sábado, julho 07, 2012

#18 - My kid could paint that, de Amir Bar-Lev

O momento de assistir a My kid could paint that, documentário sobre uma menina estadunidense de 4 anos que pinta quadros abstratos avaliados em mais de 10 mil dólares, não podia ser mais propício. Semana passada, o site do jornal inglês The Guardian publicou uma matéria sobre um menino indiano de apenas 5 anos que pinta quadros - abstratos, logicamente - e vem sendo chamado de Garoto Picasso. Obviamente, a história gerou desconfiança no meio artístico. Alguns comparam o talento do menino com o artista que é mais combatido pelo esquadrão de pessoas que adoram emitir a frase que dá título ao documentário:  Jackson Pollock.

No filme de  Amir Bar-Lev, a personagem principal é a pequena Marla Olmstead. Apoiada pelos pais, que se mostram surpresos com o desenrolar da história, a miniartista ganha mostras individuais, vende seus trabalhos a colecionadores, dá entrevistas na TV e ainda arruma tempo para brincar com o irmão mais novo. O diretor, com uma câmera na mão, entra na intimidade da família Olmstead depois que uma reportagem do famoso programa 60 Minutes, equivalente a um Globo Repórter de lá, só que de cunho mais investigativo, capta uma imagem do pai de Marla, um ex-pintor fracassado, dando alguns "retoques" na tela da filha.

Especialistas entram em cena para mostrar a diferença entre um quadro de temática adulta e outro de temática infantil. A família se abate, e tenta provar aos curadores e investidores que a filha é realmente um gênio das tintas. Bar-Lev, com a sorte que todo o cinedocumentarista precisa, está sempre no lugar certo, na hora certa. Sem fazer um julgamento sobre o valor da obra de arte, o que caberia em seu argumento, ele apenas capta os fatos e escuta a todos que se propõem a falar: a jornalista que escreveu sobre Marla, o merchand da família, os colecionadores, os donos de galerias e os professores de História da Arte.

No entanto, ao final da projeção, o diretor deixa claro que o seu objetivo com o filme é fazer com que as pessoas pensem duas vezes antes de dizer que até uma criança faria uma obra de arte valorosa. Mostra que também é preciso repensar a arte enquanto produto mercantil, o que acaba esvaziando seu valor de fruição.

Eu vou um pouco mais longe no assunto, já que o blog é meu. rs! Na minha opinião, é preciso ter sensibilidade, dar tempo aos olhos quando se está diante de algo que é fruto de uma expressão individual, pois o valor que ela adquire quando atinge o espectador é incalculável. Crianças expõem seus sentimentos de uma forma completamente diferente. Digo isso porque tenho uma em casa.

Nas minhas passagens por museus, os mais famosos do mundo, visitados por milhões de turistas, vi incontáveis vezes pessoas tirando fotos de quadros belíssimos com a câmera do celular. Fotos que não deviam ter mais do que 3 megapixels de resolução. Paravam na frente da obra, tiravam a foto e cinco segundos depois já estavam diante do quadro ao lado. Ao invés de privilegiarem a memória física, aproveitando o momento de estar diante de uma verdadeira obra de arte, privilegiavam a memória digital. O registro que fica é só imagético, sem qualquer lastro de registro emocional.

E tudo isso para dizer que é esse tipo de gente - que guarda um Van Gogh, de pinceladas fortes, texturas intensas e cores vibrantes na memória de um celular barato - que diz que os quadros de Miró, por exemplo, até uma criança faria.

3 comentários:

renatocinema disse...

Adorei seu texto e a força de sua opinião ao conclui-lo.

Perfeito.....

Kamila disse...

Belíssimo texto, Dudu! Um dos melhores publicados aqui! Anotei a dica do documentário, para assistir quando puder.

Beijos!

Silvia Azevedo (@silvia_az) disse...

Fazia tempo que não passava por aqui e gostei muito do seu texto. Sempre achei essa temática (arte) "tensa" exatamente por não ser uma ciência exata. Tem aqueles que apreciam todo tipo de arte por mero status, outros são mais seletos, mas repudiam novas formas de artes, e ainda há quem desdenhe de tudo isso - creio que estes sejam o tipo que citou em seu texto...
Beijos!!!