terça-feira, julho 31, 2012

#20 - Na estrada (On the road), de Walter Salles


Walter Salles se tornou um diretor internacional. Tem orçamento farto, elenco de famosos, equipamento de primeira etc. Que o sujeito domina a arte cinematográfica, não restava dúvida. Porém, confesso, tinha uma certa curiosidade para ver como o brasileiro lidaria com o star system - o de verdade, à vera, pois Água Negra não conta - hollywoodiano, filmando um clássico da literatura estadunidense. Sua adaptação para On the road, o romance beat que influenciou boa parte da cultura dos Estados Unidos na década de 60 e 70 (apesar de ter sido lançado em 1957) tem erros e acertos. Mais acertos, diga-se de passagem.

Pouca gente sabe, mas Jack Kerouac não era um narcótico niilista e insano. Ok, escrevia sob efeito de substâncias psicotrópicas, mas era um rapaz tímido e introvertido. Portanto, seu livro é muito mais sobre uma narrativa caótica do que sobre uma vida caótica - levando-se em conta que On the road é quase que uma biografia do autor, com passagens e fatos que marcaram sua própria vida. Ou seja, Na estrada não é um road movie a 100 quilômetros por hora. E, nisso, Salles tira uma nota 10 com louvor.

Além disso, fotografia, direção de arte, montagem e, principalmente, trilha sonora, são espetaculares. A caracterização de Sal Paradise, pelo jovem Sam Riley, é esplêndida. Já os outros atores não rendem tanto assim. E aí, talvez, tenha faltado pulso de Salles para lidar com um elenco pouco acostumado a ser dirigido por alguém que consegue extrair mais conteúdo dramático do gesto do que simplesmente da imagem. Por isso, Kristen Stewart e Viggo Mortensen, icônicos, que interpretam dois personagens fundamentais à trama, fazem um trabalho pífio e comprometedor.

Apesar disso, é um bom filme. Imperdível para quem conhece autor e obra. Inspirador para quem não os conhece.

terça-feira, julho 10, 2012

#19 - God bless America, de Bobcat Goldthwait

Filmes catárticos costumam fazer sucesso com um determinado segmento social. A saber, daqueles que gostariam de cometer certas atrocidades, mas que são instantaneamente bloqueados pela condição moral e ética que lhes é peculiar - e que têm em seus aguçados sensos cívicos os culpados por esse sentimento nada nobre, uma vez que os mesmos deixam transbordar a incompatibilidade social com seu meio, selvagem, próximo à barbárie. Ou seja, porra, a gente faz tudo certo e aí vem um escroto que não tá nem aí para o bom convívio e estraga tudo. 

Quem nunca quis zunir um daqueles celulares que tocam funk no ônibus? Ou quebrar a perna de quem para na vaga de deficiente físico sem o ser? Ou de defecar na porta do vizinho que faz obra domingo de manhã? Joel Murray, personagem principal de God bless America, vai um pouco mais longe: ele mata quem é escroto. Tudo começa quando ele percebe como as pessoas ao seu redor são estúpidas, indelicadas e mal educadas. Sem emprego, sem mulher e sem o carinho da filha adolescente, ele vai percebendo como a sociedade estadunidense é oca - o que é aplicável à sociedade contemporânea como um todo. Em meio a reality shows, propagandas mentirosas e bizarrices internéticas, ele decide fazer justiça com as próprias mãos. Une-se a ele uma adolescente problemática, porém bastante entusiasmada, que o ajuda na função de eliminar a escrotidão das ruas dos Estados Unidos.

O filme começa com bastante violência. É intenso, forte e até ofensivo, sem perder o tom de comédia. O sarcasmo está nos diálogos e na forma como a dupla elimina os escrotos. É catártico, divertido, inusitado. Porém, lá pelos minutos finais, a maionese dá uma desandada. O que era para ser uma brincadeira, acaba ganhando um contorno dramático estranho. A segunda metade do filme é enfadonha. E o desfecho é patético!

O roteiro de God bless America começa a 220 km por hora, avançando sinal e barbarizando pardais eletrônicos. No entanto, acaba a 60 km por hora, respeitando toda as leis de trânsito. Se o intuito era a catarse pelo viés do exagero, isso é um erro crasso.

Pelo menos os 30 minutos iniciais de projeção são bem bacanas, o que faz valer o confere.

sábado, julho 07, 2012

#18 - My kid could paint that, de Amir Bar-Lev

O momento de assistir a My kid could paint that, documentário sobre uma menina estadunidense de 4 anos que pinta quadros abstratos avaliados em mais de 10 mil dólares, não podia ser mais propício. Semana passada, o site do jornal inglês The Guardian publicou uma matéria sobre um menino indiano de apenas 5 anos que pinta quadros - abstratos, logicamente - e vem sendo chamado de Garoto Picasso. Obviamente, a história gerou desconfiança no meio artístico. Alguns comparam o talento do menino com o artista que é mais combatido pelo esquadrão de pessoas que adoram emitir a frase que dá título ao documentário:  Jackson Pollock.

No filme de  Amir Bar-Lev, a personagem principal é a pequena Marla Olmstead. Apoiada pelos pais, que se mostram surpresos com o desenrolar da história, a miniartista ganha mostras individuais, vende seus trabalhos a colecionadores, dá entrevistas na TV e ainda arruma tempo para brincar com o irmão mais novo. O diretor, com uma câmera na mão, entra na intimidade da família Olmstead depois que uma reportagem do famoso programa 60 Minutes, equivalente a um Globo Repórter de lá, só que de cunho mais investigativo, capta uma imagem do pai de Marla, um ex-pintor fracassado, dando alguns "retoques" na tela da filha.

Especialistas entram em cena para mostrar a diferença entre um quadro de temática adulta e outro de temática infantil. A família se abate, e tenta provar aos curadores e investidores que a filha é realmente um gênio das tintas. Bar-Lev, com a sorte que todo o cinedocumentarista precisa, está sempre no lugar certo, na hora certa. Sem fazer um julgamento sobre o valor da obra de arte, o que caberia em seu argumento, ele apenas capta os fatos e escuta a todos que se propõem a falar: a jornalista que escreveu sobre Marla, o merchand da família, os colecionadores, os donos de galerias e os professores de História da Arte.

No entanto, ao final da projeção, o diretor deixa claro que o seu objetivo com o filme é fazer com que as pessoas pensem duas vezes antes de dizer que até uma criança faria uma obra de arte valorosa. Mostra que também é preciso repensar a arte enquanto produto mercantil, o que acaba esvaziando seu valor de fruição.

Eu vou um pouco mais longe no assunto, já que o blog é meu. rs! Na minha opinião, é preciso ter sensibilidade, dar tempo aos olhos quando se está diante de algo que é fruto de uma expressão individual, pois o valor que ela adquire quando atinge o espectador é incalculável. Crianças expõem seus sentimentos de uma forma completamente diferente. Digo isso porque tenho uma em casa.

Nas minhas passagens por museus, os mais famosos do mundo, visitados por milhões de turistas, vi incontáveis vezes pessoas tirando fotos de quadros belíssimos com a câmera do celular. Fotos que não deviam ter mais do que 3 megapixels de resolução. Paravam na frente da obra, tiravam a foto e cinco segundos depois já estavam diante do quadro ao lado. Ao invés de privilegiarem a memória física, aproveitando o momento de estar diante de uma verdadeira obra de arte, privilegiavam a memória digital. O registro que fica é só imagético, sem qualquer lastro de registro emocional.

E tudo isso para dizer que é esse tipo de gente - que guarda um Van Gogh, de pinceladas fortes, texturas intensas e cores vibrantes na memória de um celular barato - que diz que os quadros de Miró, por exemplo, até uma criança faria.

#17 - Valhalla Rising, de Nicolas Winding Refn

Depois de fazer barulho em festivais internacionais com o ótimo Bronson e levar para casa uma estatueta com o irretocável Drive, Nicolas Winding Refn colocou seu nome sob os holofotes. Dono de um estilo próprio, o diretor dinamarquês já tinha o domínio da técnica cinematográfica desde os seus primeiros trabalhos. O longa Valhalla Rising é de 2009, período entre os dois tais filmes supracitados que ganharam notoriedade internacional. No entanto, sabe-se lá por quê, é um filme que acabou subestimado, deixado de lado. E é, também, vejam só, o preferido do próprio Refn.

O roteiro é um primor! Com apenas 120 linhas de texto, ambientado no ano 1000, conta a história de um misterioso guerreiro que é feito prisioneiro por um grupo de pagãos - talvez os vikings, dado o título do filme (Valhalla era a cidade para onde os honrados guerreiros vikings iam após morrerem em combate) e algumas semelhanças entre o protagonista e Odin. Chamado de One Eye, uma vez que possui apenas o olho direito (de acordo com a mitologia nórdica, Odin se sacrifica furando seu próprio olho), o prisioneiro silencioso, que não emite uma palavra sequer, consegue escapar e acaba encontrando guerreiros cristãos. Convencido a embarcar com eles, parte rumo a uma dita terra santa, cheia de riquezas, onde precisará lutar em nome do deus cristão. Porém, o barco é encoberto por um inexplicável nevoeiro, e vai parar em um lugar bastante esquisito.

Esqueça tudo o que você já viu sobre filmes de duelos medievais. Valhalla Rising é absurdamente superior a tudo o que já foi filmado até hoje sobre o tema. Inclusive, mais violento também. Há cenas bastante intensas ao longo da projeção. A fotografia é maravilhosa, a trilha sonora é assustadora, a direção de atores é primorosa e o roteiro é absolutamente coeso. A história é dividida em seis capítulos, numa espécie de epopeia: Vingança, Guerreiro Silencioso, Homens de Deus, Terra Sagrada, Inferno e Sacrifício. De forma sutil, Refn demonstra como a religião é capaz de sobrepujar o instinto humano.

Um filmaço! Para quem exige um pouco mais do que ação e aventura de filmes sobre civilizações antigas.

#16 - Um verão escaldante (Un été brûlant), de Philippe Garrel

Muita gente torce o nariz para os filmes de Philippe Garrel. São produções densas e lentas, sem fórmulas narrativas convencionais, atemporais, nas quais há um assunto que é desmembrado aos poucos. Ou seja, traduzindo - ou melhor, usando a linguagem burra - é filme cabeça. Quem tem paciência no olhar e dá tempo à imagem para que ela se desvele, acaba curtindo os filmes de Garrel. No entanto, desta vez ele deu uma escorregada. De leve, mas escorregou. Um verão escaldante, seu novo trabalho, tem o charme de seus longas anteriores, mas o tal assunto não é lá tão interessante.

Culpa do argumento, fraco e ordinário. O roteiro conta a história de um rapaz que sonha fazer carreira no cinema. Certo dia, é convidado a passar um tempo com a noiva na casa de um amigo em Roma - trata-se de um jovem e problemático pintor casado com uma veterana atriz de cinema. O casal recém-chegado acaba participando das discussões e infortúnios dos anfitriões, que estão em meio a uma crise matrimonial.

Pouca coisa realmente interessante acontece ao longo da projeção. E, por incrível que pareça, ainda mais quando o filme é de Philippe Garrel, a linguagem cinematográfica é minimamente explorada em sua totalidade criativa. Fica uma coisa meio rasa, desinteressante. Vale, sim, por Monica Bellucci, que sempre acumula predicados: atriz competente, beirando os 50 anos, ainda dona de uma beleza estonteante. Louis Garrel, figurinha fácil nos filmes do pai e nas produções independentes francesas mais atuais, pouco faz.

Está mais para verão nublado do que escaldante. Mas é um verão nublado francês. Então, até que vale a pena...

domingo, julho 01, 2012

#15 - Highwater, de Dana Brown

Dana Brown aprendeu as lições com o pai: como ficar de pé numa prancha e como fazer um filme de surfe bacana. Highwater é de 2009, mas nunca chegou a praias brasileiras. O filme mostra tudo o que se passa por trás da Tríplice Coroa havaiana - para quem não sabe, a maior honraria que um surfista pode receber após sagrar-se campeão em três das mais complicadas competições do circuito. Indo um pouco além das sessions, que todo o filme de surfe tem que ter, Dana mostra os bastidores, as histórias, as curiosidades e as peraltices dos homens que enfrentam as mais temidas ondas do mundo.

Você vai ver os craques do surfe falando sobre o estilo de vida que as ondas proporcionam. Mais ainda, sobre a qualidade de vida inigualável que o surfe proporciona. E vai amaldiçoar o seu trabalho burocrático com todas as forças. Vai lamentar estar envolvido na teia mercantilista, trabalhando para pagar as contas que o seu próprio desejo consumista emite - sempre com data de vencimento. E vai lamentar ficar diariamente preso no trânsito por malditas três horas - ou mais - dentro do carro que lhe consome o tal dinheiro que você ganha trabalhando, pois é preciso pagar combustível, seguro, manutenção e, se você for daqueles que ama um crediário, as parcelas a vencer.

Por isso, Highwater cumpre seu papel de filme de surfe com perfeição e maestria: mostra como levamos, conscientemente, uma vida covarde e monótona. Ou seja, um ótimo filme!

Perdi a conta...

Mas não perdi a vontade de escrever. Tem sido um ano cheio, com muita coisa acontecendo. E cadê o tempo para resenhar? Pior: cadê o tempo para ir ao cinema? Também parei de escrever para o Jornal do Brasil. Foram anos bacanas, principalmente porque eu tive o prazer de pegar a época do jornal impresso, na Revista Programa. Obrigado Racca, Julia, Ulisses, Marco Antonio...

Isso posto, a contagem vai ficar defasada mesmo. Pode ser que eu esqueça um filme ou outro - o negócio que vale é a retomada. Bora lá?