quarta-feira, maio 01, 2013

#18 - Rota irlandesa (Route irish), de Ken Loach

Cinema político é para muito poucos. Não adianta, Ben Affleck. Não adianta, Kathryn Bigelow. Para argumentar politicamente em roteiros dramáticos é preciso ser, tipo assim, um Ken Loach - alguém comprometido com uma visão de mundo que vai além do estrelato e da fortuna ofuscantes de Hollywood. Anos depois de ser produzido e lançado lá fora, em 2010, Rota irlandesa chegou aos cinemas daqui no ano passado. Passou despercebido, coitado.

O filme dramatiza uma espécie de denúncia pertinente do pós-guerra no Iraque. Trata-se da proliferação de mercenários e grupos paramilitares atuando em Bagdá em busca de lucro com a situação de tensão permanente em que o país se encontra. O título do filme faz menção a uma das estradas mais perigosas do mundo, a tal rota irlandesa, que liga o aeroporto de Bagdá à chamada Zona Verde, uma área militarizada de segurança máxima que se tornou, também, o símbolo máximo da ocupação estadunidense no Iraque.

Acompanhamos a história de Fergus, um ex-militar inglês que trabalha para uma empresa de segurança privada que escolta estrangeiros pela rota irlandesa. Depois que seu amigo, também segurança, é assassinado brutalmente em serviço na região, ele busca desvendar o que realmente aconteceu. E dá de cara com uma realidade cruel e assustadora, onde manipula-se a guerra para benefícios escusos.

Loach não tem orçamento milionário. Seu filme é simples na estética, sem ousadias, sem explosões pirotécnicas, sem edição ligeira, sem atores badalados. É o conteúdo a grande estrela de Rota irlandesa, que se sobressai e salta aos olhos do espectador.

Ken Loach sempre vale a pena. Vale por uma aula de política internacional.

domingo, março 31, 2013

#17 - Moonrise Kingdom, de Wes Anderson

Muita gente por aí diz que Wes Anderson é um diretor indie. E por dois motivos. O primeiro, meio óbvio, é que o cara faz filmes independentes, sem estar atrelado aos grandes estúdios, o que lhe dá uma certa liberdade para exercer sua criatividade - e que criatividade! O segundo motivo, de cunho pejorativo, faz menção àquele estilo meio hipster que frequentemente é mal interpretado. Indie, hipster, cool ou não, fato é que pouquíssimos diretores sabem se utilizar tão bem da linguagem cinematográfica quando vão contar uma história. E, além disso, menos ainda sabem que cinema ainda é, lá no fundo, em sua essência, uma forma de contar histórias.

Seu novo filme é uma pequena fábula sobre o amor juvenil. No caso, entre um escoteiro órfão e uma adolescente lacônica superprotegida pelos pais. Ele foge do acampamento e ela, de casa. O casal de pombinhos marca um encontro no meio das pradarias da ilha onde moram, em busca de emancipação. Logo, colocam toda a localidade em alerta.

Como em todos os filmes de Anderson, os personagens são geniais. Ordinários por fora, complexos por dentro. E, justamente por serem tão simples, meio antiquados, esquisitões até, a identificação com pelo menos um deles é certa. Justamente o que faz com que a narrativa funcione, ainda que o argumento seja boboca. E é justamente por isso que Anderson tem o seu valor > estivesse esse roteiro nas mãos de outro realizador, um que não tivesse o apreço e o gosto pela direção de arte hipster ou indie, o resultado seria enfadonho.

Anderson é sujeito que conhece a fundo o ofício. Sua produção é tão caprichada, que dá gosto de ver. Fotografia, figurinos, trilha sonora, diálogos. É nítida a preocupação que ele tem com cada detalhe, o que faz, no fim das contas, com que o filme seja ímpar, só dele e de mais ninguém. Uma rubrica indelével. Além disso, sua habilidade para direção de atores é genial. Não à toa, seu elenco é primoroso e rende irretocavelmente. O casal protagonista é absolutamente incrível. Dois atores mirins com um futuro formidável. Tem Frances McDormand, uma das melhores atrizes em atividade há muito tempo. Tem Bruce Willis em um papel que não é de Bruce Willis. Tem o fantástico Bill Murray. E tem até Edward Norton, que ficou meio esquecido.

Se você catar pelo YouTube, vai encontrar vídeos humorísticos de como seriam alguns sucessos de bilheteria se fossem dirigidos por Wes Anderson. Tem Guerra nas Estrelas e Senhor dos Anéis. Uma piada com o jeito dele de fazer filmes. Ou seria um lisonjeiro reconhecimento pelo talento?

Fico com a segunda opção.

quinta-feira, março 21, 2013

#16 - Pindorama - A verdadeira história dos 7 anões, de Roberto Berliner, Lula Queiroga e Leo Crivelare

Documentários precisam de personagens. É a chave para que essa linguagem possa ser explorada de forma a prender o espectador na poltrona. E quando o objeto documental é interessante, o filme faz sentido por si mesmo - a proposta ganha forma naturalmente, quase espontaneamente, seguindo um curso que muitas vezes deixa diretores e produtores à deriva. Um argumento que tem bons personagens se apruma logo. É o caso de Pindorama - A verdadeira história dos 7 anões, documentário que retrata a vida de sete irmãos, todos anões, que mantém um circo em atividade no nordeste brasileiro.

A rotina é dura, o lucro é pouco e a fama é questionável. Pindorama é um circo regional nos moldes antigos, daqueles que são montados e desmontados da noite para o dia, com lona gasta e pano de roda desbotado. O documentário dirigido por Roberto Berliner, Lula Queiroga e Leo Crivelare se apoia, acertadamente, em dois caminhos diferentes. O primeiro é estético: as cores, os tons e os sons de uma arte que é cada vez mais rara no Brasil. O segundo é fetichista: o fascínio e a estranheza que anões podem provocar no público simplesmente por serem adultos muito pequenos.

Todos os sete irmãos, cinco homens e duas mulheres, têm suas vidas esmiuçadas. Compartilham histórias bonitas, tristes, dramáticas e românticas - do mesmo tamanho e intensidade que as nossas, de estatura dentro do padrão global. Seus parceiros, familiares e amigos, que vivem no entorno do circo, também ganham voz. Há, inclusive, depoimentos de pessoas que fugiram com o circo, numa das formas mais poéticas de rebeldia e emancipação, que ainda é possível somente nesse pequeno universo explorado pelo filme. Vale ressaltar a trilha sonora, composta por Lula Queiroga. Um show à parte, que complementa com sutileza a fala dos personagens.

Pode parecer que não há lá muitos objetivos em Pindorama, ou que o roteiro não justifique o trabalho. No entanto, o resultado é um divertido e inusitado estudo sobre o comportamento humano. Este, então, o motivo pelo qual vale tanto a pena investir no cinedocumentário.

Agradecimento especial a minha querida amiga Anna Julia, que me emprestou o filme, e com quem compartilho, além de uma certa visão de mundo, o apreço pelos documentários.

domingo, março 17, 2013

#15 - Raul - o início, o fim e o meio, de Walter Carvalho

Assistindo ao documentário de Raul Seixas, a gente percebe que sabe cantar junto quase todas as músicas dele. Cujas letras são, em sua maioria, geniais! Um artista carismático e, de certa forma, subversivo, flertando com o ocultismo e as sociedades secretas, merecia mesmo um filme. Raul era um baita personagem nos palcos. Não podia ser diferente num argumento que justificasse um documentário. Demorou, mas Walter Carvalho fez o favor de dirigir a cinebiografia de um dos maiores ícones do rock nacional. Ou alguém discorda?

O material de apoio é bastante rico. Há gravações inéditas, fotografias antigas e entrevistas com parceiros e amigos que acompanharam de perto a carreira de Raulzito, desde a adolescência, quando era um fanático por Elvis Presley, até os momentos finais de vida, quando foi vítima de ostracismo midiático e acabou sucumbindo de vez ao alcoolismo. Inclusive, Walter Carvalho não deixa de fora algumas polêmicas que cercaram a vida do músico, como o abuso das drogas, as conturbadas relações amorosas e a acusação que recaiu sobre Marcelo Nova, líder do Camisa de Vênus, de explorar Raulzito no final de sua vida, quando o levou a participar de uma turnê com mais de 100 apresentações.

Apesar das quebras dramáticas bastante sombrias, o que fica registrado são os bons momentos da vida de um sujeito que cantava aos quatro ventos o célebre verso faze o que tu queres, pois é tudo da lei. Numa das melhores sequências do filme, Paulo Coelho é importunado por uma mosca enquanto fala sobre o ex-parceiro. Em outra, podemos testemunhar a gravação, em estúdio, de "Eu também vou reclamar" (minha música predileta do cara) - uma verdadeira bagunça!

Não tem jeito: assim que o filme acaba, você tem vontade de gritar... Toca Rauuuuuuul!

sábado, março 02, 2013

#14 - A hora mais escura (Zero dark thirty), de Kathryn Bigelow

Eu assisti ao novo filme de Kathryn Bigelow antes da premiação do Oscar, mas só tive tempo para resenhá-lo agora, depois de Argo ter sido o grande vencedor daquela noite. Acreditei que seria esse o filme a desbancar o investimento de Steven Spielberg - como a diretora  já havia feito anteriormente, desbancando um investimento de James Cameron. E nem foi! Poderia, porque A hora mais escura guarda muitas semelhanças com Guerra ao Terror. Tanto na questão estética quanto na celeuma descabida provocada no público e na crítica.

O roteiro mostra os bastidores da missão que levou a óbito o então líder da Al-Qaeda e inimigo número um do governo estadunidense, Osama Bin Laden. Diz a cartela inicial se tratar de um filme baseado em fatos verídicos. Quem acompanhou o noticiário à época deve se lembrar como tudo se deu: dois helicópteros estadunidenses foram até uma casa, onde Judas perdeu as botas, numa região desértica do Afeganistão, para capturar Bin Laden. Um deles, inclusive, caiu no terreno baldio ao lado, uma parvalhice só, deixando exposta essa marca registrada dos EUA em confrontos bélicos. Bom, o resto você já sabe, ou não. Mataram o Bin Laden e o corpo, respeitando a doutrina islâmica, eles jogaram no mar. Tá bom, vai...

A protagonista de A hora mais escura é uma agente da CIA chamada Maya. Ela jura de pés juntos que sabe onde o barbudo malvado está entocado. Acaba travando uma guerra interna para que a tal missão saia do papel. Ao longo da projeção, vai conhecendo os meandros da guerra, acostumando-se com a moral torta e a ética obtusa que costumam imperar em regiões conflituosas.

Tem gente por aí dizendo que o filme de Bigelow é muito corajoso porque toca num assunto constrangedor para o governo dos EUA: a tortura. O filme começa com uma sessão de sofrimento físico intenso, no qual um agente estadunidense tenta extrair informações sobre uma célula terrorista. Ao mesmo tempo, na televisão, Obama diz ao povo que os Estados Unidos não praticam tortura e são completamente contra qualquer tipo de coisa parecida. O que muita gente que elogia o brio audaz e investigativo do filme esquece é que, durante os três minutos iniciais de projeção, quando ainda não há imagem alguma na tela, o espectador escuta gravações reais de gente morrendo nas torres do WTC naquele fatídico 11 de setembro. O que, inconscientemente, quiçá conscientemente nos mais emotivos, legitima qualquer cena na qual um islâmico é torturado. É o morde-e-assopra típico das produções do gênero na atualidade.

A câmera é ligeira, a fotografia é pueril, a edição é eficaz e blá blá blá. A diretora tinha, além do peso do nome, um bom orçamento para filmar A hora mais escura. Caprichou nos figurinos e nos cenários. Aproveitando a experiência militar de Guerra ao Terror, deu bastante realismo às cenas mais tensas que envolveram tiros e explosões. Nisso, ela acertou. Mesmo tendo que, segundo alega em entrevistas, correr com a produção e improvisar o tal esconderijo de Bin Laden - pois soube, com a produção já em andamento, mais detalhes sobre a operação que deu fim a essa pedra no sapato dos Estados Unidos.

Bigelow deixou o pior para o desfecho. Ou melhor, ignorou o que de pior dizem ter acontecido. Porque alegar que o corpo de Bin Laden foi jogado ao mar em respeito - leia bem, respeito - às tradições religiosas dele, é desrespeitoso demais com a comunidade internacional. Está na cara que o motivo de terem dado um chá de sumiço na caveira era um só: evitar que Bin Laden se tornasse um mártir. Portanto, ao invés de um cadáver ao mar, o que já seria demais para uma obra de ficção baseada em fatos reais, vemos a protagonista de cócoras chorando num avião, de volta para casa. A mesma mecânica de Guerra ao Terror: o protagonista entregue ao horror da guerra, mas o público aliviado com o trabalho que precisava ser feito.

Não ganhou o Oscar porque zumbis - quer dizer, iranianos - estão na moda.

quarta-feira, fevereiro 20, 2013

#13 - Argo, de Ben Affleck


Nos filmes de Hollywood, os Estados Unidos sempre salvam o mundo. Em Argo, o filme que marca a estreia de Ben Affleck acumulando funções - galã e diretor - o negócio ficou mais patriótico ainda. Hollywood salva os Estados Unidos que salvam o mundo. E, apesar da sinopse indicar que trata-se de um drama, não se deixe enganar. Argo é um filme de terror. Ou melhor, um filme de terrorismo. Quer a prova? Substitua os iranianos por zumbis. É a mesma coisa.

O roteiro, cuja cartela inicial indica ser baseado em fatos reais, dá conta de um imbróglio diplomático que se transformou em um impasse político e, logo após, em um drama pessoal. Em 1979, depois da revolução islâmica que alçou ao poder o aiatolá Khomein, iranianos invadiram a embaixada dos EUA em Teerã para forçar o governo estadunidense a mandar de volta o ex-ditador, playboy e torturador Mohammad Reza Pahlavi, o xá deposto que ganhou asilo nas terras do Tio Sam. Cinco funcionários da embaixada conseguiram fugir, mas foram incansavelmente procurados pelo governo iraniano. Aí, a CIA entrou em ação para resgatá-los. O plano era mandar um agente até lá fingindo ser o produtor de um filme de ficção-científica, intitulado Argo. Os estadunidenses em perigo, abrigados na casa de um embaixador canadense, seriam membros da equipe técnica. E aí entrou Hollywood, que bancou toda a ideia, mesmo com o governo estadunidense achando tudo uma maluquice.

As cenas de invasão da embaixada são dignas dos melhores filmes de zumbis já produzidos. Há iranianos por tudo que é lado. Eles escalam muros, quebram vidraças, derrubam portas, arrancam grades, entram pelo porão. São incontroláveis, maltrapilhos, gritam palavras ininteligíveis. Como os mortos-vivos, são uma massa coletiva sem individualidade. E assim é o filme todo: um climão de suspense no qual iranianos estão à espreita. A diferença é que não comem cérebro. Se bem que não seria estranho se Hollywood, apoiada na islamofobia que toma conta dos Estados Unidos, propagasse por aí que a religião muçulmana preconiza a ingestão de massa cefálica.

Ok, tecnicamente o filme é bom. Fotografia, direção de arte, figurinos etc. Até a edição funciona. O que preocupa é a onda de produções que constroem uma imagem obtusa do mundo islâmico, tornando o cinema estadunidense, novamente, uma máquina de propaganda política, exatamente como foi feito durante a Guerra Fria, quando os russos eram a bola da vez. O que é o discurso da vitória de Rocky, que treinava socando carniça de boi, sobre o frio e temível Drago, que treinava tomando injeção de anabolizante num laboratório, em plena URSS, sob aplausos de Gorbachev?

Tem que ver isso aí...

Obs.: escrevi um artigo sobre os zumbis de Argo no blog do meu grande amigo Felipe "Bocão" Demier, o Convergência. Lá, a linguagem é outra, mais acadêmica, menos referencial. Quem quiser conferir, clique aqui!

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

#12 - Django livre (Django unchained), de Quentin Tarantino

Sempre que gosto muito de um filme, acho que a resenha fica ruim, enfadonha, baba-ovo, mela-cueca, nhé nhé nhem etc. Acho que não vai ser diferente com esta aqui, que trata do novo filme do Tarantino, o qual fiz questão de ver na tela grande. Não canso de repetir por aqui que o cara é um gênio. A cada filme que lança, cumpre as expectativas - se não as supera. Ninguém sabe melhor se apropriar de linguagens estéticas e cinematográficas do que ele. Faz isso com uma maestria tremenda, reinventando seu cinema.

Desta vez, em Django livre, ele brinca com os famosos e cultuados spaghettis italianos, westerns de baixo orçamento que pegavam carona no sucesso das produções de mestres como Sergio Leone, Sam Peckinpah e o precursor de todas as ideias filmadas no gênero, o cara cujos roteiros e argumentos foram copiados à exaustão, o inigualável John Ford.

Para homenagear os spaghettis, Tarantino escolheu uma produção italiana de 1966 que trazia o então galã Franco Nero como protagonista. Django foi um dos cowboys mais famosos da tela grande, ganhando centenas de continuações errantes numa espécie de franquia cinematográfica não autorizada. Houve uma época em que quase todos os mocinhos se chamavam Django, mesmo sem um pingo de semelhança com a história do personagem levado às telas por Sergio Corbucci, diretor do original.

Tarantino se apropria do nome, dos cenários, da belíssima trilha sonora original e até da tipografia dos créditos. Seu Django começa como o da década de 1960, numa paisagem árida. A diferença está no roteiro - e que diferença! O filme de Corbucci conta a história de um pistoleiro boa pinta, loiro, de barba mal feita e olhos verdes, que se vê numa enrascada após salvar uma mocinha. A caminho de uma cidade para devolver a bela donzela à liberdade, percebe que está no meio de um conflito entre membros da KKK e mexicanos malvados. No filme de Tarantino, Django é negro e se junta a um caçador de recompensas que lhe compra à força de mercadores sulistas ignorantes. Juntos, os dois vão em busca de um punhado de dólares (só para fazer um trocadilho com o gênero) e da esposa de Django, cujo paradeiro ninguém sabe ao certo.

Django é cinema na mais pura acepção da palavra. A projeção dura quase três horas, mas poderia durar mais três que não haveria problema. É entretenimento inteligente, que não abre mão do leque de opções que a linguagem cinematográfica permite. A quantidade de referências aos westerns inunda a tela de forma arrebatadora. No entanto, mesmo quem não é um admirador do gênero se diverte com as boas sacadas, os diálogos impagáveis e as reviravoltas geniais, marcas registradas de Tarantino.

Precisamos falar de Christoph Waltz, um dos melhores atores de cinema de todos os tempos. Alguém discorda? Sua caracterização é absolutamente perfeita, magistral. É impressionante, além do carisma e da competência, a facilidade do ator em interpretar qualquer papel. Seu Dr. King Schultz, dentista e caçador de recompensas, é tão intenso e profundo quanto o caçador de judeus Coronel Hans Landa. A dupla que faz com Jamie Foxx, o Django, é de uma harmonia só antes vista em Butch Cassidy, outro clássico do western, com Paul Newman e Robert Redford. Vale também bater palmas para os excelentes trabalhos de Leonardo DiCaprio e Samuel L. Jackson.

Diversão do começo ao fim. E que fim. Simplesmente genial!



PS: quem será aquela moça de máscara vermelha e machado na mão? Segundo o diretor, há uma história só para ela...

PS2: ficou bem espivetada essa resenha, hein?

sábado, fevereiro 16, 2013

#11 - O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho

A sessão estava completamente lotada. Os espectadores, inclusive, comiam pipoca e bebiam refrigerante. Desde a estreia no circuito brasileiro, O som ao redor é um dos filmes mais comentados por aí. Já faturou diversos prêmios no exterior, atiçando a curiosidade de um público que voltou a curtir produções nacionais. E talvez esse tenha sido o problema. Talvez as cinco pessoas que abandonaram a exibição do filme de Kleber Mendonça Filho estivessem acostumadas com o padrão televisivo que contaminou a produção cinematográfica do país. Deram mole, pois mal sabiam o que os minutos finais de projeção lhes reservaria.

A ideia de O som ao redor é, de fato, sedutora. Trata com uma poética própria a questão do crescimento urbano desordenado, inserindo ali as também desordenadas e conturbadas relações entre familiares e vizinhos. Com um tempo diferente, a câmera percorre as casas e as calçadas de uma rua no Recife, na qual prédios de arquitetura inclassificável e gosto duvidoso lutam pela paisagem. A rotina dos moradores começa a mudar quando um grupo de seguranças autônomos oferece proteção mediante pagamento de mensalidade.

Tudo vai muito bem até até certo ponto do roteiro. A parte que irritou os cinco clientes insatisfeitos é a que melhor expressa os objetivos do diretor. Aparentemente, nada acontece. No entanto, o que se percebe é o que acontece em qualquer outra vizinhança real. Ruídos comuns, ordinários e costumeiros se impregnam à narrativa a ponto de dar tons oníricos ao filme, ainda que não se apoie em uma linguagem estética mais bem planejada. Nos momentos em que o cineasta se deixa levar pelos devaneios, acerta em cheio - ou erra, diriam os tais desistentes. Há belas cenas, bons diálogos e um certo humor com piadas inteligentes.

Porém, nos minutos finais, o diretor entrega de mão beijada para um público acostumado ao romanesco e fácil o que eles tanto querem ver: um fato, um fim. E um fato completamente fútil, rasteiro, enfadonho. Esvazia toda a textura que criou anteriormente dando sentido cartesiano ao filme de forma mal ajambrada e sem graça. Por que essa opção de estruturar um argumento tão sutil?

Há quem diga que O som ao redor é uma crítica ao furor brasileiro com a nova classe média. Ou seja, era eu quem estava querendo enxergar poesia onde não havia. No entanto, isso seria, na minha opinião, reduzir o filme - que, inclusive, falharia com louvor fosse esse seu objetivo. Vai muito além, mas muito além mesmo. E há quem não enxergue esse horizonte simplesmente porque não dá tempo ao olhar, e aos ouvidos, para se deixar tomar pelo argumento.

É um filme diferente. Poderia ter sido genial.

domingo, fevereiro 10, 2013

#10 - Deus da carnificina (Carnage), de Roman Polanski

Adaptar literatura dramática para a telona é algo complicado, que requer um cuidado dobrado por parte do diretor. Quando o texto é quase todo na íntegra e o espaço cênico é um só - no caso, um apartamento no subúrbio de Nova York - a tarefa fica mais complicada ainda. A câmera faz apenas o papel dos olhos do espectador. Ou seja, a direção de atores precisa funcionar para que os ouvidos, esses que são tão importantes quando se vai ao teatro, estejam atentos ao texto.

Polanski é um diretor experiente. Juntou quatro igualmente experientes atores para filmar Deus da carnificina, sucesso em palcos italianos do mundo inteiro, de uma só vez, sem parar, exatamente como num espetáculo teatral. São eles: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly. Dois casais que concordam em se reunir depois que o filho de um agride o do outro. O que era para ser um encontro de reconciliação acaba se tornando um embate que envolve conceitos éticos valores morais. À medida em que a discussão avança, os quatro se veem cada vez mais presos à discussão.

Por mais que o texto seja interessante, seu conteúdo não é exatamente tão denso a ponto de provocar o espectador. O trunfo está na forma absurda, invocando o Anjo exterminador de Buñuel, com a qual os personagens interagem com o ambiente, a ponto de não conseguir abandonar o pequeno apartamento em que se dá o embate. O mérito de Polanski está na maneira como adapta boas sacadas da peça ao filme - fazendo, inclusive, uma ponta como um vizinho que estranha o barulho da discussão no corredor do prédio, obrigando os quatro a voltar, novamente, ao apartamento.

Merece aplausos.

#9 - Twin Peaks - Os últimos dias de Laura Palmer (Twin Peaks - Fire walk with me), de David Lynch

Depois de ter a sua série cancelada pela NBC de forma abrupta e, podemos dizer, precoce, Lynch reuniu alguns dos colegas de Twin Peaks para filmar uma espécie de epílogo. Na verdade, o que ele queria era destrinchar um pouco mais a mística envolvendo a personagem de Laura Palmer. Isso porque ao longo série televisiva, não se vê o que realmente aconteceu com a moça. Por isso, Twin Peaks - Os últimos dias de Laura Palmer termina exatamente na cena que dá início à série.

É difícil falar sobre o filme sem dar conta da resolução da trama. Por isso, basta dizer que o roteiro mostra as motivações do assassino - revelado na primeira temporada da série - e alguns segredos que Laura Palmer mantinha, como por exemplo o vício em cocaína. No entanto, por mais que o enredo do filme seja, cronologicamente, anterior à série, quem não conhece os personagens ou não sabe muito bem do que Twin Peaks tratava, vai ficar boiando.

No mais, é uma aula de direção de Lynch, com direito a personagens bizarros, perversão sexual, trilha sonora estonteante, direção de arte impecável, diálogos elípticos e um clima de suspense absurdamente crescente. Mais uma obra-prima com a assinatura de um mestre.

Angelina, obrigado pelo presente!

sábado, fevereiro 02, 2013

#8 - Febre do rato, de Cláudio Assis

Desde o seu primeiro filme, Cláudio Assis é partidário do barulho, da provocação, da querela. Foi assim com Amarelo manga e depois com Baixio das bestas. O problema é que, até então, seu discurso cinematográfico era refratado, alterado, irado demais. Conclusão: acabava sendo taxado de prolixo, ainda que seus filmes tivessem um argumento enxuto e bem trabalhado. Agora, com Febre do rato, o cineasta parece tem achado o seu sweet spot, a maturidade que necessitava para que seu trabalho fosse lido da maneira correta.

O roteiro conta a história de Zizo Poeta - interpretado pelo talentoso Irandhir Santos -, um artista marginal que escreve poesias anarquistas e contestatórias sobre o seu dia a dia, vivendo na região mais pobre de Recife. Em seus textos, publicados num fanzine que dá nome ao filme, deixa exposto o abismo social e a dura realidade de uma cidade que tem como apelido Hellcife. Um verdadeiro caldeirão borbulhante que cheira a enxofre, mas que o acolhe de forma obtusa. Graças a uma direção mais amansada e menos raivosa, Assis consegue retratar com clareza a estética de uma típica metrópole brasileira, que ele conhece a fundo.

Os pelos pubianos em excesso estão lá (inclusive os da protagonista da novela das oito, Nanda Costa) e os pênis oscilantes, também. Há putaria, palavrão pra caralho e aquela dose de perversão sexual e sodomia, alegorias das quais Assis não abre mão. No entanto, tudo está em seu devido lugar. A edição funciona, com planos bem construídos. Trilha sonora, para variar, ótima, a cargo do talentoso zumbi Jorge dü Peixe. O texto, baseado nas poesias de Zizo, que existe fora das telas, é bastante interessante. Tudo isso sublinhado pela fotografia estonteante, em preto e branco, de Walter Carvalho - inclusive, 50% do filme deveria ser creditado a ele.

A saber, febre do rato é uma gíria recifense que designa uma pessoa fora de seu estado normal. Ao que parece, Assis deve ter tomado paracetamol ou algo que o valha, e fez desse filme o seu trabalho mais maduro e consistente.

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

#7 - Eraserhead, de David Lynch


Esta resenha vai furar a fila. Quando eu comprei o single de "Gigantic", dos Pixies - minha banda favorita - me deparei com uma faixa bastante enigmática, na qual Black Francis repetia o seguinte verso: In Heaven everything is fine. O título, "In Heaven (The Lady In The Radiator Song)", fazia alusão a uma personagem de um filme que era o predileto da banda. Pouco tempo depois, fiquei sabendo que se tratava de Eraserhead, primeira produção do mestre David Lynch. Naturalmente, a curiosidade em assisti-lo veio de forma avassaladora.

Na verdade, a curiosidade foi tamanha que me levou a conferir todos os filmes do Lynch. E, pasmem, até ontem estava faltando Eraserhead na minha lista. Por quê? Sei lá. Quer dizer, talvez até saiba. Era o filme que faltava para fechar a filmografia completa dele. Ou seja, nada mais de Lynch até o próximo lançamento. O que, de certa forma, é desalentador. Pior que não poderia ter feito melhor. Assistir por último ao primeiro filme de um dos diretores mais inventivos da história do cinema foi uma experiência mais excitante e enriquecedora.

O roteiro conta a história de Henry, um sujeito que vive e trabalha num distrito industrial. De férias, vai jantar na casa dos pais de sua namorada e descobre que é pai de um bebê mutante, provavelmente vítima da poluição local. Morando em um quarto de hotel, cuja janela dá para um muro de tijolos, ele é obrigado a se casar. Em pouco tempo, sua vida se transforma em um pesadelo.

Pode-se dizer que Eraserhead é mesmo um sonho ruim, daqueles mais sinistros, capturado em película. É o primeiro exercício da linguagem onírica, de contornos esquizoides e texturas sombrias, que permeia toda a obra do diretor. Lynch trabalha com afinco sua direção de atores e leva ao extremo suas experiências cênicas. Estão ali suas predileções por números musicais, palcos acortinados, pisos com desenhos simétricos e locações claustrofóbicas.

Aqui, permito-me fazer uma comparação de Eraserhead com o universo de Samuel Beckett. O que parece ser um encadeamento de cenas sem lógica aparente é, ao seu fechamento, uma complexa trama cíclica sobre a condição humana. Há, também, elementos estéticos que remetem a Beckett. A maneira com a qual os personagens interagem é bastante semelhante à pantomima clownesca do Teatro do Absurdo. Inclusive, curiosamente, um dos objetos cênicos de Eraserhead é um esquálido e solitário arbusto - o mesmo elemento usado por Beckett para marcar a passagem de tempo em Esperando Godot.

Para aqueles que gostam de experiências estéticas marcantes, Eraserhead é obrigatório. Uma produção que tomou cinco anos da vida de David Lynch e que encantou uma penca de mestres do cinema, como Terrence Malick e John Waters, que tentaram buscar apoio financeiro. Stanley Kubrick projetou o filme para seu elenco antes das filmagens de O Iluminado. George Lucas convidou Lynch para dirigir um episódio de Guerra nas Estrelas após assistir a Eraserhead - convite que ele recusou.

Desde 1977, é uma das obras mais geniais da sétima arte.

quarta-feira, janeiro 30, 2013

#6 - Inquietos (Restless), de Gus Van Sant


É o tipo de filme que eu evito já pela sinopse > durante um velório, uma jovem com um tumor no cérebro conhece um garoto que frequenta funerais de desconhecidos. Impossível não lembrar daqueles dramalhões terríveis da Sessão da Tarde e do Supercine sobre histórias reais de dor seguidas de superação ou resignação. A diferença, aqui, e que teve um peso enorme na minha decisão de ver o filme, é a direção de Gus Van Sant, sujeito pouco afeito aos clichês romanescos que tanto inundam os olhos e os roteiros do gênero dramático.

Pois bem, é dessa relação improvável que parte o argumento de Inquietos. O garoto tenta aprender a lidar com a vida, e a garota precisa aprender a lidar com a morte. Essa troca de experiências leva os dois a tentar compreender questões nada simples que envolvem amor, família, religião etc. Ou seja, era muito fácil cair na tragédia.

O casal protagonista é absolutamente fantástico. Van Sant abandona o estilo liberal para delinear metodicamente sua direção de atores. Arranca atuações emocionantes sem ser piegas. Henry Hopper e Mia Wasikowska convencem o espectador a compartilhar das angústias que ambos vivem.

No fim das contas - ou melhor, da projeção - fica uma espécie de admiração ao diretor por permitir a quem não curte dramalhões exagerados poder mergulhar de forma satisfatória num argumento que permeia questões caras a todos nós. O desfecho é lindo. Simples, comovente e sem lágrimas a granel.

Fica o meu agradecimento ao Van Sant. Obrigado, cara.

domingo, janeiro 20, 2013

#5 - Casa de mi padre, de Matt Piedmont

Mais um filme dirigido por um roteirista do Saturday Night Live. Provavelmente, Casa de mi padre nem vai ganhar o circuito brasileiro. Foi lançado lá fora, mas não deu muito certo. Talvez exista mesmo uma resistência para produções do tipo. Trata-se de uma comédia que brinca com os clichês das produções mexicanas de baixo orçamento, brincadeira que Robert Rodriguez fez com certo êxito. Acontece que o público de Rodriguez é bem diferente do público do SNL.

O roteiro é uma besteira tremenda, como deveria ser mesmo. Um sujeito nascido e criado num rancho mexicano vê a honra de sua família ameaçada depois que seu irmão, o mais querido pelo pai, volta da Cidade do México anunciando que vai se casar com uma sedutora e misteriosa mulher. Will Ferrell, que é um cara engraçado, é a grande estrela do filme, interpretando o tal rancheiro boboca e sentimentalista que percebe algo de errado com o casamento. Gael García Bernal faz ponta de luxo como um narcotraficante.

O grande barato de Casa de mi padre, que é a brincadeira com a estética do exagero dramático, pode - e deve - passar despercebido para a maioria. Há cenários falsos, erros de continuidade, efeitos toscos e falhas propositais na montagem. O filme é falado em um espanhol pífio, já que Ferrell e seus compatriotas não têm qualquer familiaridade com o idioma. De resto, é entrar no clima.

Duvido que agrade muita gente...

domingo, janeiro 13, 2013

#4 - Dog Soldiers, de Neil Marshall

Minha querida amiga Ju Herkenhoff havia me emprestado Dog Soldiers há muito tempo - muito tempo mesmo! Acho que o DVD adornou minha prateleira por uns três anos. Eu sempre prometia a ela que ia ver, mas não via. Dizia ela ser um bom filme sobre lobisomens. Enrolei o quanto pude, até o dia em que ela esteve aqui em casa e ameaçou levá-lo de volta para sua prateleira. A pressão funcionou. Finalmente assisti ao dito cujo - mas contrariado, pois queria ver um filme do Alain Resnais...

Foi difícil dizer a ela que trata-se de uma das produções mais mal feitas e mal acabadas que eu já vi. Tecnicamente é tão estapafúrdio, que fica difícil levá-lo na brincadeira, ainda que o roteiro seja inventivo. Conta a história de um grupo de militares britânicos que vai parar numa floresta escocesa para um treinamento de rotina. No entanto, as manobras de guerra que eram para ser de mentirinha acabam se tornando esforços para fugir da morte. Pior, para escapar de famintos lobisomens.

A montagem é uma piada, deixando o suspense totalmente em segundo plano. Não há sustos, dada a ineficiência e a lentidão da edição. Os atores são todos péssimos e os diálogos são pavorosos. As tais criaturas sobrenaturais mais parecem monstros carnavalescos saídos de um seriado japonês. As referências bacanas acabam prejudicadas pela ineficácia da direção. Como, por exemplo, o roteiro ser ambientado numa noite de lua cheia em que a Inglaterra, país de origem da produção, bateu a Alemanha por 5 a 1 em uma importante partida de futebol.

No entanto, verdade seja dita: há pelo menos duas cenas antológicas! Na primeira, um sargento coloca para dentro do abdome suas próprias tripas, expostas após um ataque de lobisomem. Na outra, um soldado sai na porrada, como um lutador de boxe, à base de esquivas e jabs, com uma das criaturas. Pena que a ousadia e o absurdo dessas sequências não se repitam ao longo da projeção.

Permita-me a conclusão, Ju: chato demais!

sábado, janeiro 12, 2013

#3 - Vizinhos imediatos de 3º grau (The Watch), de Akiva Schaffer

Pelo elenco, valia a pena: Ben Stiller, Vince Vaughn, Seth Rogen e a estrela maior, que também é a que não está no firmamento, Richard Ayoade - o Moss de The IT Crowd, o melhor seriado do mundo. Já pelo roteiro, nem tanto. Ainda que seja dirigido por um roteirista do Saturday Night Live, Vizinhos imediatos de 3º grau (um dos piores títulos em português da história recente) é aquele filme bobamente sério, do tipo que não ousa tanto para não passar de uma linha imaginária cartografada pelo mercado cinematográfico. E quando um filme é bobamente sério ao invés de ser seriamente bobo, não costuma me agradar.

A história se passa em um pequeno bairro do subúrbio estadunidense. Quando uma série de estranhos assassinatos toma conta do lugar, diante da ineficácia da polícia local, o quarteto supracitado se une e forma um esquadrão de vigília comunitária. Como o título sugere, logo eles se veem diante de alienígenas que ameaçam destruir a Terra.

Vá lá, há sequências divertidas. Poucas, mas elas existem. Os diálogos, que podiam ser bem trabalhados dado o talento dos atores para o improviso, são pífios. O desfecho é realmente o pior, mas nada muito diferente do que acontece com o resto das comédias bobamente sérias - inclusive das que fazem sucesso na bilheteria. Essa, provavelmente, vai passar despercebida.

 Pobre Ayoade... Não precisava.

quinta-feira, janeiro 10, 2013

#2 - Twin Peaks, de David Lynch


O blog é sobre filmes. Porém, quando o seriado é uma obra de arte, acho justo abrir uma exceção. Quando eu era moleque e a TV Globo passava Twin Peaks, lembro-me que todo mundo borrava os fundilhos. Os episódios da famosa e controversa produção de David Lynch eram repletos de suspense, com trilha sonora obscura e recheado de cenas surreais e personagens bizarros. Ao longo das semanas em que foi ao ar, o público tentava entender o que diabos teria acontecido à Laura Palmer, uma bela jovem que é encontrada assassinada na pacata cidade que dá nome ao título. O motivo do crime passa a ser o mistério que vai nortear a série.

Lançada no início da década de 90, Twin Peaks era muito diferente do que se produzia até então para a TV. As séries que faziam sucesso nos Estados Unidos eram, em sua maioria, sitcoms. Ou então, dramalhões com linguagem bastante realista. Seguindo a cartilha, os seriados mais rentáveis e famosos eram, justamente, aqueles que não precisavam de uma observação anterior, em ordem cronológica, para que se compreendesse o episódio seguinte e, adiante, a trama por completo. Até hoje, os seriados estadunidenses bem sucedidos são aqueles que prendem o espectador muito mais pelo carisma dos personagens e atores do que pelo conteúdo.

Com Twin Peaks o buraco era bem mais embaixo. Lynch estava anos-luz à frente de seus contemporâneos. Já possuía uma assinatura estética ímpar. Conseguiu convencer a caretona CBS a bancar sua série, escrita ao lado do companheiro de projetos Mark Frost. A proposta era tão avant garde, que o diretor começou a ter problemas com a rede de televisão. O que estreou como um produto diferenciado, gerando curiosidade, acabou sendo estranhado meses depois, culminando numa queda brutal de audiência. Alega a CBS que a história era muito confusa. Alega Lynch que os executivos que tomavam conta da grade de programação mudavam com frequência o horário de exibição, o que dificultava o necessário acompanhamento da série capítulo por capítulo. Fato é que o desfecho foi abrupto.

Lynch, já famoso nos festivais europeus, ainda que os ignorasse vez ou outra (aliás, postura que ainda mantém), resolveu lançar sua produção no Velho Continente. O mercado, ali, parecia promissor, já que o público estava a salvo dos vícios estéticos e das fórmulas estadunidenses pasteurizadas de se fazer séries televisivas. Uma rede alemã comprou Twin Peaks, que já estava quase no fim nos EUA. Pois, no dia seguinte ao anúncio da exibição do primeiro capítulo, um canal concorrente contou quem matou Laura Palmer. Resultado: mais um - inexplicável, ainda que compreensível - fracasso de audiência.

Aqui no Brasil não foi diferente. A Globo, erroneamente, passava a série a seu bel-prazer sem seguir a ordem cronológica dos 29 episódios. O máximo que conseguia era deixar uma parte de sua audiência, já impressionada com as notícias catastróficas e apocalípticas do Fantástico, ainda mais enervada antes de dormir, com medo de ter pesadelos. Na TV a cabo, o canal Viva andou reprisando a série, mas desconheço os números alcançados com a audiência.

Deixando de lado a parte executiva, é preciso falar sobre o argumento. Twin Peaks se divide em duas partes. A primeira, é sobre a morte de Laura Palmer. A identidade do assassino é revelada no episódio 17. A partir daí, vem a segunda parte, na qual Lynch explora a misteriosa floresta que cerca a cidade, com seus mitos e mistérios sobrenaturais. O protagonista da série, o agente do FBI Dale Cooper, interpretado por Kyle MacLachlan, é quem conduz as duas investigações. Com o olhar do estrangeiro, aos poucos vai absorvendo o modo de vida aparentemente pacato e provinciano dos moradores da pequena e bucólica Twin Peaks.

Não se pode falar muito sobre o roteiro, sob pena de estragar o entretenimento alheio. De acordo com entrevistas, David Lynch e Mark Frost tiveram a ideia para o argumento da série enquanto escreviam um roteiro sobre a vida de Marilyn Monroe - projeto que não foi adiante. Fato é que muitas das ideias que depois viriam a ser executadas nos filmes de Lynch foram experimentadas em Twin Peaks. Principalmente as particularidades de Cidade dos Sonhos, filme no qual a linguagem onírica - da estética do pesadelo, já presente em Eraserhead - e as referências simbolistas são levadas ao extremo, criando atmosfera e textura.

A série começa assustadoramente misteriosa. Até o episódio da resolução do assassinato de Laura Palmer, o suspense é permanente, com reviravoltas muito bem planejadas. Os planos são absolutamente magistrais, a direção de arte faz as cores saltarem aos olhos e a música de Angelo Badalamenti é de arrepiar! Logo após, Lynch deixa direção e redação a cargo de assistentes, e se afasta para filmar seu primoroso Coração Selvagem. Aí, a série dá uma caída. Inclusive, curiosa e inexplicavelmente, há um episódio dirigido por Diane Keaton, uma das atrizes mais insossas e chatas de Hollywood.

As coisas só voltam aos trilhos lá pelo episódio 22, quando o tom sobrenatural ganha força na trama. Sabendo que a série seria cancelada, Lynch volta para dirigir somente o último episódio - que é uma pequena obra-prima dentro da série. Absurdamente fantástico e refinado, sublinha o abismo que existia entre os diretores assistentes da CBS e Lynch. Um abismo profundo, muito profundo. A trama termina de forma bizarra e, inevitavelmente, deixa algumas questões em aberto.

Mais tarde, Lynch voltaria a juntar o elenco de Twin Peaks para filmar Fire walk with me, uma produção cinematográfica que mostra as últimas horas de vida de Laura Palmer - em breve, resenha dele também.

Se há muito o que falar de Twin Peaks, há muito mais o que se ver. Vá em frente!

terça-feira, janeiro 08, 2013

#1 - Iracema - uma transa amazônica, de Jorge Bodanzky

Olha eu aqui de novo! Depois de receber o carinho de muitos leitores - de alguns que eu desconhecia frequentar esse sítio, inclusive - resolvi que ano novo, fôlego novo. E, para começar com o pé direito, um clássico do cinema nacional, que muitas vezes é vítima do trocadilho infame do título. Muito tarado vai parar aqui por conta do Google. No entanto, não podemos nos deixar enganar: Iracema - uma transa amazônica é um dos filmes mais importantes da história audiovisual no Brasil. 

O filme - que mostra o encontro de Tião Brasil Grande, um caminhoneiro em busca de dinheiro na região Norte, e Iracema, uma jovem que sai de casa para tentar a sorte pela estrada e acaba virando prostituta - influenciou de forma definitiva o cinema brasileiro. Por diversos motivos.

Em primeiro lugar, foi filmado em uma época de ditadura pavorosa, em pleno governo de Emílio Garrastazu Médici. Sofreu bastante com a censura, que só o liberou para exibição no Brasil em 1981, anos depois de sua produção, em 1976, quando foi finalizado na Alemanha. Antes mesmo de ganhar o circuito brasileiro, venceu prêmios no mundo inteiro. Durante cinco anos, ficou restrito a sessões clandestinas em cineclubes.

Depois, é preciso destacar a linguagem usada por Jorge Bodanzky, quase um Jean Rouch brasileiro, misturando ficção e cinedocumentário para levar à plateia uma espécie de denúncia. A saber, o que acontecia ao redor da famosa rodovia Transamazônica, a obra megalomaníaca, praticamente inviável, que era a promessa de progresso em um governo que investia pesado em propaganda política. Era a época dos motes ufanistas, como "Brasil, ame-o ou deixe-o".  De forma contundente, a câmera deixa explícita uma série de ocorrências na região, como exploração sexual (sacou o trocadilho agora?), trabalho escravo, pedofilia, negligência dos poderes públicos etc.

Outro ponto surpreendente é a direção de atores. Com a participação irrepreensível de Paulo César Pereio, já um bad boy do cinema brasileiro à época, as ações são conduzidas sem roteiro, de forma experimental, buscando o improviso que vai servir de antítese à realidade. A protagonista, interpretada por Edna de Cássia, é, ela mesma, tautológica como o argumento pede. É jovem, ingênua, inexperiente, mas absurdamente expressiva. Confundem-se em todas as cenas.

Um punhado de sequências inesquecíveis, uma direção de atores até então impensável, um documento histórico travestido de ficção e um argumento corajoso. Só por isso já valeria o confere. Mas é muito mais que isso. É cinema feito com envolvimento. Citando Rouch novamente, é quase etnográfico.

Fantástico!