidenses pasteurizadas de se fazer séries televisivas. Uma rede alemã comprou Twin Peaks, que já estava quase no fim nos EUA. Pois, no dia seguinte ao anúncio da exibição do primeiro capítulo, um canal concorrente contou quem matou Laura Palmer. Resultado: mais um - inexplicável, ainda que compreensível - fracasso de audiência.

Aqui no Brasil não foi diferente. A Globo, erroneamente, passava a série a seu bel-prazer sem seguir a ordem cronológica dos 29 episódios. O máximo que conseguia era deixar uma parte de sua audiência, já impressionada com as notícias catastróficas e apocalípticas do Fantástico, ainda mais enervada antes de dormir, com medo de ter pesadelos. Na TV a cabo, o canal Viva andou reprisando a série, mas desconheço os números alcançados com a audiência.

Deixando de lado a parte executiva, é preciso falar sobre o argumento. Twin Peaks se divide em duas partes. A primeira, é sobre a morte de Laura Palmer. A identidade do assassino é revelada no episódio 17. A partir daí, vem a segunda parte, na qual Lynch explora a misteriosa floresta que cerca a cidade, com seus mitos e mistérios sobrenaturais. O protagonista da série, o agente do FBI Dale Cooper, interpretado por Kyle MacLachlan, é quem conduz as duas investigações. Com o olhar do estrangeiro, aos poucos vai absorvendo o modo de vida aparentemente pacato e provinciano dos moradores da pequena e bucólica Twin Peaks.

Não se pode falar muito sobre o roteiro, sob pena de estragar o entretenimento alheio. De acordo com entrevistas, David Lynch e Mark Frost tiveram a ideia para o argumento da série enquanto escreviam um roteiro sobre a vida de Marilyn Monroe - projeto que não foi adiante. Fato é que muitas das ideias que depois viriam a ser executadas nos filmes de Lynch foram experimentadas em Twin Peaks. Principalmente as particularidades de Cidade dos Sonhos, filme no qual a linguagem onírica - da estética do pesadelo, já presente em Eraserhead - e as referências simbolistas são levadas ao extremo, criando atmosfera e textura.

A série começa assustadoramente misteriosa. Até o episódio da resolução do assassinato de Laura Palmer, o suspense é permanente, com reviravoltas muito bem planejadas. Os planos são absolutamente magistrais, a direção de arte faz as cores saltarem aos olhos e a música de Angelo Badalamenti é de arrepiar! Logo após, Lynch deixa direção e redação a cargo de assistentes, e se afasta para filmar seu primoroso Coração Selvagem. Aí, a série dá uma caída. Inclusive, curiosa e inexplicavelmente, há um episódio dirigido por Diane Keaton, uma das atrizes mais insossas e chatas de Hollywood.

As coisas só voltam aos trilhos lá pelo episódio 22, quando o tom sobrenatural ganha força na trama. Sabendo que a série seria cancelada, Lynch volta para dirigir somente o último episódio - que é uma pequena obra-prima dentro da série. Absurdamente fantástico e refinado, sublinha o abismo que existia entre os diretores assistentes da CBS e Lynch. Um abismo profundo, muito profundo. A trama termina de forma bizarra e, inevitavelmente, deixa algumas questões em aberto.

Mais tarde, Lynch voltaria a juntar o elenco de Twin Peaks para filmar Fire walk with me, uma produção cinematográfica que mostra as últimas horas de vida de Laura Palmer - em breve, resenha dele também.

Se há muito o que falar de Twin Peaks, há muito mais o que se ver. Vá em frente!

terça-feira, janeiro 08, 2013

#1 - Iracema - uma transa amazônica, de Jorge Bodanzky

Olha eu aqui de novo! Depois de receber o carinho de muitos leitores - de alguns que eu desconhecia frequentar esse sítio, inclusive - resolvi que ano novo, fôlego novo. E, para começar com o pé direito, um clássico do cinema nacional, que muitas vezes é vítima do trocadilho infame do título. Muito tarado vai parar aqui por conta do Google. No entanto, não podemos nos deixar enganar: Iracema - uma transa amazônica é um dos filmes mais importantes da história audiovisual no Brasil. 

O filme - que mostra o encontro de Tião Brasil Grande, um caminhoneiro em busca de dinheiro na região Norte, e Iracema, uma jovem que sai de casa para tentar a sorte pela estrada e acaba virando prostituta - influenciou de forma definitiva o cinema brasileiro. Por diversos motivos.

Em primeiro lugar, foi filmado em uma época de ditadura pavorosa, em pleno governo de Emílio Garrastazu Médici. Sofreu bastante com a censura, que só o liberou para exibição no Brasil em 1981, anos depois de sua produção, em 1976, quando foi finalizado na Alemanha. Antes mesmo de ganhar o circuito brasileiro, venceu prêmios no mundo inteiro. Durante cinco anos, ficou restrito a sessões clandestinas em cineclubes.

Depois, é preciso destacar a linguagem usada por Jorge Bodanzky, quase um Jean Rouch brasileiro, misturando ficção e cinedocumentário para levar à plateia uma espécie de denúncia. A saber, o que acontecia ao redor da famosa rodovia Transamazônica, a obra megalomaníaca, praticamente inviável, que era a promessa de progresso em um governo que investia pesado em propaganda política. Era a época dos motes ufanistas, como "Brasil, ame-o ou deixe-o".  De forma contundente, a câmera deixa explícita uma série de ocorrências na região, como exploração sexual (sacou o trocadilho agora?), trabalho escravo, pedofilia, negligência dos poderes públicos etc.

Outro ponto surpreendente é a direção de atores. Com a participação irrepreensível de Paulo César Pereio, já um bad boy do cinema brasileiro à época, as ações são conduzidas sem roteiro, de forma experimental, buscando o improviso que vai servir de antítese à realidade. A protagonista, interpretada por Edna de Cássia, é, ela mesma, tautológica como o argumento pede. É jovem, ingênua, inexperiente, mas absurdamente expressiva. Confundem-se em todas as cenas.

Um punhado de sequências inesquecíveis, uma direção de atores até então impensável, um documento histórico travestido de ficção e um argumento corajoso. Só por isso já valeria o confere. Mas é muito mais que isso. É cinema feito com envolvimento. Citando Rouch novamente, é quase etnográfico.

Fantástico!